segunda-feira, 28 de julho de 2014

O que é Vedanta?

Luzes de Nisargadatta Maharaj - Advaita Bodha Deepika

O Silêncio. Parar o Diálogo Interno. Não Pensar. Acabar com a Mente.

M = Mestre
D = Discípulo

M: Sábio filho, abandone a mente – o atributo limitador que origina a individualidade, assim causando a grande enfermidade de repetidos nascimentos e mortes – e realize Brahman.

D: Mestre, como se pode extinguir a mente? Não é muito difícil? Não é a mente muito vigorosa, inquieta e sempre vacilante? Como se pode renunciar à mente?

M: Abandonar a mente é muito fácil, tão fácil quanto amassar uma flor delicada, tirar um fio de cabelo da manteiga ou piscar os olhos. Não tenha dúvida. Para um buscador resoluto, senhor de si e não enfeitiçado pelos sentidos, que pelo intenso desapaixonamento se tornou indiferente aos objetos externos, não pode haver a menor dificuldade em abandonar a mente.

D: Como pode ser tão fácil?

M: A questão da dificuldade só surge quando há uma mente a ser renunciada. Verdadeiramente falando, não existe mente. Quando lhe dizem: “Aqui tem um fantasma”, a criança ignorante é levada a acreditar na existência do fantasma inexistente, ficando sujeita ao medo, ao sofrimento e aos incômodos. Da mesma forma no imaculado Brahman, ao imaginar coisas que não existem – como isto e aquilo – uma falsa entidade conhecida como mente surge como algo aparentemente real, funcionando como isto e aquilo e mostrando-se incontrolável e poderosa ao incauto; porém, para o buscador senhor de si e dotado de discernimento, conhecedor da natureza da mente, ela é fácil de ser abandonada. Só um tolo, ignorante da natureza da mente, diz que é muito difícil.

D: Qual é a natureza da mente?

M: Pensar nisto e naquilo. Na ausência de pensamento, não existe mente. Extinguindo-se os pensamentos, a mente permanecerá apenas em nome, tal como o chifre de uma lebre; desaparecerá como uma não entidade, como o filho de uma mulher estéril, o chifre de uma lebre, ou uma flor no céu. Isto também é mencionado no Yoga Vasishta.

D: Como?

M: Vasishta diz: “Ouve, ó Rama, nada há chamado ‘mente’. Assim como o espaço existe sem forma, também a mente existe como um vazio inanimado. Permanece apenas como nome; ela não tem forma. Não está no exterior, nem no coração. Entretanto, como o espaço, a mente, embora não tenha forma, preenche tudo.”

D: Como pode ser assim?

M: Onde quer que o pensamento surja como isto e aquilo, lá estará a mente.

D: Se existe mente onde quer que haja pensamento, mente e pensamento são diferentes?

M: O pensamento é o sinal da mente. Quando surge um pensamento, pressupõe-se uma mente. Na ausência de pensamentos, não pode haver mente. Portanto, a mente nada mais é do que pensamento. O pensamento é, em si, a mente.

D: O que é “pensamento”?

M: “Pensamento” é imaginação. O estado livre de pensamentos é a Suprema Bem-aventurança (Sivasvarupa). Os pensamentos são de dois tipos: a evocação de coisas experienciadas e não experienciadas.

D: Para começar, por favor diga-me o que é “pensamento”.

M: Os sábios dizem que nada mais é do que pensar em qualquer objeto externo como isto ou aquilo, é ou não é, deste ou daquele jeito, etc.

D: Como isto pode ser classificado sob o título de coisas experienciadas e não experienciadas?

M: Dos objetos dos sentidos (como o som, etc.) já experienciados – como “eu vi”, “eu ouvi”, “eu toquei”, etc. – pensar neles como tendo sido vistos, ouvidos e tocados é evocar coisas já experienciadas. Trazer à mente objetos dos sentidos não experienciados é o pensamento sobre coisas não experienciadas.

D: Como, então, é possível extinguir a mente?

M: Esquecer tudo é o meio supremo. O mundo não surge, a não ser pelo pensamento. Não pense e o mundo não surgirá. Quando nada surge na mente, a própria mente é perdida. Portanto, não pense em nada; esqueça tudo. Este é o melhor modo de matar a mente.

D: Alguém já disse isto antes?

M: Vasishta assim falou a Rama:

Vasishta: Elimine os pensamentos de todos os tipos – de coisas apreciadas, não apreciadas, ou outras. Como a madeira, ou a pedra, permaneça livre de pensamentos.

