domingo, 29 de maio de 2016

Liberdade

O Amor

“Podeis sentir o amor com todas as suas benções, seu perfume, sua delicadeza, mas só se “vós” deixardes de existir, só se “vós” deixardes de querer alcançar ou de querer tornar-vos alguma coisa. Só esse amor pode transformar o mundo.“

Liberdade

“Liberdade significa não condenar nada do que vedes em vós mesmo. Em geral o condenamos, ou o explicamos, justificamos. Nunca olhamos sem justificação ou condenação. Por conseguinte, a primeira coisa que cumpre fazer — e esta é talvez a última coisa — é observar sem nenhuma espécie de condenação. Isso vai ser muito difícil, porque é nossa cultura, nossa tradição, comparar, justificar ou condenar o que somos. Dizemos “isto é certo e isso é errado; isto é verdadeiro e isto é falso, isto é belo,, etc.”, e isso nos impede de observar o que realmente somos.

Escutai: O que vós sois é uma coisa viva, e quando condenais o que vedes em vós mesmos, o estais condenando com uma memória morta, que é o passado. Há, por conseguinte, uma contradição entre o viver e o passado. Para se compreender o viver, o passado deve desaparecer; então, pode-se olhar. É isso o que estais fazendo agora, enquanto falamos; não ireis refletir em casa sobre o assunto, porque no momento em que começardes a fazê-lo estareis liquidado. Não estamos aqui para fazer terapia em grupo e tampouco confissões em público; isso seria infantil. O que vamos fazer é uma exploração de nós mesmos, como cientistas, sem dependermos de pessoa alguma. Se dependeis, seja de vosso analista ou vosso sacerdote, seja de vossa memória ou experiência, estais perdido, porque tudo isso é o passado. E se estais olhando o presente com os olhos do passado, jamais descobrireis o que é a coisa viva." 

Da Perceção Vem a Energia 

"A questão é certamente libertar a mente de forma total para que ela se encontre num estado de atenção que não tem limites, que não tem fronteiras. E como pode a mente descobrir esse estado? Como pode ela chegar a essa liberdade? 

Espero que estejam a colocar esta questão a vós mesmos com toda a seriedade, porque eu não a estou a colocar a vós. Não estou a tentar influenciar-vos; estou tão-somente a salientar a importância de nos colocarmos a nós mesmos esta questão. O facto de outra pessoa colocar a questão por palavras não tem qualquer significado se vocês não a colocarem a vós mesmos com insistência, com urgência. A margem de liberdade está a tornar-se mais estreita a cada dia, como devem saber se forem minimamente observadores. 

Os políticos, os líderes, os padres, os jornais e os livros que vocês leem, o conhecimento que adquirem, as crenças a que se agarram — tudo isto está a tornar a margem de liberdade cada vez mais estreita. Se vocês estiverem atentos a este processo que está a ter lugar, se perceberem verdadeiramente a estreiteza da mentalidade, a crescente servidão da mente, então descobrirão que da perceção vem a energia; e é esta energia que nasce da perceção que irá dissolver a mente mesquinha, a mente que vai ao templo, a mente que é receosa. Portanto, a perceção é a via da verdade."

Meditação 

"Não há dúvida de que a liberdade tem de começar no indivíduo que é um processo total, sem antagonismo com a mesma. O indivíduo é um processo total do mundo e, se ele se isola no nacionalismo ou na retidão, então ele causa desgraça e miséria. Se o indivíduo, contudo, que é um processo total que não se opõe à massa, mas que resulta dela, do conjunto — se o indivíduo se transforma, se ele transforma sua vida, então, para ele, há liberdade. E, como ele é o produto de um processo total, ao libertar-se do nacionalismo, da ambição, da exploração, ele age diretamente sobre o todo. A regeneração do indivíduo não se acha no futuro, mas no agora e, se adiarem a regeneração para amanhã, estarão atraindo a confusão, estarão presos na onda das trevas. A regeneração é agora, e não amanhã, pois a compreensão só se dá no presente. Não compreendem agora porque não põem todo seu coração e mente, toda sua atenção naquilo que desejam compreender. Se puserem o coração e a mente para compreender, compreenderão." 

