sexta-feira, 1 de abril de 2011

A Subida ao Monte Carmelo XIII

S. João da Cruz - O estado da alma para entrar na noite do sentido

1. Resta agora dar alguns avisos sobre a maneira de saber e poder entrar nesta noite do sentido. Para isto devemos observar que a alma, ordinariamente, entra nesta noite sensitiva de duas maneiras, ativa e passiva. Ao que pode fazer e faz por si mesma para entrar, denominamos noite ativa e dela trataremos nos avisos seguintes. Na passiva, a alma nada faz e limita-se a consentir livremente no trabalho de Deus, sob o qual se há como paciente. Será na Noite Escura, quando nos referirmos aos principiantes, que trataremos dela. E como ali, com o favor divino, darei muitos avisos aos principiantes, a respeito das numerosas imperfeições em que costumam cair neste caminho, não me estenderei agora sobre este assunto. Aliás, não é aqui o lugar próprio para esses conselhos; agora queremos somente explicar por que se chama noite esta passagem, em que consiste e quais as suas partes. Todavia, no receio de ser muito resumido e de prejudicar o progresso das almas, não lhes dando imediatamente alguns avisos, indicar-lhes-ei aqui um meio breve que as poderá iniciar na prática desta noite dos apetites. E, no fim de cada uma das outras duas partes desta noite, das quais tratarei mais tarde com o auxílio do Senhor, usarei o mesmo método.

2. Os avisos que se seguem, sobre o modo de vencer os apetites, embora poucos e breves, são tão proveitosos e eficazes quanto são compendiosos. Portanto, quem verdadeiramente quiser pô-los em prática, não sentirá falta de outros ensinamentos, porque nestes estão encerrados todos.

3. Primeiramente: tenha sempre a alma o desejo contínuo de imitar a Cristo em todas as coisas, conformando-se à sua vida que deve meditar para saber imitá-la, e agir em todas as circunstâncias como ele próprio agiria.

4. Em segundo lugar, para bem se haver nisto, se lhe for oferecida aos sentidos alguma coisa de agradável que não tenda exclusivamente para a honra e a glória de Deus, renuncie e prive-se dela pelo amor de Jesus Cristo, que, durante a vida, jamais teve outro gosto, nem outra coisa quis senão a fazer a vontade do Pai, a que chamava sua comida e manjar. Por exemplo: se acha satisfação em ouvir coisas em que a glória de Deus não está interessada, rejeite esta satisfação e mortifique a vontade de ouvir. Se tem prazer em olhar objetos que não a levam a Deus, afaste este prazer e desvie os olhos. Igualmente nas conversações e em qualquer outra circunstância, deve fazer o mesmo. Em uma palavra, proceda deste modo, na medida do possível, em todas as operações dos sentidos; no caso de não ser possível, basta que a vontade não queira gozar desses atos que lhe vão na alma. Desta maneira há de deixar logo mortificados e vazios de todo o gosto, e como às escuras. E com este cuidado, em breve aproveitará muito.

5. Para mortificar e pacificar as quatro paixões naturais que são gozo, esperança, temor e dor, de cuja concórdia e harmonia nascem inumeráveis bens, trazendo à alma grande merecimento e muitas virtudes, o remédio universal é o seguinte:

6. Procure sempre inclinar-se não ao mais fácil, senão ao mais difícil. Não ao mais saboroso, senão ao mais insípido. Não ao mais agradável, senão ao mais desagradável. Não ao descanso, senão ao trabalho. Não ao consolo, mas à desolação. Não ao mais, senão ao menos. Não ao mais alto e precioso, senão ao mais baixo e desprezível. Não a querer algo, e sim, a nada querer. Não a andar buscando o melhor das coisas temporais, mas o pior; enfim, desejando entrar por amor de Cristo na total desnudez, vazio e pobreza de tudo quanto há no mundo.

7. Abrace de coração essas práticas, procurando acostumar a vontade a elas. Porque se de coração as exercitar, em pouco tempo achará nelas grande deleite e consolo, procedendo com ordem e discrição.

8. Basta observar fielmente essas máximas para entrar na noite sensitiva. Todavia, a fim de dar a esta doutrina maior desenvolvimento, proporemos outro gênero de exercício que ensina a mortificar a concupiscência (pleonexia, epithymia) da carne, a concupiscência (pleonexia, epithymia) dos olhos e a soberba da vida; são três coisas essas que, como afirma S. João, reinam no mundo, e das quais procedem todos os outros apetites desordenados.

9. O espiritual deve: 1 Agir em seu desprezo e desejar que os outros o desprezem. 2 Falar contra si e desejar que os outros também o façam. 3 Esforçar-se por conceber baixos sentimentos de sua própria pessoa e desejar que os outros pensem do mesmo modo.

10. Para conclusão destes conselhos e regras, convém aqui repetir aqueles versos escritos na Subida do Monte que figura no princípio deste livro, os quais contêm doutrina para subir a ele, isto é, para atingir o cume da união divina. Embora visem a parte espiritual e interior da alma, aplicam-se também ao espírito imperfeito conforme o sensível e exterior, como se vê nas duas veredas que estão aos lados da senda estreita de perfeição. É neste último sentido que os tomaremos aqui; mais tarde, quando tratarmos da noite do espírito, aplicá-los-emos à parte espiritual.

11. Dizem assim:

1. Para chegares a saborear tudo,
Não queiras ter gosto em coisa alguma.
2. Para chegares a possuir tudo, Não queiras possuir coisa alguma.
3. Para chegares a ser tudo, Não queiras ser coisa alguma.
4. Para chegares a saber tudo, Não queiras saber coisa alguma.
5. Para chegares ao que não gostas, Hás de ir por onde não gostas.
6. Para chegares ao que não sabes, Hás de ir por onde não sabes.
7. Para vires ao que não possuis, Hás de ir por onde não possuis.
8. Para chegares ao que não és, Hás de ir por onde não és.

12. Modo de não impedir o tudo

1. Quando reparas em alguma coisa, Deixas de arrojar-te ao tudo.
2. Porque para vir de todo ao tudo, Hás de negar-te de todo em tudo.
3. E quando vieres a tudo ter, Hás de tê-lo sem nada querer.
4. Porque se queres ter alguma coisa em tudo, Não tens puramente em Deus teu tesouro.

13. Nesta desnudez acha o espírito sua quietação e descanso, pois nada cobiçando, nada o fatiga para cima e nada o oprime para baixo, por estar no centro de sua humildade. Porque quando alguma coisa cobiça, nisto mesmo se cansa e atormenta.