Rama: Devo eu esquecer tudo, completamente?

Vasishta: Exatamente, esqueça tudo completamente e permaneça como a madeira ou a pedra.

Rama: O resultado será a estagnação, como a das pedras ou da madeira.

Vasishta: Não é assim. Tudo isso é apenas ilusão. Esquecendo a ilusão, você estará livre dela. Embora pareça estar estagnado, você será a própria Beatitude. O seu intelecto ficará inteiramente claro e aguçado. Sem se embaraçar na vida mundana, mas parecendo ativo aos outros, permaneça como a própria Beatitude de Brahman e seja feliz. Diferentemente da cor azul do céu, não permita que a ilusão do mundo renasça no puro Espaço do Ser-Consciência. Esquecer essa ilusão é o único modo de matar a mente e permanecer como Bem-aventurança. Mesmo que Shiva, Vishnu ou o Próprio Brahman sejam seus mestres, a realização não é possível sem este meio. Sem esquecer tudo é impossível estabelecer-se enquanto Ser. Portanto, esqueça tudo, inteiramente.

D: Não é muito difícil?

M: Embora seja difícil para o ignorante, é muito fácil para os poucos que discernem. Nunca pense em nada, exceto no Brahman único e ininterrupto. Praticando isso longamente, você esquecerá facilmente o não-Ser. Não pode ser difícil ficar quieto, sem pensar em nada. Não deixe nenhum pensamento surgir na mente; pense sempre em Brahman. Assim, todos os pensamentos mundanos desaparecerão e só restará o pensamento de Brahman. Quando isso se tornar firme, esqueça até mesmo isso e, sem pensar “eu sou Brahman”, seja o próprio Brahman. Não pode ser difícil de praticar.

Agora, meu sábio filho, siga este conselho: pare de pensar em qualquer outra coisa que não seja Brahman. Com esta prática, a sua mente será extinta; você esquecerá tudo e permanecerá puramente como Brahman.

Luzes de Nisargadatta Maharaj

Aprofunde na percepção do “Eu Sou” e você encontrará. Como se encontra algo que você ignora ou se esqueceu? Você o mantém em mente até se lembrar. A percepção de ser, do “Eu sou” é a primeira a emergir. Pergunte-se de onde ela vem ou apenas observe-a em silêncio. Quando a mente permanece no “Eu sou”, sem se mover, você entra em um estado que não pode ser verbalizado mas pode ser experienciado. Tudo o que você precisa fazer é tentar e tentar novamente.

Eu vejo o que você também poderia ver, aqui e agora, se não fosse o foco errôneo de sua atenção. Você não dá atenção ao Ser. Sua mente está sempre com coisas, pessoas e ideias, nunca com seu Eu. Traga seu Eu para o foco, torne-se consciente de sua própria existência. Veja como você funciona, observe os motivos e resultados de suas ações. Estude a prisão que você construiu ao redor de si mesmo, inadvertidamente.

Olhe para a rede [o mundo pessoal de cada um] e para suas muitas contradições. Você faz e desfaz a cada passo. Quer paz, amor, felicidade e trabalha arduamente para criar dor, ódio e guerra. Quer viver muito e se empanturra, quer amizade e explora. Veja sua rede como composta de tais contradições e remova-as – o seu próprio ver os fará ir embora.

Como você parte para achar algo? Mantendo sua mente e coração naquilo. Deve haver interesse e constante lembrança. Lembrar-se do que precisa ser lembrado é o segredo do sucesso. Você consegue isso através da seriedade de intenção.

Inicialmente, dê o primeiro passo. Todas as bênçãos vêm de dentro. Volte-se para dentro. O “Eu sou” você conhece. Fique com isto todo o tempo que puder, até que você sempre volte a isso espontaneamente. Não existe caminho mais fácil ou simples.

Somos escravos daquilo que não conhecemos; do que conhecemos, somos senhores. Quaisquer vícios ou fraquezas em nós que conhecemos, descobrimos e entendemos suas causas e seus mecanismos, nós os superamos pelo próprio saber; o inconsciente se dissolve quando trazido à consciência. A dissolução do inconsciente libera energia; a mente sente-se adequada e torna-se quieta.

Recuse todos os pensamentos, exceto um: o pensamento “Eu sou!”. A mente vai se rebelar no começo mas, com paciência e perseverança, ela vai ceder e permanecer quieta.