A Perceção Imediata
 
“Para mim existe apenas perceção — que significa ver algo como falso ou verdadeiro de forma imediata. Esta perceção imediata do que é falso e do que é verdadeiro é o fator essencial — não o intelecto, com o seu raciocínio baseado na sua esperteza, nos seus conhecimentos, nos seus compromissos. Já vos deve ter acontecido algumas vezes verem a verdade de algo de forma imediata — tal como a verdade de que não podem pertencer ao que quer que seja. Isso é a perceção: ver a verdade de uma coisa de forma imediata, sem análise, sem raciocínio, sem nenhuma daquelas coisas que o intelecto cria com o intuito de adiar a perceção. É algo inteiramente diferente da intuição, que é uma palavra que nós usamos com loquacidade e de modo fácil... 

Para mim, existe somente esta perceção direta — não o raciocínio, não o cálculo, não a análise. Vocês têm de ter a capacidade de analisar; têm de ter uma mente boa e esperta para poderem raciocinar; mas uma mente que está limitada ao raciocínio e à análise é incapaz de perceber o que é a verdade...
Se vocês entrarem em comunhão com vós mesmos, saberão por que pertencem, por que se comprometeram; e se forem mais fundo, verão a servidão, a redução da liberdade, a falta de dignidade humana que esse compromisso requer. Quando vocês percebem tudo isto de forma instantânea, ficam livres; não é necessário fazerem um esforço para serem livres. É por essa razão que a perceção é essencial."

Pensar sem o Pensador 

"O macaco que está na árvore sente fome, e então surge a necessidade de procurar um fruto ou uma noz. Primeiro vem a ação, e depois a ideia de que teria sido melhor se a tivessem armazenado. Noutras palavras, o que surge primeiro: a ação ou o agente? Haverá um agente se não houver uma ação? Compreendem? É isto que estamos sempre a perguntar a nós próprios: quem é aquele que vê? Quem é o observador? Estará o pensador separado dos seus pensamentos, o observador separado do observado, o experimentador separado da experiência, o agente separado da ação?... Mas se vocês examinarem verdadeiramente o processo, com muito cuidado, de perto e com inteligência, verão que a ação surge sempre em primeiro lugar, e que a ação com um fim em vista cria o agente. Estão a seguir-me? Se a ação tiver um fim em vista, a obtenção desse fim faz surgir o agente. Se pensarem com muita clareza e sem preconceito, sem se conformarem, sem estarem a tentar convencer alguém, sem um fim em vista, nesse mesmo pensar não existe pensador — existe apenas o pensar. É somente quando vocês têm uma finalidade no vosso pensar que vocês se tornam importantes, e não o pensamento. Talvez alguns de vocês já tenham observado isto. E, de facto, algo que é importante descobrir, porque a partir disso nós saberemos como agir. Se o pensador surge primeiro, então ele é mais importante que o pensamento, e todas as filosofias, costumes e atividades da nossa civilização se baseiam nesta suposição, mas se o pensamento surgir primeiro, então ele é mais importante que o pensador.”

O Pensador É o Pensamento 

“Será que é necessário compreender o pensador, o agente, o executor, se o seu pensamento, o seu feito, a sua ação não podem ser separados dele? O pensador é o pensamento, o agente é o feito, o executor é a ação. O pensador revela-se no seu pensamento. O pensador, através das suas ações, cria o seu próprio sofrimento, a sua ignorância, a sua luta. O pintor pinta este quadro de felicidade passageira, de tristeza, de confusão. Por que produz ele este quadro doloroso? Por certo é este o problema que tem de ser estudado, compreendido e dissolvido. Por que pensa o pensador os seus pensamentos, a partir dos quais fluem todas as suas ações? É este o muro de pedra contra o qual vocês têm estado a bater com a vossa cabeça, não é verdade'? Se o pensador se conseguir transcender a si mesmo, então cessarão todos os conflitos: e, para se transcender, ele tem de se conhecer a si mesmo. O que é conhecido e compreendido, o que é realizado e completado não se repete. É a repetição que dá continuidade ao pensador."

