quinta-feira, 14 de abril de 2011

Reúnem-se os pássaros (4)

A conferência dos pássaros - Farid Ud-Din Attar

Continuação: Bayazid e Tarmazi


Um doutor erudito, eixo do mundo abençoado com excelentes qualidades, referiu o seguinte:

“Uma noite, vi num sonho Bayazid e Tarmazi, que me pediram para ser seu chefe. Fiquei muito curioso por saber por que esses dois xeques eminentes me tratavam com tamanha deferência. Lembrei-me então de que, certa manhã, arranquei um suspiro das profundezas do coração e, quando o sopro subiu, fez girar o martelo da porta do santuário, de modo que esta se abriu para mim. Entrei, e todos os mestres espirituais e seus discípulos, falando sem palavras, perguntavam-me qualquer coisa — todos, exceto Bayazid Bistami, que desejava encontrar-se comigo mas não queria perguntar-me coisa alguma. Disse ele: ‘Quando ouvi o chamado do teu coração compreendi que não preciso de mais nada senão obedecer às tuas ordens e ser guiado pela tua vontade. Como não sou nada, quem sou eu para dizer o que desejo? Basta ao servo cumprir os desejos do amo’.

“Foi por isso que os xeques me trataram com respeito e me deram precedência. Quando caminha em obediência, o homem age de acordo com a palavra de Deus. Não é servo de Deus o que se gaba de o ser. O verdadeiro servo revela sua qualidade no tempo do ordálio. Sujeita-te, pois, a provações, para que possas conhecer-te.”

O escravo e o manto de honra


Um rei deu um manto de honra a um escravo, que saiu do palácio real muito satisfeito da vida. Enquanto caminhava, a poeira da rua depositou-se nele, e o escravo, inadvertidamente, enxugou o rosto com a manga do manto. Alguém que tinha inveja dele foi correndo informar o rei do que acontecera, e o monarca, indignado com essa quebra das boas maneiras, mandou empalá-lo.

Quem se desonra com um proceder indecoroso não é digno de limpar o tapete de um rei.

O pedido do décimo terceiro pássaro

Outro pássaro pediu à Poupa:

“Ó tu cujos motivos são sem malícia, diz-me como posso ser sincero neste caminho para Deus. Visto que não consigo desistir do desejo do meu coração, gasto quanto tenho para atingir minha meta. Perdi o que tinha; o que guardei converteu-se em escorpiões em minhas mãos. Laço nenhum me prende, e lancei de mim todas as algemas e impedimentos. Desejo ser sincero no Caminho espiritual, na esperança de ver um dia, face a face, o objeto do meu culto”.

A Poupa retrucou:

“O Caminho não está aberto para qualquer um; só aos justos se permite trilhá-lo. Quem se esforça neste Caminho deve fazê-lo tranquilamente e com todo o coração. Quando tiveres queimado tudo o que possuis, junta as cinzas e senta-te sobre elas. Enquanto não morreres para todas as coisas deste mundo, uma por uma, não serás livre. E vendo que não ficarás muito tempo na prisão do mundo, aparta-te de tudo. Quando vier a morte, poderão as coisas que ora te escravizam afastá-la? Para palmilhar esta estrada faz-se mister sinceridade consigo mesmo — e ser um homem sincero consigo mesmo é mais difícil do que pensas”.

Dito alegórico de Tarmazi

O santo do Turquestão disse um dia a si mesmo: “Amo duas coisas: meu filho e meu cavalo malhado. Se eu fosse informado de que meu filho havia morrido, entregaria meu cavalo em ação de graças, pois essas duas coisas são como ídolos para a minha alma”.

Põe fogo nas tuas faltas, nos teus ressentimentos e nas tuas vaidades. Queima-os e não te gabes de ser mais sincero do que os outros. Quem se orgulha da própria sinceridade deveria esforçar-se por se ver tal qual é.

O xeque Khircani e a berinjela

Um dia, o xeque Khircani, que descansava sobre o próprio trono de Deus, sentiu muita vontade de comer uma berinjela. Pediu-a com a trompa e com a voz, de modo que sua mãe foi buscá-la. Assim que ele comeu a berinjela, aconteceu uma desgraça: cortaram a cabeça de seu filho, e um homem malvado a colocou à sua porta durante a noite. Disse então o xeque:

“Por cem vezes me ocorreu o pressentimento de que, se eu comesse uma berinjela, nem que fosse um pedacinho só, algo desastroso aconteceria. Mas o desejo de comê-la era tão forte que não consegui dominá-lo”.

