sábado, 2 de abril de 2016

Do Ato de Observar - Krishnamurti


"Parece-me que não tentastes compreender o significado da palavra “participar”. No participar não há autoridade, pois não há nem vós nem eu. Não há consciência de dar ou de receber; só há o ato de participar, que não confere importância nem a quem dá nem a quem recebe. E, participar implica muitas coisas: que ambas as partes — o orador e vós — se acham num estado de espírito no qual só há aquela tendência, ou sentimento, ou afeição, ou amor que, impremeditadamente e sem identificação com nenhuma personalidade, estabelece a participação (comunhão). Nesse participar não há instrução. Não há instrutor nem discípulo, não há quem dá nem quem recebe, porém, tão-só, um ato de completa comunhão. Não sei se já alguma vez conhecestes esse sentimento de completa união, de completa comunhão existente no ato de participar, que é com efeito um ato de grande afeição e compaixão. Vamos considerar um assunto que não exige uma mera explicação verbal ou dialética, ou troca de opiniões, ou oposição de uma idéia a outra idéia, pois, quando tais coisas existem, o ato de participar se torna muito fraco. Queremos falar, nesta tarde, sobre a questão da ação. Mas, para compreendê-la, não apenas verbalmente, não apenas intelectualmente, porém com a totalidade de nosso ser, temos de ultrapassar as palavras. Só então pode haver comunhão, participação, só então podemos tomar parte juntos em algo de suma importância. E esta questão da ação requer, não só uma explicação verbal, mas também, e muito mais, que marchemos juntos, explorando cuidadosamente o nosso caminho para a compreensão desta questão da ação.

Assim, para comungarmos deve, por certo, haver não só a compreensão verbal, mas também, ao mesmo tempo e no mesmo nível, intensidade; do contrário, não é possível nenhuma comunhão, nenhuma participação. Essa intensidade deve existir ao mesmo tempo, na mesma profundidade, no mesmo nível — e isso, afinal de contas, é amor; é compaixão. E, para a compreensão desse problema da ação, requer-se não só uma mente objetiva, um exame objetivo, mas também muita sutileza e sensibilidade — não mera aceitação ou rejeição de uma certa definição de “agir”, porém, antes, o descobrimento, por cada um de nós, dessa coisa extraordinária que se chama “vida” — que é ação. A existência é ação. Há dois estados — eu pelo menos os distingo — na existência. Há aquele estado estático que é “existir”. E há aquele movimento dinâmico que é “existência”.

A vida é existência — movimento; e esse movimento é ação. A vida (a totalidade da vida, e não partes dela: o total estado de existência) é ação. Mas, quando meramente existimos, como o faz a maioria de nós, a ação se torna então um problema complexo. A existência não tem divisões; não é um estado fragmentário da mente ou do ser; nela, é possível a ação total. Mas, quando dividimos a existência em diferentes segmentos, fragmentos, a ação se torna então contraditória.

Dividimos a vida em vida profissional, religiosa, mundana, psicológica, artística, literária, etc. Está a vida fracionada em vários fragmentos: a divisão “tribal”, exaltada no nacionalismo; os líderes “tribais”; as religiões “tribais”; os vários fragmentos de nossa vida — nossas diferentes maneiras de atuar, pensar e sentir, no escritório, no lar, no ônibus, em nossos passeios, nossos serviços sociais, nossas devoções ou práticas religiosas. Os diferentes fragmentos de nossa vida, uma vez que dissociados, estão — e têm de estar forçosamente — em conflito uns com os outros; nossas ações, por conseguinte, contradizem inevitavelmente umas às outras. Tal a nossa vida de cada dia. Vosso comportamento em casa difere do vosso comportamento no escritório ou em vosso clube ou num encontro com amigos; e diferentes são também os atos que praticais quando estais a sós em vosso quarto.

Nossa vida, pois, como se pode observar, é fragmentária, fracionária. E procuramos integrar todas essas partes diferentes. Mas isso nunca será possível. Integrar é juntar. Quando se integram partes heterogêneas, essas partes de novo se soltam. Assim, o que desejamos descobrir não é como integrar as partes, porém, sim, o que é ação total — no escritório, na igreja ou no templo, em casa, quando estais a sós, quando contemplais o mar ou vos achais em comunhão com a natureza: ação total. Queremos descobrir se existe essa ação e, por conseguinte, se podemos viver num estado de ação constante — isto é, de existência, movimento, vida — num estado não fragmentário. É o problema que vamos considerar nesta tarde.