Perceção

"Uma mente que está a aprender nunca diz «eu sei», porque o conhecimento é sempre parcial, ao passo que a aprendizagem é sempre completa. Aprender não significa começar com uma certa quantidade de conhecimento que depois vai sendo cada vez mais aumentada. Isto não é, de todo, aprender; trata-se simplesmente de um processo mecanicista. Para mim, aprender é algo completamente diferente. Aprendo sobre mim mesmo de momento a momento, e este «mim mesmo» é extraordinariamente vital; está vivo, em movimento; não tem um princípio nem um fim. Quando digo: «Conheço-me a mim mesmo», isso significa que a aprendizagem terminou e o que está a ter lugar é o conhecimento acumulativo. A aprendizagem nunca é acumulativa; é um movimento de saber sem princípio nem fim."

O Instante da Compreensão 

"Não sei se já repararam que há compreensão quando a mente está muito tranquila, mesmo que seja apenas por um segundo; há o instante da compreensão quando não existe a verbalização do pensamento. Experimentem-no e verão por vós mesmos que têm o instante da compreensão, essa extraordinária rapidez da perceção imediata e profunda, quando a mente está muito tranquila, quando o pensamento se encontra ausente, quando a mente não está sobrecarregada com o seu próprio barulho. Portanto, a compreensão seja do que for — de uma pintura moderna, de uma criança, da vossa mulher, do vosso vizinho, ou a compreensão da verdade, que está em todas as coisas — só pode ter lugar quando a mente está muito serena. Mas essa serenidade não pode ser cultivada, porque se vocês cultivarem uma mente serena, ela não será uma mente serena, mas uma mente morta. 

Quanto mais vocês estiverem interessados em algo, maior será a vossa intenção de compreender, mais simples, clara e livre estará a mente. Então a verbalização cessa. Afinal, o pensamento é palavra, e é a palavra que interfere. É o véu das palavras, que é memória, que entrevem entre o desafio e a resposta. É a palavra que está a responder ao desafio, ao qual chamamos inteleção. Portanto, a mente que está a tagarelar, que está a verbalizar, não pode compreender a verdade — a verdade na relação, não uma verdade abstrata. Não existe nenhuma verdade abstrata. Mas a verdade é muito subtil...
Como um ladrão na noite, ela vem secretamente, não quando estamos preparados para a receber."

O Intelecto Sem Proteções 

"Vocês só se podem conhecer a vós mesmos quando baixam a vossa guarda, quando não estão a calcular, a proteger, constantemente atentos a uma oportunidade de conduzir, de transformar, de subjugar, de controlar; quando vocês se veem a vós mesmos de forma inesperada, ou seja, quando a mente não tem preconceções cm relação a si própria, quando a mente está aberta, quando não se esteve a preparar para encontrar o desconhecido. 

Se a vossa mente estiver preparada, certamente não poderão conhecer o desconhecido, porque vocês são o desconhecido. Se disserem a vós mesmos: «Sou Deus» ou «Não sou mais que uma massa de influências sociais ou um feixe de qualidades» — se vocês tiverem qualquer preconceção sobre vós mesmos, não poderão compreender o desconhecido, aquilo que é espontâneo. 

Portanto, a espontaneidade só pode surgir quando o intelecto baixa a sua guarda, quando não se está a proteger, quando deixa de temer pela sua segurança; e isto só pode acontecer a partir de dentro. Isto é. o espontâneo tem de ser o que é novo, desconhecido, incalculável, criativo, aquilo que tem de ser expresso, amado. onde a vontade enquanto processo do intelecto, a controlar, a conduzir, não toma parte. Observem os vossos próprios estados emocionais e verão que os momentos de grande alegria, de grande êxtase, não são premeditados; eles acontecem, misteriosa, secreta e inesperadamente."

