quarta-feira, 6 de abril de 2011

Uma Estranha Realidade...


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Uma estranha realidade

Um guerreiro sabe que é apenas um homem. Ele só lamenta que sua vida seja tão curta que ele não possa agarrar todas as coisas que gostaria. Mas, para ele, isso não é um problema: é só uma pena.

Sentir-se importante faz a pessoa tornar-se pesada, desajeitada e vaidosa. Para ser um guerreiro, é preciso ser leve e fluido.

Quando são vistos como campos de energia, os seres humanos aparecem como fibras de luz, como teias brancas de aranha, fios muito finos que circulam da cabeça aos pés. Assim, aos olhos do vidente, um homem parece um ovo de fibras circulantes. E seus braços e pernas são como espinhos luminosos que explodem em todas as direções.

O vidente vê que todos os homens estão em contato com tudo o mais, não por suas mãos, mas por meio de um punhado de fibras compridas que saem do centro de seu abdome. Essas fibras ligam o homem a seu ambiente; mantêm seu equilíbrio; dão-lhe estabilidade.

Quando um guerreiro aprende a ver, ele vê que um homem é um ovo luminoso, seja ele um mendigo ou um rei, e que não há jeito de modificar nada; ou melhor, o que poderia ser modificado naquele ovo luminoso? O quê?

Um guerreiro nunca pensa em seu medo. Em vez disso,pensa nas maravilhas de ver o fluxo da energia! O resto é enfeite, enfeite sem importância.

Quando um homem não está preocupado em ver, as coisas parecem as mesmas toda vez que ele olha para o mundo. Quando ele aprende a ver, por outro lado, nada é a mesma coisa toda vez que você a vê, e contudo é a mesma. Ao olhar do vidente, o homem é como um ovo. Toda vez que ele vê o mesmo homem, vê um ovo luminoso, e no entanto não é o mesmo ovo.

Os xamãs do México antigo deram o nome de aliados para as forças inexplicáveis que agiam sobre eles. Eles as chamaram aliados porque pensaram que podiam utilizá-las a seu bel-prazer, uma noção que demonstrou ser quase fatal para aqueles xamãs, porque o que eles chamavam de aliado é um ser sem essência corporal que existe no universo. Os xamãs dos tempos modernos os chamam de seres inorgânicos.

Perguntar que função os aliados têm é como perguntar o que nós, homens, fazemos no mundo. Estamos aqui, é só. E os aliados estão aqui, como nós; e talvez estivessem aqui antes de nós.

A maneira mais eficaz de se viver é como um guerreiro. Um guerreiro pode se preocupar e pensar antes de tomar uma decisão, mas uma vez que a tomou, segue seu caminho,livre de preocupações ou pensamentos; haverá mil outras decisões ainda à sua espera. Esta é a maneira do guerreiro.

Um guerreiro pensa em sua morte quando as coisas se turvam. A idéia da morte é a única coisa que modera nosso espírito.

Um guerreiro tem de saber, antes de mais nada, que seus atos são inúteis e que, no entanto, ele tem de proceder como se não o soubesse. Esta é a loucura controlada de um xamã.

Os olhos de um homem podem desempenhar duas funções: uma é ver a energia enquanto flui no universo e a outra é "olhar as coisas neste mundo". Nenhuma dessas funções é melhor do que a outra; entretanto, treinar os olhos apenas para olhar é um desperdício desnecessário e lamentável.

Um guerreiro vive pelo agir, não por pensar em agir, nem por pensar no que ele vai pensar depois de acabar de agir.

Um guerreiro escolhe um caminho com coração,qualquer caminho com coração, e o segue; e então ele se regozija e ri. Ele sabe por que vê que sua vida estará terminada muito depressa. Ele vê que nada é mais importante do que qualquer outra coisa.

Um guerreiro não tem honra, nem dignidade, nem família, nem nome, nem país; ele tem apenas a vida para ser vivida e, nessas circunstâncias, sua única ligação com seus semelhantes é sua loucura controlada.

Como nada é mais importante do que qualquer outra coisa, um guerreiro escolhe qualquer ato e age como se lhe importasse. Sua loucura controlada o faz dizer que o que ele faz importa e o faz agir como se importasse, e contudo ele sabe que não é assim; de modo que, quando completa seus atos, ele se retira em paz e quer seus atos tenham sido bons ou maus,dado certo ou não, isso absolutamente não o preocupa mais.

