segunda-feira, 28 de março de 2011

A Subida ao Monte Carmelo VI

S.J.da CRUZ-(A Subida ao Monte Carmelo)

CAPITULO VI - Dos dois principais danos causados à alma pelos apetites: um privativo e outro positivo.

1. Será bom, para maior esclarecimento do que foi dito, explicarmos aqui o duplo prejuízo causado à alma por seus apetites. Primeiro, privam-na do espírito de Deus. Segundo, fatigam, atormentam, obscurecem, mancham e enfraquecem a alma em que vivem, segundo a palavra de Jeremias: «Dois males fez o meu povo: deixaram-me a mim, fonte de água viva, e cavaram para si cisternas, cisternas rotas, que não podem reter as águas» ( Jer 2, 13 ). Estes dois males — privativo e positivo — são causados por qualquer ato desordenado do apetite. Quanto ao primeiro, é evidente que, afeiçoando-se a alma à criatura, quanto mais tal apetite ocupar a alma, tanto menos capacidade terá ela para possuir a Deus. Explicamos no capítulo IV que dois contrários não podem existir num mesmo sujeito ao mesmo tempo. Ora, a afeição a Deus e à criatura são dois contrários: não podem, desse modo, existir em uma só vontade. Que relação existe entre a criatura e o Criador, entre o material e o espiritual, entre o visível e o invisível, entre o temporal e o eterno, entre o alimento celeste, puro e espiritual e o alimento grosseiro dos sentidos, entre a desnudez de Cristo e o apego a alguma coisa?

2. Assim como na ordem natural, uma forma não pode ser introduzida num recipiente sem ser primeiramente expelida do mesmo a forma contrária, e, enquanto uma permanecer, se tornará obstáculo a outra devido à incompatibilidade existente, do mesmo modo a alma cativa do espírito sensível jamais poderá receber o espírito puramente espiritual. Nosso Senhor diz em São Mateus: «Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cães» ( Mt 15, 26 ) ; e, num outro trecho: «Não deis aos cães o que é santo» ( Mt 7, 6 ). Nestas palavras, Nosso Senhor compara aos filhos de Deus aqueles que, renunciando a todos os apetites de criaturas, se dispõem a receber puramente o espírito de Deus; e compara aos cães os que procuram encontrar nas mesmas criaturas alimento para seus apetites. Porque cabe aos filhos comerem à mesa de seu pai e dos manjares que lhes são servidos, isto é, nutrirem-se de seu espírito, enquanto os cães se regalam com as migalhas caídas da mesa.

3. Ora, todas as criaturas são na realidade migalhas caídas da mesa de Deus; portanto os que procuram alimentar-se das coisas criadas são justamente chamados cães. É razoável que se lhes tire o pão dos filhos, pois não se querem elevar acima das migalhas das criaturas até à mesa do espírito incriado de seu Pai. Caminham sempre famintos, como cães, e as migalhas que conseguem juntar servem antes para excitar o apetite que saciar a fome. Falando deles David diz: «Padecerão fome como cães e rodearão a cidade; e, se não se fartarem, ainda murmurarão» ( SI 58, 15, 16 ). Tal é o estado de quem se abandona aos seus apetites: vive sempre inquieto e descontente como um faminto. Que comparação se pode estabelecer entre a fome causada por todas as criaturas e a fartura que proporciona o divino espírito? A alma não receberá a fartura incriada de Deus enquanto não houver perdido aquela fome criada de seus apetites; pois, como dissemos, não cabem num só sujeito dois contrários que neste caso são a fome e a fartura.

4. Podemos entender, pelo que foi dito, como Deus realiza maior obra purificando a alma de suas imperfeições do que criando-a do nada. O desregramento dos apetites e das afeições opõe mais obstáculos à ação divina que o nada, pois o nada não resiste a Deus como o faz a vontade da criatura. E isto basta para declarar o primeiro dano causado à alma por seus apetites imortificados: a resistência ao espírito de Deus, pois já falámos suficientemente a tal respeito.

5. Tratemos agora do segundo dano chamado positivo, que produz cinco principais efeitos: porque os apetites cansam, atormentam, obscurecem, mancham e enfraquecem a alma. Expliquemos cada um desses efeitos em particular.

6. É manifesto que os apetites fatigam e cansam a alma; assemelham-se às criancinhas inquietas e descontentes que sempre estão pedindo à sua mãe, ora uma coisa, ora outra, e jamais se satisfazem. Como os que procuram tesouros se cansam e se fatigam pelas contínuas escavações que são obrigados a fazer, igual cansaço experimenta a alma quando procura o objeto de seus apetites. E ainda que afinal o consiga, sempre se cansa, porque nunca se contenta. É como cavar cisternas rotas, incapazes de conter a água que poderia saciar-lhe a sede. E assim, como diz Isaías, «Fatigado, ainda tem sede, e sua alma está vazia» ( Is 29, 8 ). A alma presa aos apetites efetivamente se cansa: é como um doente febril, cuja sede aumenta a cada instante, e que não se sentirá bem enquanto a febre não houver passado. Lemos no livro de Jó: «Depois que se fartar, padecerá ânsias, e se abrasará; e toda a sorte de dores virá sobre Ele» ( Job 20, 22 ). Cansa-se e fatiga-se a alma com seus apetites porque é ferida e perturbada por eles, como a água agitada pelos ventos que a revolvem sem deixá-la sossegar: em lugar nenhum, nem em coisa alguma pode achar repouso. Delas diz Isaías: «O coração do ímpio é como um mar agitado» ( Is 57, 20 ). Ora, é ímpio todo aquele que não sabe vencer os seus apetites. É como homem faminto que abre a boca para se alimentar de vento. Bem longe de satisfazer a fome, definha, porque o ar não é o seu alimento. «Abrasada no seu apetite chamou a si o vento do que ama» ( Jer 2, 24 ) diz Jeremias. E, para explicar a secura a que se expõe esta alma, o Profeta, adiante, acrescenta: «Guarda o teu pé, isto é, o teu pensamento, da nudez, e a tua garganta da sede» ( Jer 2, 25 ), isto é, afasta tua vontade da satisfação do teu apetite que produz maior secura. O homem apaixonado se cansa e exaure com as próprias esperanças frustradas; assim, a alma que busca saciar os apetites nada mais faz senão aumentar a fome e os desejos. Porque, como se diz vulgarmente, o apetite é semelhante ao fogo: lançai-lhe a lenha. Ele crescerá em proporção dela, e diminuirá na medida em que a for consumindo.

7. E ainda os apetites estão, neste caso, em condições mais deploráveis: porque o fogo, em faltando a lenha, se amortece, mas o apetite não diminui quando se acaba aquilo que o satisfaz; e longe de se extinguir como o fogo sem combustível, cansa-se em desejos, pela fome aumentada e o alimento diminuído. Isaías, a este respeito, diz: «E virá à direita e terá fome: e comerá à esquerda, e não se fartará» ( Is 9, 20 ). Aqueles que não mortificam seus apetites justamente são torturados pela fome, quando se desviam do caminho de Deus que está à direita, pois não merecem a fartura do espírito de suavidade. E quando, à esquerda, vão procurar alimento, isto é, quando satisfazem seus apetites na criatura, justo é então que não sejam saciados, porque, rejeitando o que lhes podia satisfazer, nutrem-se do que lhes aumenta a fome. Claro está, pois, que os apetites cansam e fatigam a alma.