Não Sei 

"Se conseguirmos realmente chegar a esse estado de dizer: «Não sei», isso indica um extraordinário sentido de humildade; não há nenhuma arrogância de conhecimento; nenhuma resposta de afirmação de si mesmo com o intuito de impressionar os outros. Quando vocês poderem realmente dizer: «Não sei», o que muito poucos conseguem, então, nesse estado, todo o medo desaparece, porque todo o reconhecimento, toda a busca na memória, chegou ao fim; deixa de haver a investigação no campo do conhecido. Então surge esse algo que é extraordinário. Se estiveram a seguir o que eu disse até aqui, não apenas ao nível verbal, mas se estiverem de facto a experimentar o que estou a dizer, vão descobrir que quando são capazes de dizer: «Não sei» todo o condicionamento chegou ao fim. E qual é então o estado da mente?... 

Nós procuramos algo permanente — permanente no sentido do tempo, algo que perdure, eterno. Constatamos que tudo em nosso redor é transitório, num fluxo, nascer, florescer e morrer, e a nossa busca é sempre por descobrir algo que possa perdurar no campo do conhecido. Mas aquilo que é verdadeiramente sagrado está para além da medida do tempo; não pode ser encontrado dentro do campo do conhecido. O conhecido atua apenas através do pensamento, que é a resposta da memória ao desafio. Se eu for capaz de observar isso e quiser descobrir como posso terminar o processo do pensamento, como posso faze-lo? Certamente deverei, por meio do autoconhecimento, estar atento a todo o processo do meu pensamento. Devo ser capaz de ver que cada pensamento, por mais subtil ou elevado, ignóbil ou estúpido, tem as suas raízes no conhecido, na memória. Se eu for capaz de ver isso com muita clareza, então a mente, quando confrontada com um imenso problema, é capaz de dizer: «Não sei», porque ela não tem qualquer resposta."

Fragmentação e Unidade

"Um dos mais importantes problemas ainda por resolver é o de estabelecer uma unidade completa, algo que esteja além do fragmentário e egocêntrico interesse no “eu”, em qualquer nível que seja — social, econômico ou religioso. O “eu” e o “não eu”, o “nós” e “eles” são os fatores da divisão.
 
Há possibilidade de alguma vez ultrapassar-se a atividade do interesse egocêntrico? Se uma coisa é “possível”, temos grande abundância de energia; o que desperdiça energia é o sentimento de não ser ela possível e, em consequência, ficarmos vogando ao sabor da corrente — como acontece com a maioria de nós — e caindo de armadilha em armadilha. Como é possível ultrapassar a atividade do interesse egocêntrico — reconhecendo-se que há no ente humano uma grande porção da agressividade e da violência do animal, uma grande porção de sua atividade irracional e daninha; e reconhecendo o quanto o ente humano está emaranhado em crenças, dogmas e teorias “separatistas” e que, quando se revolta contra um dado sistema ou ordem estabelecida, vai cair noutro? 

Assim, vendo-se a situação humana tal como é, que cumpre fazer? Essa, a meu ver, é a pergunta que todo ente humano sensível, alertado e cônscio de tudo o que está sucedendo em redor de si, não pode deixar de fazer. Não se trata de uma questão intelectual ou hipotética, mas de uma questão proveniente da realidade do viver. Nem de algo que só se apresenta por uns poucos e raros momentos, mas, sim, de uma coisa que persiste em todo o correr do dia e da noite, através dos anos, e assim continuará até que estejamos vivendo uma vida completamente harmoniosa, sem conflito dentro de nós mesmos nem com o mundo.”

Meditação

“O atemporal só pode ter existência, quando cessa a memória, que é o “eu” e o “meu”. Se percebeis a verdade aí contida — isto é, que através do tempo não se pode compreender ou captar o atemporal — podemos então entrar no problema da memória. A memória de coisas técnicas é essencial; mas a memória psicológica, a que mantém o “eu” e o “meu”, a que dá indentificação e continuidade pessoal, essa é de todo em todo prejudicial à vida e à realidade. Assim que percebemos a verdade aí contida, desfaz-se o falso e por conseguinte não há mais conservação psicológica da experiência de ontem.”