Esteja alerta. Questione, observe, investigue, aprenda tudo o que puder sobre a confusão, como isso opera, o que faz para você e para os outros. Ao ter clareza sobre a confusão você se liberta dela.

Eliminando os intervalos de desatenção durante as horas de vigília, você vai gradualmente eliminar o longo intervalo de inconsciência que chama de sono. Você estará consciente que está adormecido.

Nisargadatta: Desapegue-se de tudo aquilo que deixa sua mente inquieta. Renuncie a tudo o que perturba a sua paz. Se você quer paz, mereça-a.
Pergunta: De que forma eu perturbo a paz?
Nisargadatta: Ao ser um escravo de seus desejos e medos.

Pense clara e profundamente, mergulhe na estrutura de seus desejos e suas ramificações. Eles são uma das partes mais importantes na sua composição mental e emocional e afetam suas ações poderosamente.
Lembre-se, você não pode abandonar o que não conhece. Para ir além de si mesmo, você deve conhecer a si mesmo.

Você deve se observar continuamente – em particular a sua mente – de momento a momento, sem perder nada. Este testemunho é essencial para a separação do Eu e do não Eu.

Já que é a Pura Consciência que faz a consciência ser possível, existe Pura Consciência em cada estado de consciência. Portanto, a própria consciência de ser consciente já é um movimento dentro da Pura Consciência. O interesse em seu fluxo de consciência leva-o para Pura Consciência.

Quando você entende que nomes e formas são conchas vazias sem qualquer conteúdo e o que é real é sem nome e forma – é pura energia de vida e luz da consciência – você está em paz, imerso no profundo silêncio da realidade.

Por que não se voltar da experiência para o experienciador, e realizaro verdadeiro significado da única afirmação que você pode fazer: “ Eu sou” ?

Apenas mantenha em mente o sentimento “Eu sou”, absorva-se nisso, até que sua mente e sentimento tornem-se um. Tentando repetidamente você vai se deparar com o equilíbrio correto entre atenção e sentimento e sua mente estará firmemente estabelecida no pensamento-sentimento “Eu sou”.

Você pode começar com trabalho desinteressado, abandonando o fruto de suas ações; então pode desistir dos pensamentos e, finalmente, de todos os desejos. Aqui, desistir (tyaga) é o fator operacional.
Ou você pode não se importar com as coisas que quer, pensa, faz, e apenas permanecer estabelecido no pensamento e sentimento “Eu sou”, focalizando “Eu sou” firmemente em sua mente. Todo tipo de experiência pode lhe acontecer – permaneça imóvel no conhecimento de que tudo o que é perceptível é transitório e apenas o “Eu sou” permanece.

Pergunta: Quando olho para dentro de mim, encontro sensações e percepções, pensamentos e sentimentos, desejos e medos, memórias e expectativas. Estou imerso nesta nuvem e não consigo ver nada mais.
Nisargadatta: Aquele que vê tudo isso, e o nada também, é o mestre interno. Apenas ele existe; todo o resto apenas parece existir. Ele é seu próprio ser (swarupa), sua esperança e garantia de liberdade; encontre-o e agarre-se a ele e você será salvo e estará seguro.

Ver o falso como falso é meditação. Isto deve ser contínuo, o tempo todo.

Posso falar-lhe sobre mim. Eu era um homem simples, mas confiei em meu Guru. O que ele me disse para fazer, eu fiz. Ele disse que me concentrasse no “Eu sou” – assim o fiz. Ele me disse que eu estou além de tudo o que é perceptível e concebível – eu acreditei. Dei a ele meu coração e minha alma, minha completa atenção e todo meu tempo disponível (eu tinha que trabalhar para manter minha família). Como resultado da fé e esforço dedicado, eu realizei o Ser (swarupa) em três anos.

Estabeleça-se na consciência de “Eu sou”. Este é o começo e também o fim de todo o esforço.

Para saber o que você é, você deve primeiro saber e investigar o que você não é. E para saber o que você não é, você deve observar-se cuidadosamente, rejeitando tudo o que necessariamente não combina com o fato básico “Eu sou”.
Nossa atitude comum é “Eu sou isso”. Separe consistente e perseverantemente o “eu sou” do “isto” e do “aquilo”, e tente sentir o que significa ser, apenas ser, sem ser “isto” ou “aquilo”. Todos os nossos hábitos vão contra isto e a tarefa de lutar contra eles é longa e árdua às vezes, mas o entendimento esclarecido ajuda muito. Quanto mais claramente você entender que no nível da mente você pode ser descrito apenas em termos negativos, mais rapidamente chegará ao fim de sua busca e realizará seu ser ilimitado.