Quem permite aos desejos que o dominem abafa a própria alma. Os letrados não sabem nada; não há segurança no seu saber; e são necessárias muitas espécies de conhecimento. A cada momento chega uma nova caravana e uma nova provação.

Não conheço ninguém tão afortunado quanto os magos do faraó, os quais, com a fé dos homens de hoje, separaram suas almas de si mesmos; e, estribados na religião, abandonaram todo o amor das coisas do mundo.

Fala o décimo quarto pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Ó tu que és clarividente! O que propões é uma digna aspiração. Conquanto eu pareça fraco, tenho, na realidade, um nobre ardor; embora minha força seja reduzida, minha ambição é sublime”.

A Poupa respondeu:

“Se tens um pouco dessa nobre ambição, por menor que seja, ela triunfará do próprio sol. A aspiração é as asas e as penas do pássaro da alma”.

A velha que queria comprar José

Conta-se que, quando José foi vendido aos egípcios, estes o trataram com bondade. Os compradores eram numerosos, de sorte que os mercadores o apreçaram em cinco a dez vezes o seu peso em almíscar. Enquanto isso, presa de grande agitação, uma velha saiu correndo e, metendo-se entre os compradores, pediu a um egípcio:

“Deixa-me comprar o cananeu, pois desejo muito possuir esse moço. Fiei dez bobinas de fio para pagá-lo, por isso fica com elas, dá-me José e não se fala mais nisso”.

Sorriram-se os mercadores e disseram:

“A tua simplicidade iludiu-te. Esta pérola única não é para o teu bico; já ofereceram por ele uma centena de tesouros. Como poderás dar um lance mais alto do que o deles com as tuas bobinas de fio?”

Fitando o olhar no rosto deles, respondeu a mulher:

“Sei perfeitamente que não o vendereis por tão pouco, mas é o bastante para mim que meus amigos e inimigos digam: ‘Essa velha estava entre os que queriam comprar José’.“

Quem não tem aspiração jamais alcançará o reino sem limites. Tomado dessa sublime ambição, um grande príncipe considerava o seu reino terrestre um punhado de cinzas.

Quando se deu conta do vazio da realeza temporal, concluiu que a realeza espiritual valia um milhar de reinos do mundo.

Ibrahim Adham

Um homem vivia a queixar-se das amarguras da pobreza, de modo que Ibrahim Adham o interpelou:

“Meu filho, não pagaste pela tua pobreza?”

“O que dizes é tolice”, volveu o homem, “como haveria alguém de comprar a pobreza?”

Tornou Adham:

“Eu, pelo menos, a escolhi voluntariamente e a comprei ao preço do reino do mundo. E ainda compraria um momento dessa pobreza por uma centena desses mundos”.

Os homens que têm sede de aperfeiçoar-se empenham nesse esforço a alma e o corpo. O pássaro da aspiração eleva-se a Deus, nas asas da fé, sobre as coisas temporais e espirituais. Se te falta a aspiração, é melhor que te retires.

O mundo de acordo com um sufi

Um sufi despertou certa noite e disse para si: “O mundo me parece uma arca na qual somos colocados e onde, fechada a tampa, nos entregamos a toda a sorte de loucuras. Quando a morte ergue a tampa, o que conquistou asas alça vôo para a eternidade, mas o que não as conquistou continua na arca, presa de mil tribulações. Certifica-te, pois, de que o pássaro da ambição adquire asas de aspiração e dá ao teu coração e à tua razão o êxtase da alma. Antes que se abra a tampa da arca, converte-te num pássaro do Espírito, pronto para estender as asas”.

A dúvida do décimo quinto pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Se o rei de que falamos é justo e verdadeiro, Deus também nos deu honestidade e integridade; e jamais careci de justiça no trato com os outros. Quando se encontram essas qualidades num homem, que lugar ocupará ele no conhecimento das coisas espirituais?”

A Poupa retorquiu:

“A justiça é o rei da salvação. O justo está a salvo de todos os tipos de erros e futilidades. É melhor ser justo do que passar a vida inteira nas genuflexões e prosternações do culto exterior. Nem a liberalidade se iguala, nos dois mundos, à justiça exercitada em segredo; mas quem professa a justiça abertamente achará difícil não se tornar um hipócrita. Quanto aos homens do Caminho espiritual, não pedem justiça a ninguém, mas recebem-na generosamente de Deus”.