Meditação

“Pergunta: Como pode um homem que nunca alcançou os limites da sua mente, transcender a sua mente para experimentar a comunhão direta com a verdade?

Krishnamurti: Senhor, quando conheceis os limites da vossa mente, já não ultrapassastes estes limites? Perceber os limites é, sem dúvida, o primeiro passo, o primeiro processo – o qual é dificílimo, uma vez que os limites da mente são extraordinariamente sutis. No saber que sou limitado, no estar cônscio disso sem condenação, já estou libertado dessa limitação, não achais? Sem dúvida, se sei que sou mentiroso, se estou cônscio desse fato sem condenação, isso já é estar livre do mentir. Conhecer os limites da mente é já uma prodigiosa libertação, não achais? O perceber que estou amarrado a uma crença, já me faz livre dessa limitação; mas a mente que justifica essa crença, essa prisão, defendendo-a e dizendo: “Ela me convém, necessito dela” – essa mente nunca conhecerá a sua limitação. Quando sei que estou atado, limitado por uma crença, e estou cônscio dessa limitação, sem condená-la, nem justificá-la, isso é já uma libertação da crença. Senhor, experimentai-o, e vereis como é extraordinariamente ativo esse percebimento, como é extraordinariamente verdadeiro o que estou dizendo. Ter conhecimento de um problema; estar cônscio dele, significa estar livre dele; e uma mente não pode experimentar a verdade se não conhece a sua limitação. Eis a razão por que tanto importa termos o autoconhecimento. O autoconhecimento não é um alvo derradeiro, não é um fim último. Autoconhecimento significa conhecer a nossa limitação de momento a momento. A verdade que é contínua não é verdade, porque o que é continuo nunca pode renovar-se; mas no findar há renovação. Assim, uma mente que não percebe a sua própria limitação, nunca pode experimentar a verdade; mas se a mente está cônscia, de sua limitação, sem condenação, sem justificação, se está simplesmente cônscia de sua limitação, vereis como vem uma libertação da limitação; e nessa liberdade revela-se-nos a verdade. “Vós” deveis cessar, para que a verdade se manifeste, porque “vós” sois a limitação. Deveis, pois, compreender onde está a vossa limitação, a extensão de vossa limitação; deveis ficar passivamente cônscio dela, e nessa passividade a verdade se manifesta. A luz não pode unificar-se com a treva. O que é ignorância não pode unir-se com a sabedoria. Cesse a ignorância que a sabedoria surgirá. A sabedoria não é um fim último, mas surge na existência quando a ignorância é dissolvida momento por momento. A sabedoria não é acumulação, que dá continuidade; a sabedoria é compreensão do problema, compreensão completa, em cada minuto, em cada segundo. Assim, a sabedoria, a realidade, não pode ser colhida na rede do tempo. Só com o autoconhecimento podem as limitações criadas pelo “eu”' ter um fim; e estas limitações só podem ser compreendias de momento em momento, à medida que surgem. E cada limitação, quando a observais, traz a verdade; a cada instante percebemos o falso e percebemos o verdadeiro. Mas perceber o falso como falso; e o verdadeiro como verdadeiro, é dificílimo; requer muita clareza de percebimento. Uma mente distraída nunca pode perceber o falso como falso e o verdadeiro corno verdadeiro; e para ver o verdadeiro no falso é necessário agilidade da mente, uma mente que não esteja presa por vínculo algum, por limitação alguma.” 

É a Verdade que liberta, e não a nossa luta por sermos livres.