Permaneça com seu Ser

Pergunta: Como se alcança isto?

Nisargadatta: A ausência de desejo e de medo o levará lá.

O Supremo é o mais fácil de se alcançar pois é o seu próprio ser. É suficiente não desejar nem pensar em nada que não o Supremo.

É a falsidade que é difícil e que é fonte de problemas. Ela sempre quer, espera, exige. Sendo falsa, é vazia, sempre em busca de confirmação e reconfirmação. Tem medo da inquirição e a evita; identifica-se com qualquer apoio, por mais fraco e momentâneo que seja. O que quer que consiga, perde, e pede mais.

Nisargadatta: Mesmo que eu lhe diga que você é a testemunha, o observador silencioso, isto não significará nada para você a menos que encontre o caminho para seu próprio ser.

Pergunta: Minha pergunta é: Como encontrar o caminho para o próprio ser?

Nisargadatta: Desista de todas as perguntas, exceto “Quem sou eu?” Pois, afinal, o único fato do qual você tem certeza é que você é. O “Eu sou” é certo. O “eu sou isto” não é.

Esforce-se para encontrar o que você é na realidade.

Lembrar-se de si mesmo é virtude, esquecer de si mesmo é pecado.

O procedimento correto é aderir ao pensamento de que você é o campo de todo conhecimento, a Consciência imutável e perene de tudo o que acontece aos sentidos e à mente. A ideia “Eu sou apenas a testemunha” purificará o corpo e a mente e abrirá o olho da sabedoria. O homem vai além da ilusão e seu coração se liberta de todos os desejos.

Por sua própria natureza, o prazer é limitado e transitório. Da dor o desejo nasce, na dor ele busca realização e termina na dor da frustração e do desespero. A dor é o pano de fundo do prazer, toda busca de prazer nasce na dor e termina na dor.

Discriminar e descartar (viveka-vairagya) são absolutamente necessários. Tudo deve ser examinado cuidadosamente e o desnecessário deve ser impiedosamente destruído.

Acredite-me, não poderá haver destruição demais. Pois na realidade nada tem valor. Seja apaixonadamente desapaixonado – isto é tudo.

Quando, através da prática da discriminação e desapego (viveka-vairagya), você perder de vista os estados sensorial e mental, o puro ser emergirá como o estado natural.

Para conhecer o mundo você se esquece do Ser – para conhecer o Ser, você se esquece do mundo.

O que é o mundo, afinal? Uma coleção de memórias. Agarre-se ao que importa, segure-se no “Eu sou” e abra mão de todo o resto. Isto é sadhana.

Esteja plenamente consciente de seu próprio ser e você estará na bem-aventurança conscientemente. É porque você dirige sua mente para fora de si mesmo e fixa naquilo que você não é, que você perde seu senso de bem estar, de estar bem.

Como sabe, a personalidade é apenas um obstáculo. A autoidentificação com o corpo pode ser boa para uma criança, mas crescer verdadeiramente depende de tirar o corpo do caminho ( ir além do corpo). Normalmente, a pessoa deveria superar em relação aos desejos do corpo cedo na vida. Mesmo o Boghi, que não recusa prazeres, não precisa ansiar por aquilo que ele já experimentou. Hábito, desejo pela repetição, frustra tanto o Yogi quanto o Boghi.

Existem tantos que tomam o alvorecer pelo meio dia, uma experiência momentânea pela plena realização e destroem até mesmo o pouco que tinham conseguido, por excesso de orgulho. A humildade e o silêncio são essenciais para um sadhaka [buscador], por mais avançado que seja. Apenas um jnani [iluminado] plenamente amadurecido pode permitir-se completa espontaneidade.

Seja atento, investigue incessantemente. Isto é tudo.

Com certeza, seja egoísta – da maneira certa. Deseje estar bem, trabalhe no que é bom para você. Destrua tudo o que se coloca entre você e a felicidade. Seja tudo – ame tudo – seja feliz – faça feliz.

A memória é material – destrutível, perecível, transitória. Sobre tais frágeis fundações construímos um sentido de existência pessoal – vago, intermitente, onírico. Essa vaga persuasão: “Eu sou isto e isto” obscurece o estado imutável da Pura Consciência e nos faz acreditar que nascemos para sofrer e morrer.

A liberdade para fazer o que se quer é, na realidade, escravidão, enquanto ser livre para fazer o deve, o que é correto, é a real liberdade.

