quarta-feira, 13 de abril de 2011

Reúnem-se os pássaros (3)

A conferência dos pássaros - Farid Ud-Din Attar

Continuação: A história de Rabi’ah

Se bem fosse mulher, Rabi’ah era a coroa dos homens. De uma feita, levou oito anos numa peregrinação à Caaba medindo no chão a própria altura. Quando, afinal, chegou à porta do templo sagrado, pensou: “Agora, finalmente, executei minha tarefa”. No dia consagrado, quando ia entrar na Caaba, suas mulheres a desertaram. Em vista disso, Rabi’ah voltou sobre seus passos e disse:

“Ó Deus, possuidor da glória, durante oito anos medi o trajeto com a altura do meu corpo e, agora, quando o dia tão almejado surge em resposta às minhas preces, pondes espinhos em meu caminho!”

Para compreender a importância de um incidente como esse faz-se mister descobrir um amante de Deus como Rabi’ah. Enquanto flutuardes sobre o oceano profundo do mundo suas ondas vos acolherão e repelirão, alternativamente. Às vezes, sereis admitidos na Caaba; outras, suspirareis num pagode. Se conseguirdes alienar-vos dos apegos do mundo, sereis felizes; mas se permanecerdes apegados, vossa cabeça girará qual mó de moinho. Nem por um momento estareis tranquilos; uma simples mosca vingará transtornar-vos.

O idiota de Deus

Era costume do pobre homem apaixonado por Deus demorar-se em certo lugar; um belo dia, um rei do Egito, que passara muitas vezes por ele com os seus cortesãos, deteve-se e lhe disse:

“Vejo em ti certa qualidade de tranquilidade e relaxamento”.

O idiota replicou:

“Como poderia eu estar tranquilo se me vejo entregue às moscas e às pulgas? As moscas me atormentam o dia inteiro e, à noite, as pulgas não me deixam dormir. Uma mosca minúscula que entrou no ouvido de Nenrode perturbou o cérebro daquele idiota por séculos. Talvez eu seja o Nenrode destes tempos, pois tenho recebido o quinhão que me cabe das minhas amigas, as moscas e as pulgas”.

O discurso do terceiro pássaro

Disse à Poupa o terceiro pássaro:

“Como me porei a caminho se estou cheio de defeitos? Pode uma mosca suja ser digna do Simurgh do Cáucaso? Como poderá um pecador que se afasta da verdadeira via aproximar-se do rei?”

Replicou a Poupa:

“Ó pássaro desanimado, não te desesperes assim. Pede a graça e o favor de Deus. Se jogas fora com tanta facilidade o teu escudo, será realmente difícil a tua tarefa”.

Anedota de um criminoso

Um homem culpado de muitos pecados arrependeu-se amargamente e retornou ao caminho verdadeiro. Com o passar do tempo, porém, o desejo das coisas do mundo voltou-lhe mais forte do que nunca, e ele tornou a entregar-se aos maus pensamentos e ações. Mais tarde, a tristeza lhe apertou de novo o coração e reduziu-o a um estado miserável. Quis mudar novamente de atitude, mas carecia de forças para fazê-lo. Dia e noite, como grão de trigo em panela quente, seu coração não se aquietava e suas lágrimas regavam o pó. Certa manhã, uma voz misteriosa lhe falou:

“Ouve o Senhor do Mundo. Quando te arrependeste pela primeira vez, aceitei tua penitência. Eu podia ter-te punido e não te puni. Quando, pela segunda vez, voltaste a pecar, concedi-te uma trégua e, então, nem mesmo na minha cólera te fiz morrer. E hoje, ó néscio, reconheces a tua perfídia e desejas voltar para mim pela terceira vez. Regressa, pois, ao Caminho. Abro-te a minha porta e espero. Quando tiveres mudado realmente de atitude, os teus pecados te serão perdoados”.

O anjo Gabriel e a boa intenção

Uma noite, quando se achava no Sidrah, o anjo Gabriel ouviu o Senhor pronunciar palavras de assentimento, e disse consigo: “Neste momento, um servo de Deus está invocando o Eterno, mas quem será? Só sei que deve ter um mérito muito grande, que o seu corpo de desejo está morto e que o seu espírito está vivo”. E, sem perda de tempo, partiu ao encontro desse mortal feliz. Porém, embora vasculhasse a terra e as ilhas, as montanhas e as planícies, não conseguiu encontrá-lo. Por isso voltou para Deus e tornou a ouvir uma resposta favorável à oração.

Mais uma vez voou sobre a terra e o mar, até que, afinal, lhe foi preciso perguntar:

“Ó Deus, qual é o caminho que me conduzirá ao teu servo?”

Deus respondeu:

“Vai ao país de Rum e, em certo mosteiro cristão, o encontrarás”.

Gabriel voou até o mosteiro e ali, prosternado diante de um ídolo, encontrou o objeto dos favores divinos.

“Ó mestre do mundo”, exclamou Gabriel, “descerra o véu deste mistério. Como podes responder à prece de um idólatra num mosteiro?”