“O próprio fato de estarmos cônscios do que “é”, representa a Verdade. É a Verdade que liberta, e não a nossa luta por sermos livres. Assim, pois, não está longe de nós, a Realidade, mas nós a distanciamos, porque nos servimos dela como de um meio para a nossa própria continuidade. A Realidade está, presente aqui, neste momento, imediatamente ao nosso alcance. O eterno, o atemporal existe agora, e não pode o agora ser compreendido por aquele que está preso na rede do tempo.
Será que a mente é capaz de ver a sua própria limitação? E poderá a própria percepção dessa limitação trazer consigo o findar dessa limitação? Será a mente capaz, não de perguntar como esvaziar a mente, mas de ver totalmente o conteúdo que constitui a consciência e de perceber, de escutar, todo o movimento dessa consciência, de tal modo que a própria percep­ção dele é o findar desse movimento? Vejo alguma coisa que é falsa; a própria percepção da falsidade é já o verdadeiro. A pró­pria percepção de que estou a dizer uma mentira é a verdade.Religião é, certamente, a descoberta da realidade. Religião não é crença. Religião não é a busca da verdade. A busca da verdade é meramente o preenchimento da crença. Religião é a compreensão do pensador, pois o que o pensador é, ele cria. Sem compreender o processo do pensador e o pensamento, meramente ficar preso num dogma não é certamente a descoberta da beleza da vida, da existência, da verdade.”

Meditação

“Krishnamurti: O verdadeiro fator de condicionamento, no passado, no presente e no futuro, é o "eu", que pensa em função do tempo; o "eu" que se esforça, em sua necessidade de libertar-se; assim, a raiz de todo condicionamento é o pensamento, o "eu". O "eu" é a essência mesma do passado, o "eu" é tempo, o "eu" é sofrimento; o "eu" se esforça por libertar-se de si próprio, esforça-se e luta para alcançar, rejeitar, "vir a ser". Essa luta por "vir a ser" é tempo, e nela há confusão e avidez de mais e de melhor. Busca o "eu" a segurança e, não a encontrando, transfere para o Céu o objeto de sua busca; esse mesmo "eu" que, na esperança de perder sua identidade, se identifica com algo maior do que ele - a nação, o ideal ou um Deus - esse mesmo "eu" é o fator de condicionamento.

Interrogante: Tomastes-me tudo. Que sou eu sem este "eu"?

Krishnamurti: Se não há "eu", estais descondicionado, quer dizer, sois "nada".

Interrogante: Pode o "eu" terminar sem esforço do próprio "eu"?

Krishnamurti: O esforço por tornar-se alguma coisa é a reação, a ação do condicionamento.

Interrogante: Como pode deter-se a ação do "eu"?

Krishnamurti: Só poderá deter-se se o virdes em atividade. Se o virdes em ação, ou seja no estado de relação, esse ver será o fim do "eu". Esse ver, não só é uma ação não condicionada, mas também atua no condicionamento.

Interrogante: Quereis dizer que o cérebro, que é o resultado de uma imensa evolução, com seu infinito condicionamento, pode libertar-se?

Krishnamurti: O cérebro é resultado do tempo; ele está condicionado para proteger-se fisicamente, mas quando tenta proteger-se psicologicamente, começa então o "eu", e surgem as aflições. Esse esforço para proteger-se psicologicamente é a confirmação do "eu". Tecnologicamente, o cérebro pode aprender, adquirir conhecimentos, mas, quando, psicologicamente, ele adquire saber, esse saber se impõe, nas relações, como "eu", com suas experiências, sua vontade, sua violência. É esse "eu" que introduz, nas relações, a divisão, o conflito e o sofrimento." 

A Luz que não se apaga: krishnamurtibox.files.wordpress.com KRISHNAMURTIBOX.FILES.WORDPRESS.COM Meditação

“Assim, é muito importante compreender o que é morrer. Mor­rer para tudo o que se conhece. Já tentastes isso alguma vez? 