Tudo o que você tem a fazer é ver o sonho como sonho.

Seja qual for o nome que dê a isso: vontade, firme propósito, ou mente focada, você retorna à seriedade, sinceridade, honestidade. Quando você é intensamente sério, você faz uso de cada acontecimento, cada segundo de sua vida ao seu propósito. Você não desperdiça tempo e energia em outras coisas. É totalmente dedicado, chame a isto vontade, amor ou total honestidade.

Encontre o permanente no efêmero, o único fator constante em cada experiência.

Nada pode bloqueá-lo mais que as concessões, pois elas mostram a falta de seriedade, sem a qual nada pode ser feito.

Comece desassociando-se de sua mente. Resolutamente lembre-se que você não é a mente e que os problemas dela não são seus.

Dê sua total atenção ao que é mais importante em sua vida – você mesmo. Do seu universo pessoal, você é o centro – sem conhecer o centro, o que mais você pode conhecer?

Para ir além da mente, você deve manter sua mente em perfeita ordem. Você não pode deixar uma bagunça para trás e seguir em frente. A confusão vai lhe puxar. “Recolha seu lixo” parece ser uma Lei Universal. E uma lei justa também.

Apenas lembre-se de você mesmo. “Eu sou” é suficiente para curar sua mente e levá-lo além. Apenas confie um pouco.

Se quiser conhecer sua verdadeira natureza, deve ter a si mesmo em mente todo o tempo, até que o segredo de seu ser seja revelado.

O que é Vedanta?

“Aquilo que permeia tudo, que nada transcende, e o qual, como o espaço universal à nossa volta, preenche completamente tudo, por dentro e por fora, esse Brahman Supremo não-dual – isso és Tu.” Shankara

A corrente filosófica na qual o pensamento de Nisargadatta Maharaj se insere é acadêmicamente conhecida como Vedanta Advaita.

Para essa corrente filosófica, o conhecimento fundamental é Atman é Brahman. Atman é o Self e Brahman significa a Alma universal ou Consciência Universal. Os Vedas falam da união mística como sendo a compreensão de que Atman é Brahman.

Advaita é uma palavra em sânscrito cujo significado literal é “não-dois”. A interpretação moderna do Advaita é algumas vezes apresentada como “Não-dualidade” ou mesmo como o final dos Vedas ou “Não-dualidade além do conhecimento”. Outro nome ainda para o estudo do Advaita é Jnani Yoga (Yoga do Conhecimento). No século 20, os mestres modernos do Advaita Ramana Maharshi e Nisargadatta Maharaj quebraram o caminho tradicional, de trasmitir o ensinamento por via escrita, e falaram diretamente de sua experiência.

Gaudapada, pensador do século VII, autor do tratado Mandukya-karika, defende que não há dualidade; a mente, acordada ou sonhando, move-se através de Maya (ilusão ou transitoriedade); apenas a não-dualidade é a verdade final. Esta verdade é obscurecida pela ignorância da ilusão. Não há o tornar-se, seja de uma coisa por si mesma, ou de uma coisa vinda de outra coisa. Na verdade não há Self individual ou alma, apenas o Atman (Consciência Universal).

O filósofo indiano medieval, Shankara (700? – 750?) desenvolveu ainda mais os fundamentos de Gaudapa, principalmente nos seus comentários aos sutras do Vedanta, os Sari-raka-mimamsa-bhasya (Comentários sobre os Estudos do Self). Shankara, em sua filosofia, não parte do mundo empírico e o submete a uma análise lógica, mas, ao invés disso, parte diretamente do Absoluto (Brahman). Se interpretado corretamente, ele questiona, os Upanishads ensinam a natureza de Brahman. Ao construir seu argumento, ele desenvolve uma epistemologia completa para contabilizar o equívoco humano de tomar o mundo fenomênico como sendo real.

O fundamental para Shankara, é o postulado de que Brahman é Real e o mundo é irreal. Qualquer mudança, dualidade ou pluralidade é uma ilusão (no sentido de que é ilusório, é momentâneo, transitório, não-permanente. Já o que é Real, não muda, é permanente e constante). O Self não é outra coisa senão Brahman. O insight dessa identidade resulta na libertação espiritual. Brahman está fora do tempo, do espaço e da causalidade, as quais são simplesmente formas de experiência empírica. Não é possível nenhuma distinção em ou de Brahman.