Um guerreiro pode escolher permanecer totalmente impassível e nunca agir, e comportar-se como se ser impassível realmente lhe importasse; ele também estará certo agindo assim porque isso também seria a sua loucura controlada.

Não existe nada vazio na vida de um guerreiro. Tudo está cheio até a borda. Tudo está cheio até a borda, e tudo é igual.

O homem comum está demasiado preocupado em gostar das pessoas ou que elas gostem dele. Um guerreiro gosta, e pronto. Gosta do que ou de quem quiser, e dane-se o resto.

Um guerreiro se responsabiliza por seus atos, pelo mais trivial de seus atos. O homem comum age através de seus pensamentos, e nunca se responsabiliza pelo que faz.

O homem comum é vitorioso ou derrotado e,dependendo disso, se torna um perseguidor ou uma vítima. Essas duas condições prevalecem enquanto a pessoa não vê. Ver desfaz a ilusão da vitória, ou da derrota, ou do sofrimento.

Um guerreiro sabe que está esperando e o que está esperando; e, enquanto espera, não deseja nada e assim a menor coisa que receba é mais do que ele pode tomar. Se precisa comer, dá um jeito, porque não está com fome; se alguma coisa machuca seu corpo, dá um jeito de parar aquilo,pois não sente. Ficar faminto ou com dor significa que o homem não é um guerreiro; e as forças de sua fome e de sua dor o destruirão.

O intento não é um pensamento, ou um objeto, ou um desejo. O intento é o que pode fazer um homem vencer, quando todos os seus pensamentos lhe dizem que ele está derrotado. Opera a despeito da indulgência do guerreiro. O intento é o que o torna invulnerável. O intento é o que envia o xamã através da parede, através do espaço, para o infinito.

Quando um homem entra no caminho dos guerreiros,fica consciente, aos poucos, de que a vida comum ficou para trás para sempre. Isso significa que o mundo comum não é mais um escudo para ele; e que ele deve adotar uma nova maneira de viver, para poder sobreviver.

Cada pedaço de conhecimento que se torna poder tem a morte como sua força central. A morte dá o último toque, e o que for tocado pela morte torna-se realmente poder.

Somente a idéia da morte torna o guerreiro suficientemente desprendido para ser capaz de se entregar a qualquer coisa. Ele sabe que a morte o espreita e não lhe dará tempo de se agarrar a nada, de modo que ele experimenta, sem ansiedade, tudo de todas as coisas.

Somos homens e nosso destino é aprender, e sermos lançados em novos mundos inconcebíveis. Um guerreiro que vê a energia sabe que não há limite para os novos mundos, para nossa visão.

"A morte é um turbilhão; a morte é uma nuvem brilhante no horizonte; a morte sou eu falando para você; a morte é você e seu bloco de notas; a morte é nada. Nada! Está aqui e contudo não está absolutamente aqui."

O espírito do guerreiro não está preparado para a indulgência ou a queixa, nem o está para ganhar ou perder. O espírito do guerreiro está preparado somente para a luta, e cada luta é a última batalha do guerreiro sobre a terra. O resultado importa pouco para ele. Em sua última batalha na terra um guerreiro deixa seu espírito fluir livre e claro. Enquanto sustenta sua batalha, sabendo que seu intento é impecável, um guerreiro ri e ri.

Falamos incessantemente a nós mesmos sobre nosso mundo. De fato, mantemos nosso mundo com nossa conversa interna. E sempre que terminamos de falar a nós mesmos sobre nós mesmos, o mundo continua sempre como devia. Nós o renovamos, o animamos com vida, o sustentamos com nossa conversa interna. Não apenas isso, também escolhemos nossos caminhos quando conversamos com nós mesmos. Assim repetimos as mesmas escolhas até o dia em que morremos, porque ficamos repetindo a mesma conversa interna sempre, até o dia em que morremos. Um guerreiro está consciente disso e se esforça para silenciar sua conversa interna.

O mundo é tudo o que está encerrado aqui: a vida, a morte, as pessoas, e tudo o mais que nos cerca. O mundo é incompreensível. Nunca o compreenderemos; nunca desvendaremos seus segredos. Assim devemos tratar o mundo como ele é: um puro mistério.

As coisas que as pessoas fazem não podem, de jeito algum, ser mais importantes do que o mundo. E assim o guerreiro trata o mundo como um mistério sem fim e o que as pessoas fazem como uma loucura sem fim.
C. Castañeda (D. J. Matus)