Uma anedota do imã Hambal

Ahmad Hambal era o imã do seu tempo, cujo mérito excedia todos os louvores. De uma feita, desejando descansar dos estudos e do cargo, saiu à rua para falar com um homem muito pobre. Alguém que o viu censurou-o, dizendo:

“Não há ninguém tão ilustrado quanto vós, e não tendes precisão das opiniões de outro homem; a despeito disso, perdeis tempo com um pobre miserável que anda descalço e com a cabeça descoberta”.

“É verdade”, conveio o imã, “que conquistei a bola de pólo no hadis e na sunna, e que tenho mais conhecimentos do que esse homem; mas, no que concerne à compreensão, ele está mais perto de Deus do que eu.”

Tu, que és injusto por ignorância, reflete, pelo menos por um momento, na integridade dos que estão no caminho do espírito.

O rajá indiano

O sultão Mahmud certa vez aprisionou um velho rajá, que, experimentando o amor de Deus, fez-se muçulmano e renunciou aos dois mundos. Sentado a sós na tenda, deixou-se absorver inteiramente por esses sucessos e começou a verter lágrimas amargas e a despedir suspiros de desejo — de dia mais do que de noite, e de noite mais do que de dia. Finalmente, inteirado disso, Mahmud mandou chamá-lo:

“Não chores nem te lamentes”, disse-lhe, “és um rajá, e eu te darei uma centena de reinos por aquele que perdeste”.

“Ó padixá”, replicou o hindu, “não choro pelo meu reino nem pela minha dignidade perdida. Choro porque, no dia da ressurreição, Deus, o detentor da Glória, me dirá: ‘Ó homem desleal, semeaste contra mim a semente do insulto. Antes de Mahmud te atacar, nunca pensaste em mim. Só quando tiveste de jogar o teu exército contra ele e perdeste tudo minha lembrança te acudia. Crês que isso é justo?’ Ó jovem rei, é de vergonha que choro em minha velhice.”

Atenta para as palavras da justiça e da fé; atenta para os ensinamentos do Divã dos Livros Sagrados. Se tens fé, empreende a viagem para a qual te convido. Mas o que não figura no índice da fidelidade seja encontrado no capítulo da generosidade!

O guerreiro muçulmano e o cruzado cristão

Um muçulmano e um cristão estavam lutando quando chegou o momento, para o muçulmano, de fazer suas orações, de sorte que ele, orgulhoso, pediu ao cristão que lhe concedesse uma trégua. O cruzado concordou, e o muçulmano, afastando-se, fez suas orações. Quando voltou, reiniciou-se o combate com. renovado vigor. Pouco depois, por seu turno, o cruzado solicitou uma pausa para poder dizer as suas preces. Sendo-lhe atendido o pedido, ele também se afastou e, escolhendo um local apropriado, prosternou-se no pó diante do seu ídolo. Quando o muçulmano viu o adversário de cabeça baixa, disse a sós consigo: “Esta é a minha oportunidade de lograr a vitória”, e veio-lhe a idéia de golpeá-lo à traição. Mas uma voz interior recriminou-o: “Ó homem desleal, que pretendes trair o teu compromisso, é assim que manténs a tua palavra? O descrente não sacou da espada contra ti quando lhe pediste uma trégua. Não te lembras das palavras do Corão: ‘Cumpre fielmente tuas promessas’? Visto que um infiel foi generoso contigo, não te mostres inferior a ele. Ele agiu bem, queres agir mal. Faz-lhe o que ele te fez. Serás tu, muçulmano, indigno de confiança?” Conteve-se o muçulmano. Torturado pelo remorso, viu-se banhado em lágrimas da cabeça aos pés. Quando o cruzado deu tento do seu pranto, perguntou-lhe a razão dele.

“Uma voz celestial”, explicou o muçulmano, “censurou-me por não ter sido leal contigo. Vês-me neste estado porque fui vencido pela tua generosidade.”

Ouvindo-o, o cristão despediu um grande grito e disse:

“Já que Deus pode mostrar-se favorável a mim, seu inimigo declarado, e censurar seu amigo por deslealdade, como poderei persistir na infidelidade? Expõe-me os princípios do Islam para que eu possa abraçar a verdadeira fé e, lançando de mim o politeísmo, adotar os ritos da lei. Oh, como deploro a cegueira que me impediu, até agora, de reconhecer um Mestre assim!”

Ó tu, que deixaste de procurar o verdadeiro objeto dos teus desejos e careces grosseiramente da fé que lhe é devida! Creio que virá o momento em que, na tua presença, o céu rememorará todos os teus atos, um por um.

José e seus irmãos

No tempo da fome, os dez irmãos de José realizaram a longa viagem ao Egito. José recebeu-os, com o rosto coberto por um véu, e eles, depois de relatarem as agruras da jornada, pediram ajuda contra os terrores da fome.