E Deus respondeu:

“O seu coração está obscurecido. Ele não se dá conta de que perdeu o caminho. Mas como erra por ignorância, minha bondade amorosa o perdoa e lhe abre o caminho para um estado elevado”.

E o Altíssimo desatou a língua do homem para que ele pudesse pronunciar o nome de Deus.

Não devemos descurar nem das menores coisas. Não se compra a Renúncia numa loja, nem se alcança a corte do Altíssimo pagando uma soma qualquer.

O sufi

Enquanto se dirigia, às pressas, para Bagdá, um sufi ouviu alguém dizer:

“Tenho grande quantidade de mel, que venderia por um preço bem razoável se alguém quisesse comprar-mo”.

O sufi abordou-o e indagou:

“Ó meu bom homem, não gostarias de dar-me um pouco do teu mel em troca de nada?”

O homem, encolerizado, retrucou:

“Vai-te embora. Além de ganancioso és louco? Não sabes que nunca se consegue nada em troca de nada?”

Nisso, uma voz interior disse ao sufi:

“Deixa este lugar, que te darei o que o dinheiro não pode comprar: toda a boa fortuna e tudo o que desejas. A misericórdia de Deus é um sol ardente que chega ao menor dos átomos. Deus até repreendeu o profeta Moisés por causa de um descrente”.

Deus repreende Moisés

Um dia, disse Deus a Moisés:

“Korah, soluçando, cbamou-te setenta vezes e tu não respondeste. Se ele me tivesse chamado assim, uma vez que fosse, eu lhe teria arrancado o coração do poço do politeísmo e coberto o peito com o indumento da fé. Ó Moisés, fizeste-o perecer numa centena de agonias e o jogaste na terra com ignomínia. Se fosses o seu criador, terias sido menos severo com ele”.

Quem se mostra misericordioso até com os que não têm misericórdia é altamente favorecido pelos homens compassivos. Se cometeres as faltas dos pecadores comuns, tu mesmo te tornarás num dos maus.

A busca do quarto pássaro

Outro pássaro confessou à Poupa: “Sou efeminado, e só sei pular de galho em galho. Às vezes, sou libertino e dissoluto; outras, abstinente. Às vezes, meus desejos me arrastam para as tabernas, outras, meu espírito me empurra para a prece. Às vezes, contra minha vontade, Satanás me desencaminha; outras, os anjos me trazem de volta. Entre os dois me vejo como entre o poço e a prisão; que mais posso fazer senão lamentar-me, como José?”

Respondeu-lhe a Poupa:

“Isso acontece a todo homem, de acordo com a sua natureza. Se tivéssemos sido livres do pecado desde o princípio, Deus não teria precisado mandar-nos seus mensageiros e profetas. Através da obediência podes atingir a felicidade. Ó vós que vos refastelais na sauna da indolência e, apesar disso, estais cheios de desejos ociosos, enquanto continuardes a alimentar o cão do desejo vossa natureza será pior do que a de um hermafrodita impotente”.

Anedota de Shabli

Shabli, certa vez, desapareceu de Bagdá e ninguém sabia para onde havia ido. Afinal, foi encontrado numa casa de eunucos, sentado com os olhos úmidos e os lábios secos entre aquelas grotescas criaturas.

Disseram-lhe os amigos:

“Isto não é lugar para ti, estudioso dos mistérios divinos”.

E ele replicou:

“Em matéria de religião, essas pessoas não são homens nem mulheres. Sou como elas. Afundo na inércia, e minha virilidade é um opróbrio. Se usardes o louvor e a censura para fazer distinções, estareis criando ídolos. Se ocultais uma centena de ídolos debaixo da khirka, por que apareceis aos homens como um sufi?”

A briga de dois sufis

Dois homens que usavam a khirka dos sufis insultavam-se mutuamente perante o tribunal. O juiz apartou-os e disse:

“Não fica bem a sufis discutirem entre si. Se vos cobristes com o manto da resignação, por que brigais? Se sois homens de violência, atirai fora vossos mantos. Mas se sois dignos deles, reconciliai-vos. Eu, que sou juiz e não um homem do caminho espiritual, sinto-me envergonhado pela khirka; enquanto a usardes, melhor seria que concordásseis em discordar do que brigardes”.

Se quiserdes seguir o caminho do amor, atirai às urtigas vossos preconceitos e renunciai ao amor, às coisas do corpo. Entrementes, para não serdes causa do mal, não deis lugar ao ressentimento nem ao egoísmo.

O rei e o mendigo

Certa vez, no Egito, um infeliz apaixonou-se pelo rei. Este, ao saber disso, mandou que trouxessem o homem desencaminhado à sua presença e disse-lhe:

“Visto que estás apaixonado por mim, terás de escolher uma de duas coisas — a decapitação ou o exílio”.