Libertarmo-nos do conhecido, estarmos libertos da nossa memó­ria, mesmo só por alguns dias: libertarmo-nos do nosso prazer, sem argumentos, sem medo algum; morrer para o que é «nosso», (aquilo com que nos identificamos) - a «nossa» família, a «nossa» casa, o «nosso» nome; tornarmo-nos completamente anónimos. Só quem é completamente anónimo, não tem violência alguma. Assim, é preciso morrer todos os dias, não como uma ideia, mas realmente. Temos colecionado muitas coisas, não só livros, ca­sas, a conta bancária, mas também interiormente: as lembranças dos insultos, dos elogios, as memórias das nossas experiências particulares, das nossas actividades neuróticas para obter sucesso e que nos oferecem uma posição. Morrer para tudo isso natural­mente, sem medo algum, abandoná-lo apenas; façamo-lo por ve­zes, e veremos. Façamo-lo psicologicamente - não abandonando a nossa mulher (ou marido), os nossos filhos ou a nossa casa, mas interiormente - o que significa não ter apego a coisa alguma. Nis­so há grande beleza. O amor é isso, afinal, não é assim? O amor não é apego. Quando há apego, há medo. E o medo toma-se inevi­tavelmente autoritário, possessivo, opressivo, dominador.

A meditação é a compreensão da vida, o que significa criar ordem. Ordem é integridade moral, que é luz. Esta luz não pode ser acesa por outrem, por muito experiente, intelectualmente bri­lhante, erudito ou espiritual que seja. Ninguém, absolutamente ninguém, pode acender essa luz, excepto cada um de nós - com a nossa própria compreensão profunda e a nossa meditação.

Morrer para todas as coisas que interiormente nos ocupam! Porque o amor é inocente, fresco, jovem e lúcido. Então, se já criámos esta ordem, esta virtude, esta beleza, esta luz em nós mes­mos, podemos ir mais além. Isto quer dizer que a mente, tendo criado ordem - que não é a do pensamento - se toma extrema­mente serena, silenciosa-naturalmente, sem esforço nenhum, sem disciplina alguma. E na luz desse silêncio toda a acção pode ter lugar, vivendo-se diariamente a partir desse silêncio.” 

A Luz dentro de nós: krishnamurtibox.files.wordpress.com KRISHNAMURTIBOX.FILES.WORDPRESS.COM Meditação

“Agora a memória não é senão o impedimento a essa inteligência; a memória é independente dessa inteligência; a memória é a perpetuação dessa consciência do “eu” que é o resultado do meio, desse meio cujo significado completo a mente não viu. Portanto a memória estupidifica, frustra a inteligência que está sempre a devir, a inteligência sempre em movimento, intemporal. Mente é inteligência, mas a memória impôs-se à mente. Isto é, a memória sendo essa consciência do “eu”, identifica-se com a mente, e a consciência do “eu” aparece como se estivesse entre a inteligência e a mente, assim dividindo-a, estupidificando-a, frustrando-a, pervertendo-a. Portanto a memória, identificando-se com a mente, tenta tornar-se inteligente, o que para mim está errado – se é que posso usar aqui a palavra “errado” – porque a mente em si é inteligência, e é a memória que perverte a mente nublando assim a inteligência. E por isso a mente parece sempre procurar essa inteligência intemporal, que é a própria mente.” 

Meditação

“A meditação é realmente muito simples, mas nós complicámo-la.Tecemos uma rede de ideias em torno dela, sobre o que é ou deixa de ser. Mas não é nenhuma dessas coisas. Porque é tão simples ela escapa-nos. As nossas mentes são muito complicadas e acham-se gastas pelo tempo. Mas essa mente determina actividade do coração e aí a dificuldade começa. A meditação sobrevém naturalmente e com extraordinária facilidade quando caminhamos pela areia ou olhamos pela janela e distinguimos aquelas colinas queimadas maravilhosas, queimadas pelo sol do Verão passado.