Defronte de José havia uma taça, que ele golpeou com a mão, arrancando dela um som lastimoso. Os irmãos mostraram-se consternados: soltaram a língua e perguntaram-lhe:

“Ó Aziz! Sabes tu, ou sabe alguém, o que significa este som?”

“Sei muito bem”, respondeu José, “mas vós não suportareis que eu vos diga o que ele significa; pois a taça revela que tínheis um irmão, notável por sua beleza, que se chamava José.”

Em seguida, golpeou a taça pela segunda vez e disse:

“Diz-me a taça que o jogastes num poço e matastes um lobo inocente para, com o seu sangue, sujar o casaco de José”.

Golpeou a taça pela terceira vez e arrancou dela, de novo, um som lamentoso. E ajuntou:

“Afirma a taça que os irmãos de José venderam o irmão e mergulharam o pai num abismo de dor.

“O que foi que esses infiéis fizeram a seu irmão? Temei a Deus, pelo menos, ó vós que estais diante de mim!”

Isso os deixou em tal estado que eles se puseram a suar de medo, eles, que tinham vindo pedir pão. Ao venderem José, tinham-se vendido; e quando o largaram no poço, foram arremessados numa voragem de aflição.

O que ler esta história sem proveito é cego. Não passes os olhos por ela com indiferença, porque esta não é senão a tua própria história. Continuas a cometer pecados e faltas porque não te alumia a luz da compreensão. Se alguém golpear a taça da tua vida, porá de manifesto, para ti mesmo, teus atos culposos. Quando a taça da tua vida for golpeada e despertares do sono; quando tuas injustiças e pecados forem expostos, um por um, duvido que conserves a paz ou a razão. Semelhas uma formiga coxa numa tigela. Quantas vezes já desviaste a cabeça da taça do céu? Estende as asas e voa para o alto, tu, que tens conhecimento da verdade. Senão, correrás sempre que ouvires o som de uma taça.

A pergunta do décimo sexto pássaro

Outro pássaro indagou da Poupa:

“Ó tu, que és nosso chefe, responde: poderemos ser ousados quando nos aproximarmos da majestade do Simurgh? Parece-me que o que tem coragem está isento de muitos temores. Visto que és corajosa, espalha pérolas de sabedoria e conta-nos o segredo”.

“Todo aquele que é digno”, retrucou a Poupa, “é o mahram do segredo da divindade, e é bom sermos ousados quando temos a inteligência dos segredos de Deus. Mas como pode alguém que possui os segredos comunicá-los a outrem? Ainda assim, se nos move o puro amor, alguma ousadia é permitida. Quem está no caminho do conhecimento de si mesmo sabe quando deve ser ousado e não se deixa morrer por falta de esforço.

“Um verdadeiro dervixe será ousado e confiante em razão da esperança verdadeira que experimenta. O que é destemido graças ao amor vê o Senhor em tudo. Sua ousadia é boa e louvável, porque ele é um idiota do amor inflamado.”

Um idiota de Deus e os escravos de Amid

Khorassan se achava em próspera situação em virtude do sábio governo do príncipe Amid, que era servido por cem escravos turcos, cujos semblantes brilhavam como a lua cheia, cujos corpos eram ciprestes esguios, cujas pernas se diriam de prata e cujo hálito recendia a almíscar. Usavam brincos de pérolas, com reflexos que iluminavam a noite e a faziam parecer dia; seu turbante era do mais fino brocado, e eles traziam, em volta do pescoço, colares de ouro; cobria-lhes o peito um tecido de prata e pedras preciosas lhes enriqueciam o cinto. Todos montavam cavalos brancos. E quem quer que olhasse para qualquer um deles ficava imediatamente apaixonado. Um sufi, maltrapilho e descalço, viu, por acaso, à distância, o grupo de moços e perguntou:

“Que é aquela cavalgada de huris?”

“Aqueles moços”, responderam-lhe, “são os pajens de Amid, o príncipe desta cidade.”

Quando o idiota de Deus ouviu isso, o vapor da loucura lhe subiu à cabeça e ele bradou:

“Ó Deus, dono do glorioso céu, ensina Amid a cuidar dos seus servos!”

Se és como esse idiota, tem também a sua ousadia; ergue-te como uma árvore esguia; mas, se não tiveres folhas, não sejas atrevido e não brinques. A audácia dos idiotas de Deus é boa coisa. Eles não sabem dizer se o caminho é bom ou mau; só sabem agir.