O homem respondeu que preferia o exílio e, quase fora de si, preparou-se para partir. O rei, todavia, ordenou que o decapitassem. “Mas ele é inocente”, interveio um camarista. “Por que precisa morrer?”

“Porque ele”, volveu o rei, “não é um amante de verdade e não foi totalmente sincero. Se, de fato, me desejasse, teria querido antes perder a cabeça do que deixar o objeto do seu amor. Teria sido ou tudo ou nada. Houvesse ele consentido na execução, eu me teria preparado para a ocasião e me teria feito seu dervixe. Quem me tem amor, mas tem maior amor à sua cabeça, não é um amante verdadeiro.”

As desculpas do quinto pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Sou meu próprio inimigo; há um ladrão em mim. Como posso fazer essa viagem estorvado por apetites corporais e por um cão do desejo que não quer submeter-se? Como posso salvar minha alma? Conheço o lobo furtivo que anda a esmo, mas não conheço este cachorro, e ele é tão atraente! Não sei onde estou com este corpo infiel. Chegarei, um dia, a compreendê-lo?”

A Poupa replicou:

“Tu mesmo és um cão perdido e espezinhado. Tua ‘alma’, caolha e vesga, é vil, preguiçosa e infiel. Se um homem se sente atraído para ti, é porque, na verdade, está ofuscado pelo falso brilho da tua ‘alma’. Não é bom para esse cão do desejo ser amimalhado e untado de óleos. Em criança, o homem é fraco e descuidado; jovem, empenha-se em lutar; e quando nele se instala a velhice, o desejo se acaba e o corpo fraqueja. Sendo assim a existência, como adquirirá o cão o ornamento das qualidades espirituais? Vivemos descuidosos do princípio ao fim e nada obtemos. Muitas vezes o homem chega ao termo vazio, sem ter nada em si além do desejo das coisas do mundo exterior. Milhares perecem de dor, mas o cão do desejo nunca morre. Ouve a história do coveiro que envelheceu no seu mister. Alguém lhe perguntou: ‘Queres responder a uma pergunta minha, visto que passaste a vida inteira cavando sepulturas? Dize-me: já viste algum prodígio?’ Ao que o coveiro respondeu: ‘Meu cão do desejo assistiu a sepultamentos durante setenta anos, mas ele mesmo nunca morreu e nunca obedeceu, nem por um momento, às leis de Deus. Isso não é um prodígio?’ “

Uma anedota de Abbasah

Uma tarde, disse Abbasah:

“Suponhamos que os descrentes que enchem a terra, e até os loquazes turcomanos, aceitassem sinceramente a Fé — uma coisa dessas seria possível. Mas cento e vinte mil profetas foram mandados à alma descrente para obrigá-la a aceitar a fé muçulmana sob pena de morte, e ainda não tiveram êxito. Por que tanto zelo para tão magro resultado?”

Estamos todos sob o domínio dos nafs deste corpo infiel e desobediente que mantemos em nós mesmos. Ajudado como é por dois lados, seria surpreendente que o corpo perecesse. O espírito, como fiel cavaleiro, cavalga, mas o cão é sempre seu companheiro; embora galope, o cão o acompanha. O amor que o coração recebe é tomado pelo corpo. Entretanto, quem se tornar senhor do cão apanhará na rede o leão dos dois mundos.

Um rei interroga um dervixe

Certa vez um rei viu um homem que, embora andrajoso, trabalhava no aperfeiçoamento de si mesmo.

Chamou-o e perguntou-lhe:

“Quem está em melhor situação: tu ou eu?”

O homem respondeu:

“Ó ignorante, bate no peito e cala-te. Quem se gaba não conhece o significado das palavras; mas devo dizer-te uma coisa: não pode haver dúvida de que um homem como eu está em condições mil vezes superiores às de um homem como tu. Sem ter experimentado sequer o sabor da religião, o teu cão do desejo reduziu-te à condição de burro. É o teu senhor e te cavalga preso pelo freio, puxando-te a cabeça para cá e para lá. Fazes tudo o que ele ordena. És uma não-entidade, e não prestas para nada, ao passo que eu, que conheço os segredos do coração, fiz desse cão meu burro e o montei. O teu cão te governa, mas, se fizeres dele um burro, serás como eu e estarás em condições cem vezes melhores do que as dos teus semelhantes”.

As desculpas do sexto pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Toda vez que desejo ingressar no Caminho o Diabo me desperta a vaidade e me impede de procurar um guia. Meu coração está perturbado, porque não tenho forças para resistir-lhe. Como posso salvar-me de Iblis e vivificar-me com o vinho do Espírito?”

A Poupa respondeu:

“Enquanto o cão do desejo correr à tua frente, o Diabo não te deixará, mas empregará as manhas do cão para induzir-te ao erro. Então cada um dos teus vãos desejos se transformará num demônio, e cada demônio a que te entregares gerará uma centena de outros. Este mundo é uma sauna ou prisão, o domínio do Diabo; não mantenhas relações com este mundo nem com o seu amo”.