Origens do Advaita (não-dualidade) nos textos Védicos :

O Self que é livre do pecado, livre da velhice, da morte e do pesar, da fome e da sede, que não deseja nada além do que deseja, e que não imagina nada, além do que imagina, isso é o que devemos procurar, isso é o que devemos tentar compreender. Aquele que descobriu esse Self e o compreende, obtém todos os mundos e todos os desejos. (Chandogya Upanishad 8.7.1)

Tudo isso é Brahman. Deixe um homem meditar nisso (no mundo visível) como começando, terminando e respirando nele (Brahman)... ( Chandogya Upanishad 3.14 1, 3)

O Self separado dissolve-se no mar da pura consciência, infinita e imortal. A separatividade provém do identificar o Self com o corpo o qual é feito de elementos; quando a identificação física se dissolve, não pode haver mais um Self separado. É isso que eu quero dizer a vocês. (Brihadaranyaka Upanishad. Chapter 2, 4:12)

Assim como os rios que fluem para o leste e para o oeste se fundem no oceano e se tornam um com ele, esquecendo que eles eram rios separados, assim também todas as criaturas perdem sua separatividade quando se fundem finalmente no puro Ser. (Chandogya Upanishad. 10:1-2)

O que os sábios procuravam eles finalmente encontraram. Nenhuma pergunta a mais eles têm a fazer para a vida. Com a vontade própria extinta eles estão em paz. Vendo o Senhor do Amor em tudo a sua volta, servindo ao Senhor do Amor em tudo a sua volta eles estão unidos com ele para sempre. (Mundaka Upanishad. 3:2:5)

…Mas aqueles que me adoram com Amor vivem em mim, e eu passo a viver neles. Aquele que me conhece como seu próprio Self divino se desvencilha da crença de que ele é o [seu] corpo e não renasce como uma criatura separada. Este está unido comigo. Libertos do apego egoísta, medo e raiva, preenchidos de mim, rendidos a mim, purificados no fogo do meu ser, muitos alcançaram o estado de unidade comigo. (Bhagavad Gita 4:9-10)

E este Self, que é pura consciência, é Brahman. Ele é Deus, todos os deuses: os cinco elementos – terra, ar, água, fogo, éter; todos os seres, grandes ou pequenos, nascidos de ovos, nascidos de úteros , nascidos do calor, nascidos do solo, cavalos, gado, homens, elefantes, pássaros; tudo que respira, os seres que andam e que não andam . A realidade por detrás de tudo isso é Brahman que é pura consciência. Todos estes enquanto estão vivos e depois que deixaram de viver, existem nele. (Aitareya Upanishad)

Quando identificado com o ego, o Self parece outra coisa diferente do que ele é. Pode parecer mais fino que um fio de cabelo. Mas saiba que o Self é infinito. (Shvetashvatara Upanishad. 5:8-9)

O Self supremo nem nasce nem morre. Nao pode ser queimado, movido, perfurado, cortado ou seco. Além de todos os atributos, o Self supremo é a eterna testemunha, sempre puro, indivisível, único (não-composto), muito além dos sentidos e do ego... Ele é omnipresente, além de todos os pensamentos, sem ação no mundo externo, sem ação no mundo interno. Separado do externo e do interno, esse Self supremo purifica o impuro. (Atma Upanishad. 3)

Apesar de todas as galaxies emergirem dEle, Ele não tem forma e é incondicionado. (Tejabindu Upanishad. 6)

Medite e compreenda que esse mundo é preenchido com a presença de Deus. (Shvetashvatara Upanishad. 1:12)

Você é o Brahman supremo, infinito, e mesmo assim escondido no coração de todas as criaturas. Você permeia tudo. (Shvetashvatara Upanishad. 3:7)

“Aquilo em quem residem todos os seres e que reside em todos os seres, aquele que é o doador das graças para todos, a Alma Suprema do universo, o ser ilimitado – eu sou Aquilo." Amritbindu Upanishad

“Aquilo que permeia tudo, que nada transcende, e o qual, como o espaço universal à nossa volta, preenche completamente tudo, por dentro e por fora, esse Brahman Supremo não-dual – isso és Tu.” Shankara
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S. Nisargadatta Maharaj‏ - Eu sou um, mas apareço como muitos.

Você tem de desaprender tudo. Deus é o fim de todo desejo e conhecimento.