Um idiota santo

A Poupa continuou:

“Um idiota de Deus andava nu e quase morto de fome por uma estrada em pleno inverno. Como não tinha casa nem abrigo, estava encharcado de água da chuva e de granizo. Chegou, afinal, a um palácio em ruínas e decidiu abrigar-se ali; mas, quando ia entrar, já no portal, uma telha lhe caiu na cabeça e rachou-lhe o crânio, de modo que o sangue principiou a correr. Virando o rosto para o céu, o idiota de Deus perguntou:

“Não teria sido preferível fazer soar o tambor real a deixar cair uma telha na minha cabeça?”

A prece de um louco

Grassava no Egito uma fome tão terrível que em toda parte as pessoas morriam implorando um pedaço de pão. Ao ver quanta gente se finava de fome, um louco que por ali passava casualmente disse a Deus:

“Ó tu, que possuis as boas coisas do mundo e da religião: já que não podes dar de comer a todos os homens, cria-os em menor número”.

Se algum atrevido no tribunal disser uma inconveniência, deverá humildemente pedir perdão.

Outro louco

Um sufi, um idiota de Deus, estava sendo atormentado por um bando de crianças que lhe atiravam pedras. Finalmente, refugiou-se num canto de um prédio. Naquele momento, porém, começou a saraivar e o granizo lhe caiu na cabeça. Tomando-o pelas pedras que lhe atiravam as crianças, o homem pôs-se a mostrar-lhes a língua e a insultá-las, na suposição de que elas continuavam a apedrejá-lo, pois a casa se achava às escuras. Por fim, descobrindo que as pedras não passavam de granizo, arrependeu-se e orou:

“Ó Deus, foi por estar a casa às escuras que pequei com a língua”.

Se compreenderes os motivos dos que estão no escuro, sem dúvida os perdoarás.

O décimo sétimo pássaro interroga a Poupa

Outro pássaro disse à Poupa:

“Enquanto eu viver, o amor do Ser Eterno me será caro e agradável, e nunca deixarei de pensar nele. Tenho convivido com todas as criaturas vivas e, longe de me haver apegado a elas, não me identifiquei com nenhuma. A loucura do amor me ocupa todos os pensamentos, de modo que, para mim, o amor é bastante. Mas esse amor não convém a todos, e agora chegou o momento em que devo traçar uma linha de minha vida para poder aceitar uma taça de vinho de meu amado; nesse instante, os olhos do meu coração se tornarão luminosos graças à sua beleza, e minha mão tocará o seu pescoço como penhor da união.”

Replicou a Poupa:

“Não é com essas pretensiosas fanfarronadas que alguém pode vir a ser hóspede respeitado do Simurgh do Cáucaso. Não exaltes tanto o amor que acreditas sentir por ele, pois nem todos poderão possuí-lo. Cumpre que o vento da boa fortuna erga o véu do mistério para que o Simurgh te atraia a si e para que te sentes com ele em seu harém. Se quiseres chegar ao sítio sagrado, precisas, primeiro que tudo, esforçar-te por ter um conhecimento das coisas espirituais, pois, de outro modo, o teu amor ao Simurgh se transformará em tormento. Para a tua verdadeira felicidade, será forçoso que o Simurgh também te ame”.

O sonho de um discípulo de Bayazid

Na mesma noite em que Bayazid partiu do palácio deste mundo, um discípulo o viu em sonhos; e perguntou a esse excelente pir como conseguira escapar de Munkir e Nakir. Respondeu-lhe o sufi:

“Quando esses dois anjos me interrogaram a respeito do Criador, eu lhes disse: ‘A pergunta não pode ser respondida com precisão, pois, se eu disser: Ele é meu Deus, e isso é tudo, estarei apenas expressando um desejo meu; será melhor que volteis para Deus e lhe pergunteis o que ele pensa de mim. Se ele me chamar seu servo, sabereis que assim é. Caso contrário, sabereis que ele me abandona aos laços que me prendem. Visto não ser fácil obter a união com Deus, de que me servirá chamar-lhe Meu Senhor? Se ele não aceita o meu serviço, como poderei pretender que seja meu amo? É verdade que inclinei a cabeça, mas também se faz mister que ele me chame seu escravo’”.