A maioria de nós deseja viver uma vida razoavelmente pacífica, inteligente, harmônica, num certo estado de integridade (inteireza), não sujeitos ao controle do ambiente, livres desta perene batalha com outros ou com nós mesmos. Desejamos viver uma vida mais ou menos “integrada”, inteligente. E essa vida não é possível porque todas as nossas atividades se acham num estado de contradição,' não só consciente, mas também inconscientemente. Quando uma pessoa se observa (e é isso que estamos fazendo nestas reuniões), pode ver que não está meramente escutando o orador, porém, principalmente se servindo de suas palavras como de um espelho em que se refletem os movimentos de sua própria mente, e nele descobrindo o que é verdadeiro e o que é falso (por si mesmo e não por indicação de outrem) e, por conseguinte, percebendo, por si próprio, a natureza contraditória de suas atividades.

Ora, por que é tão contraditória a vida? Por que existe tanta contradição em nós mesmos, nossas perspectivas, nossos sentimentos, nosso comportamento, nossas idéias? E, por que essa fragmentação da vida — vida profissional, vida doméstica, vida religiosa e não religiosa, vida mundana, etc. — cada atividade em contradição com as outras?

Estivemos considerando outro dia o desejo. O desejo existe quando há um sentimento de algo que nos está faltando, necessidade de alguma coisa. Isto é, quando desejais alguma coisa, isso é um indício de que algo vos está faltando. Mas o desejo, em si, não é contraditório. Há contradição quando os objetos do desejo são contraditórios, ou diferentes, ou opostos. O desejo é constante, mas os seus objetos mudam, variam, ou se opõem; e, por conseguinte, todas as atividades do desejo geram contradição. Isto é, todo ato de desejo é um estado de falta, de necessidade, em relação ao objeto; percebe-se, assim, que o desejo é contraditório. Desejo paz; no entanto, ao mesmo tempo, estou todo possuído do espírito de competição. Desejo ser bom, e ao mesmo tempo tenho um forte sentimento de antagonismo. As idéias, os objetos do desejo, são contraditórios, não o próprio desejo. Releva compreender isso. A maioria das pessoas crê que o próprio desejo é contraditório; por essa razão tentam reprimi-lo, sublimá-lo, controlá-lo — fazer tudo o que podem em relação ao desejo.

O sentimento de falta, de insuficiência, faz-nos comparar; e dessa comparação nasce a ânsia, o desejo, o anelo da coisa que irá preencher aquele vazio, aquela falta. É muito simples isso. Não estou querendo complicá-lo. Como se trata de uma questão sobremodo complicada, temos de considerá-la de maneira bem simples.

Dissemos, naquela outra tarde, que o desejo resulta da percepção — percepção, sensação, contato e, por fim, o desejo. É isso o que sucede: Aparece um belo carro; vejo-o; toco-o; nasce a sensação, e o desejo. E esse desejo é fortalecido e perpetuado pelo pensamento; daí se origina o conflito para alcançar o que desejo — possuir o carro. O carro me dá preenchimento, preenche aquele vazio, aquele sentimento de falta; se eu tivesse aquele carro, faria isto e aquilo; teria mais poder, mais dinheiro. O sentimento de falta é o estado de desejo. E por isso há conflito. Isto é, interiormente, quase todos nós somos insuficientes — pelo menos pensamos sê-lo — e procuramos preencher essa insuficiência (e isso é uma forma de desejo); essa insuficiência gera a contradição e, por conseguinte, atividades contraditórias.

Vede, por favor, como já disse, não estais meramente a escutar as palavras do orador. Estais “escutando” vossa própria mente, observando vosso próprio “estado de ser”. Dessa maneira podeis ver, por vós mesmo, como surge a contradição. Penso que o carro me dará felicidade, poder, posição, importância. E também, muito fundo em mim mesmo, existe o sentimento de afeição, de simpatia, de benevolência; também o sentimento de que devo realizar algo na vida, torna-me alguém, o que é um estado contraditório. Essa contradição, pois, nasce daquele terrível sentimento de insuficiência, de vazio, de solidão. Por isso, vivemos a fazer esforços; e esforço é luta, competição. Tal é nossa vida: uma luta perene para “vir a ser”, realizar coisas, ser bons, preencher-nos, conquistar prestígio, posição, poder, domínio, tornar-nos inteligentes. Assim é a nossa vida: luta constante, luta infinda, até à morte; e, para fugirmos dela, inventamos deuses, templos, uma maneira de vida que nos afaste dessa luta. Enquanto não se compreender a luta, não importa o que se faça, nunca se terá paz. Pode-se ter uma paz superficial — assim como, superficialmente, podemos tranqüilizar-nos com um comprimido — mas isso não resolverá o nosso problema. O problema é muito mais profundo.