Seu próprio pequeno corpo também é cheio de mistérios e perigos e, mesmo assim, você não tem medo dele, porque você o toma como sendo seu. O que você não sabe é que o universo inteiro é o seu corpo, e você não precisa ter medo dele. Você pode dizer que você tem dois corpos: o pessoal e o universal. O pessoal vai e vem, o universal está sempre com você. Toda a criação é o seu corpo universal. Você está tão cego pelo que é pessoal, que você não vê o universal. A cegueira não terminará por si mesma - ela deve ser desfeita habilidosa e deliberadamente. Quando todas as ilusões são compreendidas e abandonadas, você alcança o estado perfeito e sem-erros, no qual todas as distinções entre o pessoal e o universal não existem mais.

Ninguém sofre em uma peça de teatro, a menos que se identifique com ela. Não se identifique com o mundo e você não sofrerá. Comentário: Esta citação, se colocada fora de contexto poderá ser mal compreendida podendo levar as pessoas à indiferença, que é muito diferente da não-identificação. A não-identificação pressupõe saber que o Observador "conheçe" a Si mesmo, sabe o que é o "mundo", e como interagir corretamente e de forma sadia com ele. Afinal de contas, o outro "mundo" sou Eu mesmo.

Assim como o gelo se transforma em água, e a água em vapor, e o vapor se dissolve no ar e desaparece, assim também o corpo se dissolve na pura consciência, e então no puro Ser, o qual está além de toda existência e não existência.

Você deve compreender a si mesmo como o imóvel atrás e além do móvel, a testemunha silenciosa de tudo o que acontece.

Aparecendo a consciência, aparece o mundo. Quando você considera a sabedoria e a beleza do mundo, você chama a isso de Deus. Conheça a fonte disso tudo, que está dentro de você mesmo, e você terá todas as suas perguntas respondidas.

Eu posso descrever o Supremo, o estado natural apenas por negação, como não-causado, independente, não-relativo, não-dividido, não-composto, inabalável, inquestionável, inalcançável por qualquer esforço.

Quando a ignorância, a mãe do pecado, se dissolve, o destino, que é a compulsão de pecar de novo, cessa. Com a ignorância terminando, tudo termina. As coisas são vistas como são, e elas são boas.

O que quer que você possa ouvir, ver ou pensar sobre, eu não sou isso. Eu sou livre de ser uma percepção ou conceito.

Seu mundo é transitório, mutável. Meu mundo é perfeito, imutável. Você pode me dizer o que quiser sobre seu mundo - eu posso ouvir cuidadosamente, até mesmo com interesse, e, mesmo assim, nem por um momento me esquecerei de que o seu mundo não existe, que você está sonhando. No meu mundo, as palavras e seus conteúdos não têm existência. No seu mundo, nada permanece; no meu, nada muda. Meu mundo é real, enquanto o seu é feito de sonhos. Meu mundo não tem características pelas quais possa ser identificado. Você não pode dizer nada sobre ele. Meu silêncio canta, meu vazio é cheio, não me falta nada. No seu mundo eu apareço com um nome e uma forma, mostrando consciência e actividade. No meu mundo eu tenho apenas existência. Nada mais. Eu sou meu mundo. Meu mundo sou eu mesmo. É completo e perfeito. Eu não necessito de nada, nem sequer de mim mesmo, porque a mim eu não posso perder. No seu mundo eu seria o último dos miseráveis. Acordar, comer, falar, dormir novamente - que coisa aborrecida.

Ela, a morte é muito parecida com o sono. Por um tempo, a pessoa está fora de foco, e então retorna. A pessoa, sendo uma criatura das circunstâncias, necessariamente muda com elas, como a chama que muda de acordo com o combustível. Apenas o processo continua, criando tempo e espaço.

O 'facto' de você ser uma pessoa é devido à ilusão do espaço e do tempo; você se imagina existindo em um certo ponto e ocupando um certo volume; sua personalidade é devido a sua auto-identificação com o corpo.

O Estado Supremo é universal, aqui e agora; todos já compartilham dele. É o estado de ser, saber e gostar. Quem não gosta de ser, ou não sabe da sua própria existência? Mas nós não tiramos vantagem dessa alegria de ser consciente, nós não adentramos esse estado e o purificamos de tudo que lhe é estranho.

Ao se realizar, você se sente completo, preenchido, livre do complexo dor-prazer, e, mesmo assim, incapaz de explicar o que aconteceu, por que e como. Você só pode descrevê-la em termos negativos: 'Nada mais está errado comigo.' É apenas por comparação com o passado que você sabe estar fora dele. De outra maneira, você é apenas você mesmo. Não tente impor aos outros. Se você conseguir, é porque a realização não é real. Fique em silêncio e observe-a em ação.