Mahmud na sauna

Certa noite, Mahmud, que se sentia deprimido, entrou disfarçado no hammam. Um jovem atendente deu-lhe as boas-vindas e fez os arranjos necessários para que ele pudesse transpirar confortavelmente sobre os carvões ardentes. Feito isso, deu ao sultão um pedaço de pão seco, que ele comeu. Disse, então, o sultão para si mesmo: “Se este atendente se tivesse recusado a receber-me, eu teria mandado cortar-lhe a cabeça”. Por fim, o sultão declarou ao jovem que desejava tornar ao seu palácio. Sobreveio o moço:

“Comestes da minha comida, conhecestes a minha cama e fostes meu hóspede. Terei sempre imenso prazer em receber-vos. Conquanto, na verdade, sejamos feitos da mesma substância, como, no que concerne às coisas externas, podeis ser comparado a alguém de tão baixa condição?”

O sultão agradou-se tanto da resposta que voltou várias vezes a ser hóspede do atendente. Na última ocasião, ordenou-lhe que fizesse um pedido.

“Se eu, um mendigo, fizer um pedido”, disse o atendente, “o sultão mo negará.”

“Pede o que quiseres”, instou com ele o sultão, “nem que seja deixar o hammam para tornar-se rei.”

“Meu único pedido”, confessou o jovem, “é que o sultão continue a ser meu hóspede. O atendente de banho sentado ao vosso lado numa sauna é mais feliz que o rei num jardim sem vós. Visto que a boa fortuna me visitou por obra da sauna, seria ingratidão de minha parte deixá-la. Vossa presença iluminou este lugar; que mais posso pedir além de vós?”

Se amas a Deus, busca também ser amado por ele. Mas ao passo que um homem procura esse amor, sempre velho e sempre novo, outro deseja dois óbolos de prata do tesouro do mundo; procura uma gota d’água quando poderia ter o oceano.

Os dois aguadeiros

Encontrando-se com um colega, um aguadeiro pediu-lhe um pouco da sua água. O outro retrucou-lhe:

“Ó tu, que és ignorante das coisas espirituais, por que não bebes a tua própria água?”

E o primeiro respondeu:

“Dá-me um pouco da tua água, ó tu que tens o conhecimento espiritual, pois estou enjoado da minha”.

Adão estava farto das coisas familiares, e por isso decidiu provar o trigo, coisa nova para ele. Vendeu as coisas velhas para comprar um pouco de trigo. Tornou-se injusto. Chegou o amor e bateu-lhe à porta, à sua procura. Quando o relâmpago do amor o destruiu completamente, tanto as coisas velhas quanto as novas desapareceram e nada sobrou! Mas não é dado a todos enfararem-se de si mesmos e morrerem completamente para a vida antiga.

O discurso do décimo oitavo pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Acredito haver conquistado para mim toda a perfeição possível, e conquistei-a à força de penosas austeridades. Uma vez que obtive aqui o resultado que almejava, é-me difícil sair à cata do lugar de que falas. Já conheceste, acaso, alguém que tenha deixado um tesouro para vaguear dificultosamente pelas montanhas, no ermo e através das planícies?”

Replicou a Poupa:

“Ó diabólica criatura, cheia de vaidade e presunção! Ó tu, que estás mergulhado no egoísmo! Ó tu, que sentes tamanha aversão pelo fazer! Foste seduzido pela imaginação e estás agora distante das coisas divinas. O corpo de desejo domina-te o espírito; o Diabo roubou-te o cérebro. O orgulho apossou-se de ti. A luz que julgas ter no Caminho Espiritual não passa de uma chama bruxuleante. O teu amor às coisas espirituais é imaginário. Não te deixes seduzir pelo tênue clarão que vês. Enquanto o teu corpo de desejo te enfrentar, tem tento em ti. Precisas combater esse inimigo com a espada na mão. Quando se mostra uma luz falsa, vinda do teu corpo de desejo, olha para ela como se fosse o aguilhão de um escorpião, para o qual deves usar salsa. Não te desesperes por causa da escuridão do caminho que te mostrarei e porque a luz que ali verás não te incutirá a pretensão de seres companheiro do sol. Enquanto continuares a viver no orgulho da vida, ó meu querido, tuas leituras e teus esforços mofinos não valerão um óbolo. Só depois de renunciares ao orgulho e à vaidade serás capaz de deixar esta vida sem pesar. Enquanto seguires aferrado à presunção, à ufania e às coisas da vida exterior, cem flechas vexativas te ferirão de todos os lados.