Porque somos seres tão torturados, com lágrimas nos olhos e riso forçado nos lábios? Se pudésseis percorrer sozinhos essas colinas e bosques, iríeis pelas vastas praias de areias alvas e, nessa solidão saberíeis o que é a meditação.O êxtase da solidão sobrevém quando deixais de vos sentir assustados por estar sós, sem pertencer mais ao mundo nem apegado a nada. Então, como aquela alvorada que estava esta manhã, isso sobrevém silenciosamente e estabelece um caminho dourado na própria quietude que existia no início, que existe agora, e que sempre estará aí.”

Perceção

“Para mim, a verdade, essa integridade de que falo, acha-se em todas as coisas. Portanto, a ideia de que necessitais progredir em direção à realidade, é uma ideia falsa. Não se pode progredir na direção de uma coisa que sempre está presente. Não se trata de avançar para o exterior ou de voltar-se para o interior, mas sim de se libertar dessa consciência que se percebe a si mesma como separada. Quando houverdes realizado tal integridade, vereis que tal realidade não tem ela futuro nem passado; e todos os problemas relacionados com tais coisas desaparecem inteiramente. Uma vez que o homem realize isso, vem-lhe a tranquilidade, não a da estagnação, porém a da criação, a do ser eterno. Para mim a realização desta verdade é a finalidade do homem.

Algumas pessoas vão à Índia, mas não sei por que fazem isso: a verdade não está lá; o que está lá é a fantasia, e a verdade não é uma fantasia. A verdade está onde você está. Não em algum país estrangeiro, mas onde você está. A verdade é o que você está fazendo, como está se comportando. Está aí, não nas cabeças raspadas e naquelas bobagens que os homens têm feito.

Os que desejam deveras descobrir a Verdade relativa aos seus problemas, devem, naturalmente, pôr à margem tudo quanto é autoridade. Isto é dificílimo, porque quase todos nós estamos cheios de temor. Precisamos de alguém para nos escorar, para nos dar coragem; precisamos do "irmão mais forte" - aquele que mora na Rússia, ou na Inglaterra, ou na América, ou do outro lado do Himalaya, ou "ali na esquina". Todos precisamos de alguém para ajudar-nos. Enquanto estivermos encostados em alguém, nunca chegaremos a compreender o "processo" do nosso pensar; negaremos, assim, a nós mesmos, o descobrimento da Verdade.”

Não Sei

“Se conseguirmos realmente chegar a esse estado de dizer: «Não sei», isso indica um extraordinário sentido de humildade; não há nenhuma arrogância de conhecimento; nenhuma resposta de afirmação de si mesmo com o intuito de impressionar os outros. Quando vocês poderem realmente dizer: «Não sei», o que muito poucos conseguem, então, nesse estado, todo o medo desaparece, porque todo o reconhecimento, toda a busca na memória, chegou ao fim; deixa de haver a investigação no campo do conhecido. Então surge esse algo que é extraordinário. Se estiveram a seguir o que eu disse até aqui, não apenas ao nível verbal, mas se estiverem de facto a experimentar o que estou a dizer, vão descobrir que quando são capazes de dizer: «Não sei» todo o condicionamento chegou ao fim. E qual é então o estado da mente?...

Nós procuramos algo permanente — permanente no sentido do tempo, algo que perdure, eterno. Constatamos que tudo em nosso redor é transitório, num fluxo, nascer, florescer e morrer, e a nossa busca é sempre por descobrir algo que possa perdurar no campo do conhecido. Mas aquilo que é verdadeiramente sagrado está para além da medida do tempo; não pode ser encontrado dentro do campo do conhecido. O conhecido atua apenas através do pensamento, que é a resposta da memória ao desafio. Se eu for capaz de observar isso e quiser descobrir como posso terminar o processo do pensamento, como posso faze-lo? Certamente deverei, por meio do autoconhecimento, estar atento a todo o processo do meu pensamento. Devo ser capaz de ver que cada pensamento, por mais subtil ou elevado, ignóbil ou estúpido, tem as suas raízes no conhecido, na memória. Se eu for capaz de ver isso com muita clareza, então a mente, quando confrontada com um imenso problema, é capaz de dizer: «Não sei», porque ela não tem qualquer resposta.”

(Krishnamurti)