Assim, para compreender o que é a ação — não a “ação correta” ou a “ação incorreta” — temos de compreender esse vasto processo do desejo; e temos também de compreender a larga separação existente entre a idéia e a ação. E, ainda, temos de compreender a natureza do pensador e do pensamento, ou do observador e da coisa observada.

Examinaremos primeiramente a natureza contraditória da idéia e da ação. Isto é, temos uma fórmula de “ação correta” — o ideal, o padrão, a imagem, o símbolo, o que deveria ser, o que queremos que seja; e à nossa frente temos o fato: o que é. Está claro, não? Temos o ideal, o herói, o exemplo, o que deveria ser — e o que é. O que é — é inteiramente diferente do que deveria ser. E estamos sempre a comparar o que é com o que deveria ser. Somos violentos; isto é um fato. Isto é, na realidade somos violentos; o ideal é a não-violência; e, por conseguinte, estamos sempre a comparar o que é com o que deveria ser, resultando daí uma contradição.

Por essa razão, o idealista está sempre em conflito, sempre a batalhar com o “não devo” e o “devo” — reprimindo, esforçando-se, lutando, para transformar o que é em o que deveria ser.

Toda a nossa vida, como a vida da maioria, se constitui desta batalha. Eu fui, eu sou e o que eu deveria ser — e “o que eu deveria ser” é o ideal, o padrão, a fórmula; o “eu sou” resulta de “o que eu fui”; e, assim, existe esta constante batalha. Por favor, observai-vos. Usamos o ideal como um meio de mudar o que é, como um incentivo. Atentai nisto, porque vamos investigar algo que exige a vossa atenção. Nós usamos o ideal como um estímulo para transformar, mudar ou modificar o que é, daí o conflito, a luta. Por isso, nunca observamos o que é. Nunca nos pomos em contato direto com o que é, só nos pomos em contato com o que é através do que deveria ser ou não deveria ser. Por conseguinte, não há uma comunhão completa com o que é, e daí o conflito. Porque estamos procurando transformar o que é em algo que imaginamos nos proporcionará mais prazer ou nos resguardará da dor, declara-se a batalha, o conflito, a luta, a perene brutalidade resultante do querermos fazer algo com um ideal.

Temos, assim, a divisão, a separação: o fato, o que é — e o padrão, fórmula ou ideal do que deveria ser. Entretanto, o que é deve mudar. Temo-nos servido do ideal, do exemplo, como um meio ou um incentivo a alterarmos o fato — o que é; por essa razão, vivemos em conflito.

A mente foi criada para ser sempre nova, jovem, inocente — e não para ser torturada, intimidada, “torcida”. Entretanto, o que é tem de ser alterado; isso, decerto, é muito importante. Suponhamos um indivíduo ávido; o ideal é não ser ávido. Ou consideremos outro problema muito mais religioso e familiar a todos nós: para achar Deus, devo ser um santo. Há, pois, o ideal e o fato; e, depois, a batalha, consiste em reprimir, em controlar, em lutar perenemente contra essa coisa chamada “sexo”; por conseguinte, a fuga ao fato. Um indivíduo adere às mais absurdas reformas sociais, retira-se para o Himalaia, enclausura-se, violenta todas as coisas, para fugir ao fato. Entretanto, o fato precisa ser compreendido e transformado sem conflito. Está claro isto? O fato, ou seja o que é — violência, luxúria, avidez, etc. — deve ser transformado sem esforço; ao começardes a fazer esforço, a batalhar ou lutar, começastes a torcer a vossa mente, a embotá-la, a insensibilizá-la.