O xeque Abu Bekr de Nishapur

O xeque saiu, um dia, do mosteiro em companhia dos discípulos, montado no seu burro, enquanto os companheiros iam a pé. De repente, o burro peidou estrepitosamente, fazendo que o xeque desse um grito e rasgasse a khirka. Os discípulos miraram-no, surpresos, e um deles perguntou-lhe por que agira desse modo. O xeque explicou:

“Quando olhei à minha volta e vi o número dos meus seguidores, pensei comigo mesmo: ‘Agora sou realmente igual a Bayazid. Hoje me acompanham inúmeros discípulos fervorosos; assim sendo, amanhã estarei cavalgando, sem dúvida, com glória e honra, na planície da ressurreição’ “. E, logo, ajuntou: “Foi então, ao presumir ser esse o meu destino, que o meu burro fez aquele barulho aparentemente impróprio, que ouvistes e com o qual queria dizer: ‘Eis aqui a réplica que dá um burro a quem tem tais pretensões e pensamentos tão vãos!’ Daí que o fogo do arrependimento se abatesse tão de repente sobre minha alma, e minha atitude se modificasse, e minha posição imaginária caísse ao chão feita em pedaços”.

Ó tu, que mudas a cada momento, és como o faraó até as raízes dos cabelos. Mas se destruíres em ti mesmo o ego por um só dia, tua escuridão iluminar-se-á. Nunca digas a palavra “eu”. Tu, por causa dos teus “eus”, incorreste numa centena de males e serás sempre tentado pelo Diabo.

Deus fala a Moisés

Um dia, em segredo, disse Deus a Moisés:

“Vai pedir conselho a Satanás”.

Moisés foi visitar Iblis e, quando se aproximou dele, pediu-lhe um conselho.

“Lembra-te sempre”, disse Iblis, “deste axioma singelo: nunca digas ‘eu’, para que nunca venhas a ser como eu.”

Enquanto subsistir em ti um pouco que seja de egoísmo, participarás de infidelidade. A indolência é uma barreira no caminho espiritual; mas se a conseguires transpor, uma centena de “eus” quebrará a cabeça num momento.

Toda gente vê tua vaidade e presunção, teu ressentimento, inveja e cólera, mas tu mesmo não os vês. Há um canto do teu ser cheio de dragões e, por negligência, te entregas a eles; e os animas e acarinhas dia e noite. Assim, se tens consciência do teu estado interior, por que continuas tão indiferente?

O dervixe que possuía uma bela barba

No tempo de Moisés havia um dervixe que passava os dias e as noites em estado de adoração, conquanto não tivesse nenhuma sensibilidade pelas coisas espirituais. Possuía uma longa e bela barba e, muita vez, quando estava rezando, interrompia as orações para penteá-la. Um dia, topando com Moisés, abeirou-se dele e pediu:

“Ó paxá do monte Sinai, roga a Deus, por favor, que me diga por que não experimento nem satisfação espiritual nem êxtase”.

Na outra vez que Moisés escalou o Sinai, falou a Deus a respeito do dervixe, e Deus disse, em tom de desaprovação:

“Se bem tenha procurado união comigo, esse dervixe está constantemente pensando na sua longa barba”.

Quando desceu, Moisés repetiu ao sufi as palavras de Deus. Ouvindo-as, o sufi pôs-se a arrancar a barba, chorando amargamente. Nisso, Gabriel foi ter com Moisés e lhe disse:

“Ainda agora o teu sufi está pensando na barba. Não pensou em outra coisa enquanto rezava, e sente-se ainda mais apegado a ela agora que a está arrancando!”

Ó tu, que cuidas haver deixado de te preocupar com a tua barba, estás mergulhado num oceano de aflição. Quando puderes pensar nela com alheamento, terás o direito de cruzar, navegando, esse oceano. Mas se nele mergulhares com a tua barba, ser-te-á difícil sair dele.

Outra anedota de um homem com uma longa barba

Um bêbado que tinha uma barba comprida e bonita caiu por acidente numa lagoa funda. Ao vê-lo cair, um homem que passava gritou:

“Tira a sacola que tens na cabeça!”

O homem que se afogava contestou:

“Isto não é sacola, é a minha barba, e não é ela que me atrapalha”.

Mas o homem que estava passando insistiu:

“Seja o que for, livra-te dela, ou acabarás te afogando”.

Ó vós, que sois como bodes, e não vos pejais das vossas barbas enquanto tiverdes um corpo de desejo e um demônio para amarrar-vos, o orgulho de faraó e de Hanna será o vosso quinhão. Voltai as costas para o mundo, como fez Moisés, e sereis capazes de agarrar o faraó pela barba e segurá-lo com firmeza. Quem percorre o caminho da luta consigo mesmo deve encarar o coração apenas como shish kabab. O homem que tem o regador não espera chover.

