sexta-feira, 15 de abril de 2011

Reúnem-se os pássaros (5)

A conferência dos pássaros - Farid Ud-Din Attar

Continuação: Pergunta do vigésimo pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Ó Chefe do Caminho, que deverei pedir ao Simurgh se chegar ao lugar em que ele mora? Já que o mundo será iluminado por ele, não saberei o que pedir. Se eu soubesse qual é a melhor coisa a pedir ao Simurgh em seu trono, minha mente estaria mais tranquila.”

A Poupa replicou:

“Idiota! Não sabes o que pedir? Pede o que mais desejas. Um homem deveria saber o que deseja pedir, embora o próprio Simurgh seja melhor do que qualquer coisa que possas desejar. Queres aprender com ele o que desejas pedir?”

Oração do xeque Rubdar

Quando se viu às portas da morte, Bu Ali Rubdar pronunciou estas palavras:

“Minha alma está nos meus lábios à espera do eterno bem-estar. As portas do céu estão abertas, e colocaram um trono para mim no paraíso. Os santos que habitam no palácio da imortalidade gritam com as vozes dos rouxinóis: ‘Entra, ó amante verdadeiro. Sê grato e caminha com alegria, pois ninguém na terra jamais viu este lugar’. Ó Deus, se eu obtiver tua graça e teu favor, minha alma não escorregará da mão da certeza. Não inclinarei a cabeça como no mundo dos homens, pois minha alma foi formada através do teu amor, e, por isso, não conheço o céu nem o inferno. “Se eu for reduzido a cinzas não se encontrará em mim outro ser além de ti. Conheço-te, mas não conheço religião nem descrença. Eu sou tu, tu és eu. Desejo-te, meu coração está em ti. Só tu me és necessário. És para mim este mundo e o mundo por vir. Satisfaz, por menos que seja, a necessidade do meu coração ferido. Mostra, por menos que seja, teu amor por mim, pois só respiro por ti.”

Palavras de Deus a Davi

Do Alto disse Deus a Davi:

“Diz a meus servos: ‘Ó punhado de terra! Se eu não tivesse o céu para dar como recompensa e o inferno para dar como castigo, pensaríeis alguma vez em mim? Se não existissem a luz nem o fogo, pensaríeis alguma vez em mim? Mas visto que mereço o respeita supremo, deveis adorar-me sem esperança e sem medo; e, no entanto, se nunca fôsseis sustentado pela esperança ou pelo medo, pensaríeis alguma vez em mim? Visto que sou o vosso Senhor, deveis adorar-me desde as profundezas do coração. Rejeitai tudo o que não for eu, reduzi a cinzas esse tudo e atirai as cinzas ao vento da excelência’”.

Mahmud e Ayaz

Um dia, Mahmud chamou seu favorito, entregou-lhe a coroa, fê-lo sentar-se no trono e disse-lhe:

“Ayaz, dou-te meu reino e meu exército. Reina, que este país é teu; agora desejo que tomes o meu lugar e atires o teu brinco de escravo à Lua e ao Peixe”.

Quando os oficiais e cortesãos souberam disso, seus olhos se enegreceram de inveja e eles disseram:

“Nunca, no mundo, concedeu um rei tanta honra a um escravo”.
Mas Ayaz chorou, e eles o interpelaram:

“Perdeste o juízo? Já não és escravo, agora pertences à realeza. Por que choras? Alegra-te!”

Ayaz retrucou:

“Não vedes as coisas como elas são, não compreendeis que o sultão deste grande país me exilou da sua presença. Ele me quer governando o seu reino, mas eu não quero separar-me dele. Quero obedecer-lhe, mas não quero deixá-lo. Que me importam governos e realezas? Minha felicidade está em contemplar-lhe o rosto”.

Aprende com Ayaz a servir a Deus, ó tu que te deixas ficar ocioso dia e noite, ocupado em prazeres baratos e vulgares. Ayaz desce do pináculo do poder, mas tu não te moves do sítio em que estás e tampouco tens desejo de mudar. A quem poderás, afinal, confidenciar tuas mágoas? Enquanto dependeres do paraíso e do inferno, como compreenderás o segredo que desejo revelar-te? Mas quando já não dependeres dos dois, o amanhecer do mistério se erguerá da noite. Além disso, o jardim do paraíso não se destina ao indiferente; e o empíreo é só para os homens de coração.