Para viver, temos de ser sobremodo sensíveis — sensíveis à beleza, sensíveis à fealdade, ao esqualor, à brutalidade, à sordidez, à imundície das ruas desta cidade, às nuvens que vemos numa certa tarde, resplendentes da luz solar, ao reflexo sobre as águas, a um bonito rosto, um belo sorriso. Ser sensível a tudo é a própria natureza, a própria essência da vida. Mas, quando a mente é violentada por meio de esforços, de batalha constante, de repressão, sublimação ou fuga — torna-se embotada, cansada, estúpida, completamente insensível. Assim, o problema consiste em como promover a mutação do fato, do que é, sem nenhum esforço. É possível olharmos esse fato — o que é — sem o desejo de transformá-lo, de mudá-lo, sem com ele nos identificarmos?

Disseram-me que um eletrônio se comporta de uma certa maneira, registrada no diagrama. Mas, quando esse mesmo eletrônio é observado pelo olho humano, sob o microscópio, essa própria observação pela mente humana altera o seu comportamento. Isto é, a observação do eletrônio pelo homem origina no próprio eletrônio um comportamento diferente daquele que tem quando a mente humana não o está observando.

Temos falado, nestes muitos anos, acerca do ver, do observar, do olhar. É possível olharmos uma flor, uma árvore, um rosto, sem lhe darmos nome, sem nos identificarmos com o que vemos, sem condenação, justificação, explicação? Isto é, pode-se olhar sem pensamento? Isso não significa ficar com a mente “em branco”; significa olhar. E só é possível olhar, quando não existe nenhum EU a interferir nesse olhar. Compreendeis? Isto é, há o fato de que sou violento. E afastei de mim a estulta idéia de ser não-violento. E vejo, também, que o lutar para dele me livrar, para modificá-lo, requer esforço e que esse próprio esforço faz parte da violência. Entretanto, reconheço que a violência precisa ser alterada completamente, ser transformada; nela tem de operar-se uma mutação.

Ora, como conseguir isso? Se puserdes de parte a questão, por a considerardes extremamente difícil, perdereis a possibilidade de entrar num estado extraordinário, ou seja na existência sem esforço c, por conseguinte, numa vida altamente sensível, altamente inteligente. Só essa inteligência elevada ao sumo grau pode descobrir os limites e as medidas do tempo, e ultrapassá-los. Percebeis a questão, o problema? Até agora, temo-nos servido do ideal como o meio ou incentivo para libertar-nos do que é\ e ele gera contradição, hipocrisia, crueldade, brutalidade. Mas, se lançamos à margem esse ideal, ficamos com o fato. Vemos então que o fato precisa ser alterado nem nenhuma espécie de atrito. Todo atrito, toda luta, todo espaço destrói a sensibilidade da mente e do coração.

Que podemos então fazer? O que se pode fazer é observar o fato — observá-lo, sem tradução, interpretação, identificação, condenação, avaliação — observá-lo, simplesmente. É relativamente fácil observar uma flor sem lhe dar nome, sem dizer “gosto” ou “não gosto”. Observar simplesmente — isso é fácil quando se trata de coisas externas que não influem psicologicamente, emocionalmente. Mas é difícil observar dessa maneira a violência; isto é, não dar nome ao sentimento da violência, não o condenar, não o julgar, não o identificar, porém, apenas observá-lo. Quando se olha o fato simplesmente, pode-se observar um comportamento diferente, tal como o que se observa no ele- trônio. Se considerarmos o fato sem nenhuma pressão, o fato sofrerá então uma transformação completa, uma completa mutação, sem esforço algum.

Nós dissipamos energia com negar o fato, “suprimi-lo”, procurando fugir dele ou dominá-lo, controlá-lo, reprimi-lo. Com isso estamos dissipando nossa energia. E, se detemos essa atividade, naturalmente, sem esforço algum, teremos então toda essa energia para observar; e a própria energia da observação, adicionada ao fato — que é também energia — torna-se uma energia total, de modo que não há contradição alguma.

E há também este fato: o pensador e o pensamento. Observai a vós mesmo, como experimentador e coisa experimentada. Aqui, mais uma vez, encontramos a divisão, a contradição, a dualidade e, por conseguinte, o conflito. O que estamos tentando agora é co-participar (share together) — o que, em verdade, é um estado de verdadeira afeição, de grande amor, em que nunca existe conflito algum, em que nenhum esforço se faz, seja em casa, com a mulher, o marido, os filhos, seja em qualquer gênero de atividade. Isso só é possível ao observarmos e compreendermos toda contradição.