A queixa de um noviço sobre a tentação de um demônio

Um jovem estouvado saiu à procura de um xeque que estava jejuando a fim de queixar-se das quarenta tentações que lhe armara um demônio. Disse ele:

“Esse demônio me arreda do Caminho e reduz a nada minha religião”.

Retrucou o xeque:

“Meu caro jovem, pouco antes de vires procurar-me vi esse demônio vagueando à tua volta. Ao contrário do que dizes, ele estava vexado e atirava poeira na cabeça porque o havias maltratado. E disse-me: ‘O mundo inteiro é meu domínio, mas não tenho poder sobre os inimigos do mundo’. Dize ao demônio que se afaste e ele te deixará em paz”.

O “khoja” e o sufi

Ouvindo um khoja dizer esta oração: “Ó Deus, tende piedade de mim e favorecei meus empreendimentos”, um sufi lhe disse:

“Não espetes piedade se não tomaste a khirka do sufi. Levantaste o rosto para o céu e para as quatro paredes de ouro. És servido por dez escravos e dez escravas. Como chegará a ti, em segredo, a graça divina? Observa-te e vê se mereces favores. Visto que rezas para lograr propriedades e honras, a piedade esconderá o rosto. Vira as costas para tudo isso e sê livre, como são livres os homens aperfeiçoados”.

As desculpas do sétimo pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Amo o ouro; para mim é como a amêndoa na casca. Se não tiver ouro, estarei de pés e mãos amarrados. O amor das coisas terrenas e o amor do ouro me encheram de desejos vãos, que me cegam para as coisas espirituais”.

A Poupa replicou:

“Ó tu que te deixas ofuscar pelas formas exteriores, em cujo coração nunca se faz presente o valor das coisas reais! És como o homem que só consegue enxergar no escuro, o nictalope; és como a formiga, atraída pelas aparências. Procura compreender o sentido das coisas. Sem a sua cor, o ouro seria um metal comum; o que te seduz é a cor, como a uma criança. Não fica bem a um homem de verdade o amor do ouro, que pode ser escondido na vagina de uma mula! Escondem-se, porventura, coisas preciosas num lugar como esse? Se não deixas que a ninguém aproveite o teu ouro, a ti tampouco aproveitará. Mas se deres um óbolo a um pobre desgraçado, ambos tirareis proveito disso. Se tiveres ouro, poderás fazer bem a muitos; mas se o teu ombro estiver marcado, isso também terá sido provocado pelo ouro. Tens de pagar o aluguel de uma loja, e o preço, às vezes, é a tua própria alma. Sacrificas tudo pelo teu negócio, até aqueles a quem és mais apegado e, por fim, nada tens. Só podemos esperar que a fortuna deixe uma escada debaixo do patíbulo. Isso não quer dizer que não deves fazer uso das coisas do mundo, mas que deves espalhar o que possuis por todos os lados. A boa fortuna te procura na medida em que dás. Se não podes renunciar completamente à vida, podes pelo menos libertar-te do amor às riquezas e às honras”.

O “pir” e seu companheiro

Um jovem discípulo, desconhecido do seu xeque (como ele supunha), possuía um pequeno tesouro de moedas de ouro. O xeque nada disse sobre isso e, um belo dia, ambos partiram numa viagem. O discípulo começou a ficar com medo, pois o ouro corrompe quem o possui. Tremendo, perguntou ao xeque:

“Que estrada devemos tomar?”

Respondeu-lhe o xeque:

“Livra-te daquilo que te faz ter medo, e qualquer estrada será boa. O Diabo se arreceia do homem indiferente ao dinheiro e foge dele prontamente. Por amor de um grão de ouro seria capaz de dividir um fio de cabelo. No caminho da religião o ouro é como um burro manco: não tem valor, só peso. Quando chega para um homem desprevenido, a riqueza primeiro o aturde e depois o governa. Ter amor ao dinheiro e às propriedades é o mesmo que ser atirado a um poço com as mãos e os pés amarrados. Evita esse poço fundo, se puderes, e, se não puderes, segura a respiração, que o ar dentro dele é mais do que extraordinário”.

Deus repreende um dervixe

Um santo homem que encontrara prosperidade em Deus entregou-se ao culto e à adoração durante quarenta anos. Fugira do mundo, mas, como Deus se achava intimamente unido a ele, sentia-se satisfeito. Esse dervixe cercara no deserto um pedaço de chão, no meio do qual se erguia uma árvore na qual um pássaro construíra o seu ninho. O canto do pássaro era doce, porque em cada uma de suas notas havia uma centena de segredos. O servo de Deus ficou enfeitiçado. Mas Deus contou o caso a um vidente com as seguintes palavras:

“Dize a esse sufi o quanto me espanta ver que, depois de tantos anos de devoção, ele tenha acabado me vendendo por um pássaro. O pássaro, de fato, é admirável, mas o seu canto o prendeu numa armadilha. Eu o comprei, e ele me vendeu”.