A oração de Rab’Iah

“Ó Deus, que conheces o segredo de todas as coisas, realiza os desejos mundanos dos meus inimigos e concede aos meus amigos a eternidade da vida futura! Mas, quanto a mim, estou livre de ambos. Ainda que eu possuísse este mundo presente ou o do futuro, estimá-lo-ia pouco em comparação com o estar perto de ti. Só preciso de ti. Se eu voltasse os olhos para os dois mundos, ou desejasse alguma coisa além deste, não seria mais que um descrente.”

Palavras de Deus a Davi

O Criador do Mundo falou a Davi por trás do véu do mistério.

“Tudo o que existe, bom ou mau, visível ou invisível, móvel ou imóvel, será apenas um substituto se não for eu mesmo, para quem não acharás substituto nem igual. Visto que nada pode tomar-me o lugar, não te separes de mim. Sou-te necessário, dependes de mim. Por conseguinte, não desejes o que se te oferece se não for eu.”

O sultão Mahmud e o ídolo de Somnat


Mahmud e seu exército descobriram em Somnat um ídolo chamado Lat, que o sultão decidiu destruir. Para salvá-lo, os hindus ofereceram dez vezes o seu peso em ouro, mas Mahmud recusou a oferta e ordenou que se preparasse uma grande fogueira a fim de queimar o ídolo.
Nisso, um dos seus oficiais tomou a liberdade de perguntar-lhe:

“Não seria melhor, senhor, aceitar o dinheiro e não queimar o ídolo?”

“Eu pensaria”, respondeu Mahmud, “que, no dia do ajuste supremo, o Criador se voltaria para o universo reunido e diria: ‘Ouvi o que fizeram Azaz e Mahmud — o primeiro modelou ídolos e o segundo os vendeu!”

Dizem que quando o ídolo dos adoradores do fogo estava ardendo, caíram cem maunds de pedras preciosas, de modo que Mahmud, ainda assim, não ficou sem o seu tesouro. E disse:

“Lat recebeu o que merecia, e Deus me recompensou”.

Outra anedota de Mahmud

Quando esse manancial de iluminação de reis deixou Gazná para mover guerra aos hindus e viu-se diante do poderoso exército deles, sentiu-se deprimido e prometeu ao Rei da Justiça que, se lhe sorrisse a vitória na refrega, daria aos dervixes todo o butim que lhe caísse nas mãos. Sorriu-lhe a vitória, e o seu exército arrecadou enorme quantidade de tesouros. Quando os caras-pretas se retiraram, deixando os despojos, disse Mahmud:

“Mandai tudo isso para os dervixes, que assim prometi a Deus e preciso cumprir minha promessa”.

Mas seus oficiais protestaram, argumentando:

“Por que dar tanta prata e tanto ouro a um punhado de homens que não lutam? Por que não os dar ao exército, que conheceu o ardor da batalha? Ou, pelo menos, por que não os guardar no Tesouro?”

Hesitou o sultão entre o cumprimento da promessa e os protestos do exército. Nesse ínterim, Bu Hussein, um idiota de Deus, inculto mas inteligente, passou por ali. Vendo-o à distância, ordenou Mahmud:

“Chamai aquele idiota; dizei-lhe que venha cá e diga o que se deve fazer, que agirei de acordo com o seu parecer; como ele não tem medo do sultão nem do exército, dará uma opinião imparcial”.

Quando o sultão expôs o caso a Bu Hussein, este respondeu:

“Senhor, é uma questão de dois óbolos. Mas se desejais proceder de maneira adequada em relação a Deus, deixai de pensar, meu querido, nos dois óbolos. E se conquistardes outra vitória por sua graça, envergonhai-vos de reter os dois. Já que Deus vos concedeu a vitória, pode pertencer-vos o que pertence a Deus?”