Uma das principais contradições de nossa vida é esta: a divisão entre o pensador e o pensamento. O pensador, para a maioria das pessoas ditas religiosas, é o Atman, etc. — algo existente primeiro, e depois o pensamento. Mas, se observardes, vereis que não há primeiro, que só há pensar; o pensamento inventa o pensador, e este assume então uma permanência no tempo, como Ente Supremo, Eu Superior, Atman; mas, o pensador é inventado pelo pensamento. Sem pensamento, não há pensador; portanto, temos esta contradição, não só no nível consciente, mas também no nível inconsciente. Há esta divisão: meu e nao-meu, ter experiência e querer mais experiência; querer o pensador alterar o pensamento. Temos esta dualidade, esta batalha que, consciente ou inconscientemente, se está travando a todas as horas. E enquanto mantivermos o pensador como centro, como observador, tem de haver conflito; e a ação, por conseguinte, produzirá mais conflito ainda. Cabe-nos, pois, observar o pensamento sem o pensador — quer dizer, não condenar o pensamento; não alterá-lo; não reprimi-lo; não dizer que tal pensamento é bom, que tal pensamento é correto, que tal pensamento é nobre, que tal pensamento é ignóbil: observar, simplesmente, o pensamento.

Perguntareis, então: “Quem é o observador que observa o pensamento?” — O observador, o pensador, só existe quando há a idéia de transformar o pensamento, de reprimi-lo, alterá-lo, dominá-lo, controlá-lo. Só quando existe alguma atividade a respeito do pensamento, existe pensador. Mas, quando essa atividade se detém inteiramente, só há então pensamento e não há nenhum observador a pensar. E quando se observa dessa maneira, pode-se ver que, na observação, o pensamento passa por uma revolução fundamental; e, por conseguinte, a vida, a existência se torna tal, que não há mais contradição na ação. Isso não é um ideal, uma coisa que vos cumpre alcançar. Deixai de pensar assim. É um processo natural, como vereis, se compreenderdes esse extraordinário fenômeno da observação — da observação de si mesmo, sem nenhum desejo de mudar, de alterar, de reprimir: observação pura e simples.

Costumamos observar, ver, olhar, ouvir, no nível dimensional, ou seja no tempo. Tudo observamos através do tempo — não só do tempo cronológico, senão também do tempo que a mente inventou — o amanhã. Na realidade, não existe amanhã. Nós o inventamos, psicologicamente. Só há amanhã no sentido cronológico. Nós olhamos o pensamento, a avidez, a inveja, a ambição, nossa estupidez, nossa brutalidade, a violência, o prazer, através dessa dimensão — do tempo — e nos servimos do tempo como meio de transformar a coisa que observamos. Daí se origina a contradição entre o fato, que é uma coisa viva, e o tempo, que é estático.

Devemos, pois, olhar realmente a vida, esse imenso campo da vida — não a vida “tribal” do indiano, do cristão, do budista, do alemão, do russo, do comunista etc., e seus pajés. Devemos olhar essa vida que é imensa, palpitante, cheia de força, ilimitada, com olhos que estejam somente a observar, e, por conseguinte, agir totalmente, com todo o nosso ser, a cada minuto. Não há então nenhuma contradição, porque foi compreendida inteiramente a natureza da dualidade ou contradição.

Explicamos que o sentimento de insuficiência, de vazio, de falta, é desejo — desejo a que o pensamento dá continuidade — e a fuga ao desejo, como uma forma de ação; ou o preenchimento desse vazio, como outra forma de ação.- Explicamos também a contradição entre o pensador e o pensamento, a contradição entre o fato — o que é — e o ideal. Uma vez tenhais compreendido todo esse processo, por meio da observação — não pelo intelectualizar, pelo exercitar das emoções, porém pelo simples observar — vereis que a vida é ação; não diferentes ações em diferentes níveis, em contradição uns com os outros, porém uma atividade total, como existência, como movimento; podereis então exercer vossa profissão, tudo fazer de maneira total, sem contradição alguma.

Só a mente que observou todas as suas atividades, seu próprio comportamento — só essa mente pode viver sem fazer esforço. Assim, sua ação não é contraditória; e, por conseguinte, ela não está na sujeição do tempo."

(Krishnamurti)