As desculpas do oitavo pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Tenho o coração alvoroçado de felicidade porque moro num sítio delicioso. Possuo um palácio de ouro, tão belo que toda gente o admira, e ali vivo num mundo de contentamento. Como esperar que eu abandone tudo isso? Nesse palácio sou como um rei entre pássaros; por que, então, me exporia às agruras dos vales de que falas? Devo renunciar, de um golpe só, ao meu palácio e à minha realeza? Nenhuma criatura sensata abandonaria o jardim de Irem para empreender uma viagem tão trabalhosa e tão difícil!”

A Poupa replicou:

“Ó tu que careces de inspiração e energia! És um cão ou desejas ser atendente do hammam? Este mundo inferior não passa de uma sauna, e teu palácio faz parte dela. Ainda que seja um paraíso, a morte, um dia, o converterá numa prisão de sofrimento. Só se a morte deixasse de exercer seu domínio sobre as criaturas poderias permanecer contente no teu palácio de ouro”.

O gracejo de um sábio em relação a um palácio

Um rei construiu um palácio que lhe custou cem mil dinares. Adornado por fora de torres e cúpulas douradas, era por dentro um paraíso, graças aos móveis e tapetes. Concluída a construção, o rei convidou homens de todos os países para visitá-lo. Os convidados chegaram carregados de presentes, e o rei os fez sentarem-se ao seu lado. Em seguida, rogou-lhes:

“Dizei-me o que achais do meu palácio. Esqueceu-se, acaso, de alguma coisa cuja falta lhe desfigura a beleza?”

Todos protestaram que nunca existira na terra um palácio igual e que nunca se veria outro semelhante. Isto é, todos menos um, um sábio, que se levantou e disse:

“Existe, senhor, uma pequena rachadura que, para mim, constitui um defeito. Não fora esse defeito e o próprio paraíso vos traria presentes do mundo invisível”.

“Não vejo defeito nenhum”, volveu o rei, colérico. “És um ignorante e só queres fazer-te importante.”
“Não, orgulhoso rei”, revidou o sábio, “a fresta a que me refiro é a mesma pela qual passará Azrael, o anjo da morte. Prouvera a Deus que pudésseis fechá-la, pois, do contrário, para que prestam o teu palácio magnífico, a tua coroa e o teu trono? Quando a morte chegar, eles não passarão de um punhado de pó. Nada subsiste, e é isso que estraga a beleza da vossa morada. Nenhuma arte poderá tornar estável o instável. Ah! Não depositeis vossas esperanças de felicidade num palácio! Não deixeis caracolar o corcel do vosso orgulho. Se ninguém se atreve a falar com franqueza ao rei e lembrar-lhe as suas faltas, isso é uma grande infelicidade.”

A aranha

Já observaste a aranha e reparaste em como passa fantasticamente o tempo? Com rapidez e previdência, tece a teia maravilhosa, uma casa que aparelha para o seu uso. Quando a mosca se precipita de ponta-cabeça na teia, ela corre a sugar o sangue da criaturinha e deixa seu corpo secar para servir-lhe de alimento. Depois, um belo dia, aparece a dona da casa brandindo uma vassoura e, num instante, lá se vão a teia, a mosca e a aranha — todas elas!

A teia representa o mundo; a mosca, a subsistência que Deus nele colocou para o homem. Ainda que te caiba por sorte o mundo todo, podes perdê-lo num abrir e fechar de olhos. Não passas de uma criança no caminho da compreensão; não obstante, ficas brincando com bobagens do lado de fora da cortina. Não lutes por lugares e posições se não comeste os miolos de um burro. E sabe, tolo estouvado, que este mundo é entregue aos touros. Aquele para o qual tambores e bandeiras significam alta dignidade nunca será um dervixe; essas coisas são apenas o assobiar do vento, menos valiosas do que a menor das moedas. Doma o caracolar do corcel da tua loucura, e não te deixes iludir pela posse do poder. Assim como se esfola a pantera, assim a vida te será arrebatada.

Abre os olhos da verdadeira inspiração e descobre o caminho espiritual; põe os pés no Caminho de Deus e procura a corte celeste. Depois que a tiveres vislumbrado, já não estarás aferrado ao brilho deste mundo.

O dervixe misantropo

Cansado e desacorçoado, exausto depois de muito caminhar no deserto, um homem chegou finalmente a um lugar em que vivia um dervixe solitário, e perguntou-lhe:

“Ó dervixe, como vão as coisas para ti?”

Ao que o dervixe replicou:

“Não te envergonhas de fazer uma pergunta como essa vendo-me aqui parado num lugar tão restrito e tão fechado?”

“Isso não é verdade”, contestou o homem. “Como podes estar fechado se vives neste imenso deserto?”

E o dervixe:

“Se o mundo não fosse tão pequeno, nunca me terias encontrado!”