Em resultado disso, remeteu Mahmud o tesouro aos dervixes, e tornou-se um grande monarca.

A pergunta do vigésimo primeiro pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Diz-nos, ó tu que desejas conduzir-nos à Majestade desconhecida, o que mais se aprecia na corte. É necessário, quando nos aproximamos de reis, levar-lhes presentes preciosos? E é verdade que só os homens vis se aproximam deles de mãos vazias?”

Replicou a Poupa:

“Se seguires meu conselho, levarás ao país do Simurgh o que nele não se encontra. Seria, acaso, conveniente que alguém levasse o que lá já existe? Lá se encontra o verdadeiro conhecimento, lá se encontram segredos, lá se encontra obediência a seres mais elevados. Leva, pois, o ardor do amor do espírito; ninguém pode oferecer mais nada além disso. Se um simples suspiro de amor chegar àquele lugar, levará consigo o perfume do coração. Aquele sítio está consagrado à essência da alma. Se um homem desferir um único suspiro de verdadeira contrição, estará imediatamente de posse da salvação.

José e Zuleica

No tempo em que Zuleica desfrutava de sua alta posição e dignidade, mandou que atirassem José na prisão e ordenou a um escravo que lhe aplicasse cinquenta vergastadas:

"Bate-lhe com força para eu poder ouvir-lhe os gritos”.

Mas o bom homem não queria machucar José; por isso, pegou a pele de um animal e recomendou ao condenado:

“Quando eu começar a bater, grita a cada golpe que eu der”.

Ouvindo os gritos, Zuleica foi até a cela e ordenou ao escravo:

“És muito delicado com ele. Bate-lhe com mais força”.

Disse, então, o escravo a José:

“Ó radiância do sol! Se Zuleica te examinar e não vir marca nenhuma de vergasta, castigar-me-á severamente. Descobre os ombros, faz das tripas coração e aguenta as varadas. Se gritares bastante por causa dos golpes, ela dará menos atenção às marcas”.

José descobriu os ombros, a vara zurziu e os gritos dele subiram ao céu. Quando os ouviu, Zuleica foi até lá e disse:

“Basta, os gritos produziram efeito. Antes, seus gemidos não eram nada; agora, são muito reais”.

O xeque Ben Ali Tuci

Ben Ali Tuci, um dos grandes sábios do seu tempo, caminhava pelo vale da consciência e da atenção. Não sei de ninguém que possuísse tanta graça e atingisse tamanha perfeição! Disse ele certa vez:

“No outro mundo, os infelizes condenados verão claramente os habitantes do céu, que poderão falar-lhes acerca das alegrias daquele sítio e do gosto da união. Os afortunados dirão:

" ‘Aqui não existem alegrias vulgares, porque nos apareceu o sol da divina beleza, e ela é de tal ordem que os oito paraísos se diriam escuros. No fulgor dessa beleza não permanecem da eternidade nem nome nem traços!’

“E dirão os moradores dos infernos:

“‘Percebemos que o que dizeis é verdade, mas, neste lugar horrível, é evidente que incorreremos na cólera do Senhor, e por isso fomos apartados do seu rosto. O fogo do remorso em nossos corações lembra-nos o fogo do mundo subterrâneo’.”

Forceja por suportar a dor, a aflição e as feridas e dessa maneira mostra o teu zelo. Se te ferirem, aceita o sofrimento, e não te entregues à piedade de ti mesmo.

Pedido a Maomé

Um homem pediu licença humildemente para fazer uma oração no tapete do Profeta, mas este não lho consentiu, dizendo:

“A terra e a areia estão ardendo. Põe o rosto na areia ardente e na terra da estrada, visto que todos os feridos pelo amor têm de ter a marca no rosto, e a cicatriz precisa ser vista. Deixa que vejam a cicatriz do coração, pois pelas cicatrizes são conhecidos os homens que palmilham o caminho do amor”.

A pergunta do vigésimo segundo pássaro e a descrição do primeiro vale ou o Vale da Busca

Esse pássaro disse à Poupa:

“Ó tu, que conheces a estrada de que nos falaste e pela qual desejas que te acompanhemos, para mim o caminho é escuro e, na escuridão, parece-me ser muito difícil e ter muitas parasangas de extensão”.