A dúvida do décimo nono pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Dize-me, ó tu, que és famosa no mundo inteiro, que devo fazer para sentir-me contente nesta viagem? Se mo disseres, minha mente se sentirá mais aliviada, e estarei disposto a deixar-me conduzir nesta empresa. Com efeito, a direção é necessária para não ficarmos apreensivos. E como só desejo aceitar a direção do mundo invisível, repilo, com boas razões, a falsa direção das criaturas terrenas”.

“Enquanto viveres”, replicou a Poupa, “contenta-te com te lembrares de Deus, e mantém-te em guarda contra conversas indiscretas. Se o puderes fazer, os cuidados e tristezas da tua alma se desvanecerão. Vive contente em Deus; gira, por amor dele, como o domo do céu. Se souberes de algo melhor, diz o que é, ó pobre pássaro, para que possas ser feliz ao menos por um momento.”

A anedota de um amigo de Deus

Um amigo de Deus que estava morrendo pôs-se a chorar, e os que lhe faziam companhia perguntaram por que chorava.

“Choro como as nuvens da primavera”, disse ele, “porque chegou o momento em que devo morrer e estou perturbado. Se meu coração já está com Deus, como posso morrer?”

“Se teu coração já está com Deus, terás uma boa morte”, acudiu um dos presentes.

Replicou o sufi:

“Como pode vir a morte a quem está unido a Deus? Se já estou com ele, minha morte parece impossível!”

Quem se contenta com existir como partícula do grande todo perde o egoísmo e torna-se livre. Está em contentamento com o teu amigo, como a rosa no cálice.

Anedota alegórica

Disse um homem aperfeiçoado:

“Por setenta anos trabalhei o meu espírito e agora estou em estado de êxtase, contentamento e felicidade, e nele participo da Majestade Soberana, unido à própria Divindade. No que te concerne, enquanto te ocupas em procurar as falhas dos outros, como provarás a alegria do mundo invisível? Se procuras falhas com olhos minuciosos, como verás as coisas do mundo interior? Quando se trata dos erros alheios, és capaz de dividir ao meio um fio de cabelo, mas olhas para os teus com olhos de cego. Confessa tuas próprias faltas e, por mais culpado que sejas, Deus se amerceará de ti”.

Os dois bêbados

Um homem que se excedia no beber chegava amiúde a perder não só o juízo mas também o respeito próprio. Certo dia, um amigo encontrou-o nesse estado deplorável, sentado no meio da rua. Arranjou um saco, colocou-o dentro dele, enfiando-lhe primeiro os pés, pôs o saco às costas e guiou para casa. No caminho, apareceu outro bêbado, cambaleando, sustentado por um companheiro. O homem cuja cabeça pendia para fora do saco despertou e, vendo o outro naquele estado, disse, em tom repreensivo:

“Ah, infeliz, no futuro bebe dois copos de vinho a menos, e serás capaz de andar como eu estou andando — livre e só”.

Nosso próprio estado não é diferente. Vemos faltas porque não amamos. Se tivéssemos alguma compreensão do verdadeiro amor, por menor que fosse, as faltas das pessoas à nossa volta nos pareceriam boas qualidades.

O apaixonado e sua amante

Um jovem, valente e impetuoso como um leão, esteve, durante cinco anos, apaixonado por uma mulher. Num dos olhos da sua beldade havia uma manchazinha, mas o amante, quando admirava a beleza da amada, nunca a via. Como poderia o homem, tão apaixonado, reparar num minúsculo defeito? Com o tempo, todavia, o amor começou a diminuir e ele reconquistou o domínio de si mesmo. Foi então que notou a mancha, e perguntou à mulher como aparecera aquilo. E ela:

“Isso apareceu na ocasião em que teu amor principiou a esfriar. Quando o teu amor por mim se tornou defeituoso, meu olho se tornou defeituoso para ti”.

Ó cego de coração! Por quanto tempo ainda continuarás a procurar as faltas alheias? Forceja por ter consciência das coisas que escondes com cuidado. Quando vires tuas faltas em toda a sua hediondez, não te preocuparás tanto com as dos outros.

O policial e o bêbado

Um policial derrubou, com um murro, um homem embriagado, que lhe disse:

“Por que te deixas levar por tamanha paixão? Estás praticando um ato ilegal. Não estou fazendo mal a ninguém, mas tu te confundes com a embriaguez e a jogas na rua. Estás muito mais embriagado do que eu, embora ninguém se dê conta disso. Portanto, deixa-me em paz e clama por justiça contra ti mesmo”.

Continuará: Pergunta do vigésimo pássaro