As desculpas do nono pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Ó pássaro eminentíssimo, sou escravo de um ser encantador que tomou posse de mim e privou-me da razão. A imagem do seu rosto querido é um ladrão do grande Caminho; ela pôs fogo na colheita da minha vida, e, quando nos separamos, não tenho um momento de paz. Estando, assim, meu coração inflamado de paixão, não sei como poderei realizar a viagem. Ser-me-ia preciso cruzar os vales e passar por uma centena de privações. Pode-se, acaso, esperar que eu desampare a minha beldade para jornadear debaixo de um sol causticante e de um frio aspérrimo? Sou fraco demais para partir sem ela; sou apenas o pó da sua estrada. Tal é o meu estado. Que posso fazer?”

A Poupa respondeu:

“Estás aferrado a coisas visíveis e entregue, de pés e mãos atadas, ao sofrimento que a isso se segue. O amor sensual é um jogo. Fugaz é o amor inspirado pela beleza passageira. Estás sempre comparando um corpo de sangue e humores à beleza da lua. Que há de mais feio do que um corpo composto de carne e ossos? A verdadeira beleza está escondida. Procura-a, pois, no mundo invisível. Se caísse o véu que esconde os mistérios dos nossos olhos, nada mais restaria no mundo. Todas as formas visíveis seriam reduzidas a nada”.

Uma anedota de Shabli

Certo dia, desfeito em prantos, um homem aproximou-se de Shabli. O sufi perguntou-lhe por que chorava.

“Ó xeque”, disse ele, “eu tinha um amigo cuja beleza me tornava a alma tão verdejante quanto os galhos das árvores na primavera. Ele morreu ontem, e eu também vou morrer de tristeza.”

Respondeu-lhe Shabli:

“Por que te lastimas? Durante muito tempo privaste da sua amizade. Vai agora e busca outro amigo, um amigo que não morra, e assim não acumularás motivos de pesar. O apego a um mortal só pode redundar em sofrimento”.

O rico mercador

Um mercador rico em bens e dinheiro possuía uma escrava doce como o açúcar. Apesar disso, um dia decidiu vendê-la. Pouco tempo depois, no entanto, principiou a sentir-lhe a falta. Em sua saudade, procurou o novo proprietário, a quem pediu que lha vendesse de volta, oferecendo mil moedas de ouro pelo seu resgate. Mas o outro se negou a desfazer-se dela. Por isso o mercador se foi e, jogando pó sobre a cabeça, disse:

“A culpa é minha por haver costurado meus lábios e meus olhos; na minha cupidez, vendi minha amante por uma moeda de ouro. Foi um mau dia para mim aquele em que a vesti com os melhores vestidos e a levei ao bazar para vendê-la por bom preço”.

Cada um dos sopros que medem tua existência é uma pérola, e cada um dos teus átomos é um guia para Deus. Os benefícios deste amigo cobrem-te da cabeça aos pés. Se o conhecias verdadeiramente, como pudeste suportar a separação?

Uma anedota de Hallaj

Quando se achava a pique de ser empalado, Hallaj pronunciou apenas estas palavras:

“Eu sou Deus”.

Cortaram-lhe as mãos e os pés, de modo que ele ficou lívido em virtude da perda de sangue. Logo, porém, ele esfregou no rosto os cotos dos braços, dizendo:

“Não me convém hoje parecer pálido, porque pensarão que estou com medo. Vermelharei o rosto para que o homem sanguinário que executou a sentença veja, quando virar os olhos para o cadafalso, que sou um homem corajoso”.

Quem come e dorme no mês de julho com o dragão de sete cabeças dar-se-á muito mal num jogo desses, mas o patíbulo será uma coisa insignificante para ele.

As desculpas do décimo pássaro

Esse pássaro disse à Poupa:

“Tenho medo da morte. Ora, este vale é vasto, e não tenho nada para a viagem. Estou tão cheio do medo da morte que a vida me deixará no primeiro ponto de parada. Ainda que eu fosse um poderoso emir, à hora da morte não sentiria menos medo. Aquele que tenta aparar o bote da morte com uma espada tê-la-á quebrada como um kalam; pois, infelizmente, a fé na força da mão e da espada só acarreta decepção e tristeza”.

Respondeu-lhe a Poupa:

“Ó tu, que és volúvel e fraco de vontade! Queres continuar sendo um simples conjunto de ossos e medulas? Não sabes que a vida, seja longa, seja curta, se compõe de uns poucos sopros? Não compreendes que quem quer que tenha nascido também tem de morrer? Que vai para dentro da terra e que o vento dispersa os elementos de que foi feito o seu corpo?

“Foste alimentado para a morte; e trazido ao mundo para que possas ser levado dele! O céu é como um prato voltado para baixo que, todas as tardinhas, mergulha no sangue do ocaso. Poder-se-ia dizer que o sol, armado de uma cimitarra, vai cortando cabeças sobre esse prato. Sejas tu bom ou mau, és apenas uma gota d’água amassada com terra. Embora tenhas passado toda a vida numa posição de autoridade, acabarás, no fim, morrendo em aflição.”