A Poupa respondeu:

“Temos sete vales para cruzar, e só depois de havê-los cruzado descobriremos o Simurgh. Nenhuma das criaturas que já fizeram essa jornada regressou ao mundo, e é impossível dizer quantas parasangas temos de percorrer. Sê paciente, ó tu que tens medo, pois todos os que seguiram por esta estrada estavam como estás.

“O primeiro vale é o Vale da Busca; o segundo, o Vale do Amor; o terceiro, o Vale da Compreensão; o quarto é o Vale da Independência e do Alheamento; o quinto, o Vale da Unidade Pura; o sexto, o Vale do Espanto; e o sétimo é o Vale da Pobreza e do Nada, além do qual não se pode ir.

“Quando entrares no primeiro, o Vale da Busca, cem dificuldades te saltearão; serás submetido a uma centena de provas. Ali, o papagaio do céu não é mais que uma mosca. Ali terás de passar vários anos, terás de fazer grandes esforços e modificar o teu estado. Terás de abrir mão de tudo o que te pareceu precioso e achar que é nada tudo o que possuis. Quando estiveres seguro de que nada possuis, ainda terás de alhear-te de tudo o que existe. Teu coração ter-se-á, então, salvo da perdição, e verás a pura luz da Divina Majestade e teus desejos reais se multiplicarão ao infinito. Quem ali ingressa se enche de um desejo tão grande que se entregará plenamente à busca simbolizada por esse vale. Pedirá ao seu escanção um gole de vinho e, depois de tomá-lo, nada mais terá importância para ele senão a busca da verdadeira meta. E, então, já não se arreceará dos dragões, dos guardas da porta, que procuram devorá-lo. Quando se abre a porta e ele entra, o dogma, a crença e a descrença — todos deixam de existir.”

Extrato de “Ganj-Nama”, o Livro do Tesouro de Osman Amru

Quando Deus comunicou o sopro puro da vida ao corpo de Adão, que era apenas terra e água, não quis que as hostes de anjos soubessem e nem mesmo suspeitassem disso. Disse-lhes, portanto:

“Prosternai-vos diante de Adão, ó Espíritos Celestiais!”

Todos se prosternaram até o chão, e, enquanto se achavam inclinados, Deus comunicou o sopro da vida a Adão, e nenhum deles teve conhecimento do segredo que Deus desejava ocultar. Isto é, nenhum senão Iblis, que disse a si mesmo: “Ninguém me verá dobrar o joelho. Ainda que a cabeça me caia do corpo, isso não será tão mau quanto fazer o que Deus quer. Sei muito bem que não se trata apenas de Adão estar ou não estar na terra, e, por conseguinte”, não pretendo inclinar a cabeça e deixar de presenciar o segredo”. Assim, em vez de prostrar-se, Iblis ficou atento e viu o segredo. Mas Deus disse:

“Ó tu, que estavas espreitando, roubaste-me o segredo e, por isso, provocar-te-ei a morte, pois não quero que nenhum outro ser o conheça. Quando um rei da terra esconde um tesouro, mata a pessoa que o viu escondendo. Tu és essa pessoa”.

“Senhor”, acudiu Iblis, “concedei-me uma trégua, pois sou vosso servo; e dizei-me: como poderei expiar meu pecado?”

“Visto que ma pedes”, anunciou Deus, “conceder-te-ei uma trégua; apesar disso, a partir deste momento pôr-te-ei no pescoço o colar da maldição e impor-te-ei o nome de mentiroso e caluniador para que toda gente se acautele de ti até o dia da ressurreição.”

Disse Iblis:

“Que posso temer da vossa maldição desde que esse puro tesouro se manifestou para mim? Assim como vem de vós a maldição, assim também vem a misericórdia. Onde há o veneno há também o antídoto. Amaldiçoais algumas criaturas e abençoais outras. Agora que delinqúi sou a criatura da vossa maldição”.