A Fênix

A Fênix é um pássaro admirável e lindo que vive no Hindustão. Não tem companheiro, vive só. Seu bico, muito comprido e liso, é todo furado, como a flauta, e tem quase cem furos. Cada furo produz um som, e em cada som há um segredo especial. Às vezes, ela cria música através dos furos, e ao ouvir as notas que ela emite, meigas e plangentes, pássaros e peixes se agitam e os mais ferozes animais caem em êxtase; depois, todos se calam. De uma feita, um filósofo visitou o pássaro e aprendeu com ele a ciência da música. A Fênix vive cerca de mil anos e sabe exatamente o dia em que vai morrer. Chegada a hora da morte, reúne à sua volta grande quantidade de folhas de palmeira e, desvairada entre as folhas, desfere gritos merencórios. Pelos furos do bico, emite notas variadas, e a música lhe sai do fundo do coração. Suas lamentações expressam a tristeza da morte, e ela treme qual uma folha. Ao som da sua trombeta, os pássaros e animais se aproximam para assistir ao espetáculo, desnorteados, e muitos morrem por lhes faltarem as forças. Enquanto ainda respira, a Fênix bate as asas e eriça as penas, e, com isso, produz fogo. O fogo se espalha pelas copas das palmeiras, e tanto as frondes quanto o pássaro são reduzidos a carvões acesos e, logo, a cinzas. Mas depois que a derradeira chama tremeluz e se extingue, uma nova e pequena Fênix surge das cinzas.

Nunca sucedeu a ninguém renascer após a morte? Ainda que vivesses tanto quanto a Fênix, morrerias quando se enchesse a medida da tua existência. Os seus mil anos de vida estão cheios de lamentações, e ela permanece só, sem companheiro nem filhos, e sem contato com ninguém. Quando chega o fim, atira as próprias cinzas ao vento, de modo que se possa saber que ninguém escapa da morte, seja qual for o artifício que empregar. Aprende, pois, com o milagre da Fênix. A morte é um tirano, mas precisamos tê-la sempre em mente. E, conquanto tenhamos muito que aguentar, isso é nada comparado ao morrer.

Conselho de Tai ao morrer

Quando Tai jazia agonizante, alguém lhe perguntou:

“Ó Tai, tu que viste a essência das coisas, como estás agora?”

E ele replicou:

“Não posso dizer nada sobre o meu estado. Medi o vento todos os dias da minha vida, mas eis que chegou o fim e serei enterrado; portanto, boa noite”.

Não há outro remédio para a morte senão encará-la de frente desde o princípio. Todos nascemos para morrer; a vida não ficará conosco; precisamos resignar-nos a isso. Até o que teve o mundo inteiro debaixo do selo do seu anel agora não é mais que um mineral na terra.

Jesus e o cântaro de água

Jesus bebeu da água de um límpido regato, cujo gosto era mais agradável que o do orvalho da rosa. Um dos seus companheiros encheu um cântaro com a mesma água, e eles se puseram de novo a caminho. Mais adiante, sentindo sede, Jesus tomou um gole da água do cântaro, mas ela lhe soube mal; detendo-se, espantado, rezou:

“Ó Deus, a água do regato e a água do cântaro são a mesma. Dizei-me por que uma é mais doce do que o mel e a outra é tão amarga”.

Falando, então, disse o cântaro a Jesus:

“Estou muito velho e já fui modelado mais de mil vezes debaixo do firmamento das nove cúpulas — às vezes como vaso, às vezes como cântaro, às vezes como jarro. Fosse qual fosse a forma que assumia, eu sempre tinha comigo o travo da morte. Sou feito de modo que a água que carrego compartilha sempre desse amargor”.

Ó homem imprudente! Procura entender o sentido do cântaro. Forceja por desvendar o mistério antes que a vida te seja arrebatada. Se, enquanto vivo, não lograres encontrar-te, conhecer-te, como compreenderás o segredo da tua existência ao morrer? Participas da vida do homem e, no entanto, não passas de um pseudo-homem.

Sócrates e seus discípulos

Quando Sócrates se achava prestes a morrer, disse-lhe um dos discípulos:

“Mestre, depois que vos tivermos lavado e amortalhado, onde desejais ser enterrado?’

Sócrates respondeu:

“Se me encontrares, querido discípulo, enterra-me onde quiseres, e boa noite! Se em minha longa vida não consegui encontrar-me, como me encontrareis depois que eu estiver morto? Vivi de tal maneira que, neste momento, só sei que o menor dos fios de cabelo do conhecimento de mim mesmo não é evidente”.

As desculpas do undécimo pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Ó tu cuja fé é sincera, não tenho sequer um sopro de boa vontade. Passei a vida atormentado, ambicionando a bola do mundo. Tamanha é a tristeza que mora em meu coração que nunca cesso de lamentar-me. Acho-me sempre num estado de assombro e impotência; e quando, por um momento, me sinto contente, eis-me descrente. Em consequência disso, fiz-me dervixe. Mas agora hesito em aventurar-me pela estrada do conhecimento espiritual. Se eu não tivesse o coração tão cheio de tristeza, ficaria encantado com a viagem. Sinto-me, porém, num estado de perplexidade. E agora que te expus o meu caso, dize-me o que devo fazer”.

Disse a Poupa:

“Tu que te entregaste ao orgulho, engolido pela pena de ti mesmo, é bom que estejas perturbado. Vendo que o mundo passa, tu mesmo devias passar ao lado dele. Abandona-o, pois quem quer que se identifique com as coisas transitórias não pode ter parte com as duradouras. Os sofrimentos que te afligem podem tornar-se gloriosos e não humilhantes. Aquilo que na aparência exterior é sofrimento pode ser tesouro para o vidente. Uma centena de bênçãos cairá sobre ti se fizeres um esforço no Caminho. Mas, tal como és, não passas de uma pele que recobre um cérebro obtuso”.

O escravo agradecido

Um dia, um rei, bondoso por natureza, deu uma rara e bela fruta a um escravo, que a provou e logo declarou nunca haver provado nada tão saboroso em sua vida. Isso levou o rei a querer prová-la também e a pedir ao escravo que lhe desse um pedaço. Mas, quando a levou à boca, o rei achou a fruta amaríssima e ergueu as sobrancelhas num esgar de espanto. O escravo explicou:

“Senhor, havendo eu já recebido tantos presentes de vossas mãos, como poderia queixar-me de um fruto amargo? Visto que fazeis chover benesses sobre mim, por que um simples amargor me alienaria de vós?”
Portanto, servo de Deus, se experimentas o sofrimento no teu forcejar, deixa-te persuadir de que isso pode ser um tesouro para ti. A coisa parece virada do avesso, mas lembra-te do escravo.

O xeque e a velha

Uma velha pediu ao xeque Mahmah:

“Ensina-me uma prece para que eu possa achar contentamento. Até hoje sempre fui dominada pelo descontentamento, mas agora desejo libertar-me”.

Replicou o xeque:

“Muito tempo atrás, recolhi-me a uma espécie de fortaleza a fim de buscar com ardor o que desejas, mas nunca o senti e nunca o vi. Enquanto não aceitarmos tudo no caminho do amor, como poderemos estar contentes?”

Uma pergunta feita a Junaid

Alguém perguntou a Junaid:

“Escravo de Deus, que não obstante és livre, dize-me como alcançar o estado de contentamento”.

Ao que Junaid replicou:

“Aprendendo, pelo amor, a aceitar”.

O átomo só tem um brilho aparente. Por natureza é apenas um átomo, mas, se se perder no sol, compartirá para sempre da qualidade solar.

O morcego em busca do sol

Certa noite, ouviu-se um morcego dizer:

“Como se dá que eu seja incapaz, até por um momento, de ver o sol? Passei a vida inteira desesperado porque nem por um instante pude perder-me nele. Por meses e anos tenho voado para cá e para lá de olhos fechados, e aqui estou eu!”

Um contemplativo interpelou-o:

“O orgulho te persegue, e ainda tens milhares de anos para viajar. Como pode um ser como tu descobrir o sol? Pode a formiga alcançar a lua?”

“Apesar disso”, teimou o morcego, “continuarei tentando.”

E assim, por mais alguns anos, continuou a procurar, até que lhe faltaram as forças e as asas. Como ainda não tivesse descoberto o sol, imaginou:

“Talvez eu o tenha ultrapassado”.

Ouvindo-o, um pássaro sábio interveio:

“Estás sonhando; só tens voado em círculos e não avançaste nem um passo; e afirmas, em teu orgulho, que ultrapassaste o sol!”

Isso deixou tão abismado o morcego, que, compreendendo a própria impotência, humilhou-se completamente, dizendo:

“Encontraste um pássaro com visão interior, não vás mais longe”.

A pergunta do duodécimo pássaro

Outro pássaro disse à Poupa:

“Ó tu que és nosso guia, que acontecerá se eu te fizer a entrega do meu arbítrio? Não posso, de livre e espontânea vontade, aceitar os trabalhos e sofrimentos que sei que terei de aguentar, mas posso concordar em obedecer às tuas ordens; e se eu, porventura, der uma cabeçada, saberei ressarcir-te”.

A Poupa replicou:

“Falaste bem, não se pode esperar nada melhor do que isso. Pois como hás de continuar senhor de ti se segues teus gostos e desgostos? Mas se obedeceres voluntariamente poderás tornar-te senhor de ti mesmo. Quem se submete à obediência nesse caminho livra-se de decepções e safa-se de muitas dificuldades. Servir a Deus por uma hora, de acordo com a verdadeira lei, vale tanto quanto servir ao mundo por uma existência inteira. Quem aceita o sofrimento passivo é como o cachorro perdido que precisa obedecer aos caprichos de qualquer transeunte. Mas quem suporta, nem que seja por um momento, o sofrimento ativo neste caminho será plenamente recompensado”.

Continuará: Bayazid e Tarmazi