Se não podes descobrir e entender o segredo de que falo, não é por ele não existir, senão por não procurares direito. Se fazes distinção entre as coisas que vêm de Deus, não és um homem no caminho do espírito. Se te consideras honrado pelo diamante e humilhado pela pedra, Deus não está contigo. Nota bem, não deves desamar o diamante e detestar a pedra, pois ambos vêm de Deus. É melhor que tua amante, num momento de exaltação, te atire uma pedra do que uma mulher atirar-te uma jóia.

No caminho do aperfeiçoamento de si mesmo, o homem não deve perder tempo nem por um instante. Se ele cessar, por um átimo sequer, de trabalhar pelo próprio aperfeiçoamento, ficará para trás.

História de Majnun

Um homem que amava a Deus surpreendeu Majnun peneirando a terra da estrada e perguntou:

“Majnun, que estás procurando?”

“Estou procurando Laïla”, respondeu ele.

E o homem tornou a perguntar:

“Esperas encontrar Laïla aqui?”

“Procuro-a em todos os lugares”, tornou Majnun, “na esperança de encontrá-la em algum deles.”

Yussuf Hamdani

Yussuf Hamdani foi um homem célebre do seu tempo, um vidente, que compreendia os segredos dos mundos. Foi ele quem disse:

“Tudo o que se vê, quer nas alturas quer nas profundezas — cada átomo, na verdade —, é outro Jacó pedindo notícias de José, que ele perdeu”.

No caminho espiritual, tanto o amor quanto a esperança são necessários. Se não os tiveres, melhor será que renuncies à busca. O homem precisa tentar ser paciente. Mas é paciente o amante? Sê paciente e forceja, esperançoso, por encontrar alguém que te mostre o caminho. Mantém-te dentro de ti mesmo e não deixes a vida exterior capturar-te.

A história de Abu Sa’id Mahnah

O xeque Mahnah se achava num estado de grande perplexidade, com o coração partido em dois pedaços, quando viu, à distância, um velho aldeão de aparência piedosa, que caminhava, pachorrento. Do seu corpo emanava uma luz brilhante. O xeque cortejou-o e falou-lhe, em seguida, sobre o triste estado em que se encontrava. O velho aldeão ouviu-o, atento, e, depois de refletir um pouco, disse:

“Ó Bu Sa’id, se se enchesse de painço, não uma mas cem vezes, o espaço que medeia entre a terra mais baixa e o trono de Deus, e um passarinho comesse um grão de painço de mil em mil anos e depois desse cem voltas ao redor da terra, nem mesmo após todo esse tempo tua alma teria recebido notícias da corte celeste, e Bu Sa’id ainda estaria muito longe dela”.

Uma grande paciência é necessária aos que sofrem; mas ninguém é paciente. Quando se desvia a busca do interior para o exterior, e ainda que se estenda a todo o universo, ao cabo será insatisfatória. Quem não se empenha na busca da vida interior não passa de um animal — que direi? nem sequer existe, é uma não-entidade, uma forma sem alma.

Mahmud e o buscador de ouro

Certa noite, Mahmud, cavalgando sozinho, viu um homem peneirando terra à procura de ouro; tinha a cabeça inclinada e já fizera, aqui e ali, várias pilhas de terra peneirada. O sultão olhou para ele, jogou seu bracelete entre as pilhas de terra e arrancou-se dali a galope. Na noite seguinte, Mahmud voltou ao mesmo lugar e deu com o homem ainda peneirando.

“O que encontraste ontem deveria ser suficiente para pagar o tributo do mundo, e ainda assim continuas a joeirar!”, admirou-se o sultão.

E o homem respondeu:

“Achei o bracelete que jogastes, e foi por ter achado um tesouro desse quilate que preciso continuar a procurar enquanto viver”.

Sê como esse homem e procura até que a porta se abra para ti. Teus olhos não estarão fechados para sempre; procura a porta.

Uma sentença de Rabi’ah

Um homem rezava:

“Ó Senhor, abri uma porta para eu poder chegar a vós”.

Ouvindo-o, Rabi’ah exclamou:

“Ó idiota! A porta está fechada?”

Fim

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