Tudo acontece como necessário, e mesmo assim nada acontece. Eu faço o que parece ser necessário, mas, ao mesmo tempo, eu sei que nada é necessário, que a vida, em si mesma, é uma crença falsa.

O sonhos não são iguais, mas o sonhador é um só. Eu sou o inseto, eu sou o poeta - no sonho. Mas, na realidade, eu não sou nenhum. Eu estou/sou além de todos os sonhos. Eu sou a luz na qual todos os sonhos aparecem e desaparecem. Eu estou em ambos os lados, dentro e fora do sonho. Assim como um homem que tem dor de cabeça conhece a dor, ele também sabe não ser a dor, assim eu conheço o sonho, a mim mesmo sonhando e a mim mesmo não-sonhando - tudo ao mesmo tempo. Eu sou o que eu sou, antes, durante e depois do sonho. Mas o que eu vejo no sonho, isso não sou eu.

Não tente conhecer a verdade, porque o conhecimento pela mente não é um conhecimento verdadeiro. Mas você pode saber o que não é verdade, o que já é o suficiente para libertá-lo do falso. A idéia de que você conhece o que é verdadeiro é perigosa, porque ela o mantém prisioneiro de sua mente. É quando você não sabe que você está livre para investigar. E não pode haver salvação sem investigação, porque a não-investigação é a principal causa do aprisionamento.

Alcança-se o estado Supremo renunciando a todos os desejos menores. Enquanto você estiver satisfeito com o mais baixo, você não poderá atingir o mais alto. Qualquer coisa que lhe agrade, o mantém para trás, preso. Até que você compreenda a insatisfatoriedade de tudo, sua transitoriedade e limitação, e arrebanhe energia em uma grande necessidade, mesmo o primeiro passo não é dado. Por outro lado, a integridade do desejo pelo Supremo é, por si mesmo, um chamado do Supremo. Nada, físico ou mental, pode lhe dar a liberdade. Você é livre a partir do instante em que compreende que sua prisão é construída por você mesmo e pára de forjar as correntes que o aprisionam.

A abstração é mental e verbal e desaparece no sono ou devaneio; ela reaparece no tempo. Eu estou/sou no meu próprio estado intemporalmente no agora. Passado e futuro estão apenas na mente - Eu sou/existo agora.

Quando você deseja e teme, e identifica a si mesmo com seus sentimentos, você cria a tristeza e os laços que o aprisionam. Quando você cria com amor e sabedoria, e permanece desapegado de suas criações, o resultado é harmonia e paz. Mas, qualquer que seja a condição de sua mente, de qual maneira ela reflete em você? É apenas a sua auto-identificação com a sua mente que o faz feliz ou infeliz. Rebele-se contra a escravidão que a sua mente lhe impõe, veja as coisas que lhe aprisionam como auto-criadas e quebre as correntes do apego e repulsa. Mantenha em mente a sua meta de liberdade até que você descubra que já é livre, que a liberdade não é algo no futuro distante a ser conquistado através do sofrimento, mas sim que é algo permanentemente seu, para ser usada. A libertação não é uma aquisição, mas sim uma questão de coragem, coragem de acreditar que você já é livre e agir sobre isso.

O Absoluto dá nascimento à consciência. Todo o resto está na consciência.
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“Aquilo que permeia tudo, que nada transcende, e o qual, como o espaço universal à nossa volta, preenche completamente tudo, por dentro e por fora, esse Brahman Supremo não-dual – isso és Tu.” Shankara

A corrente filosófica na qual o pensamento de Nisargadatta Maharaj se insere é acadêmicamente conhecida como Vedanta Advaita.

Para essa corrente filosófica, o conhecimento fundamental é Atman é Brahman. Atman é o Self e Brahman significa a Alma universal ou Consciência Universal. Os Vedas falam da união mística como sendo a compreensão de que Atman é Brahman.

Advaita é uma palavra em sânscrito cujo significado literal é “não-dois”. A interpretação moderna do Advaita é algumas vezes apresentada como “Não-dualidade” ou mesmo como o final dos Vedas ou “Não-dualidade além do conhecimento”. Outro nome ainda para o estudo do Advaita é Jnani Yoga (Yoga do Conhecimento). No século 20, os mestres modernos do Advaita Ramana Maharshi e Nisargadatta Maharaj quebraram o caminho tradicional, de trasmitir o ensinamento por via escrita, e falaram diretamente de sua experiência.

Gaudapada, pensador do século VII, autor do tratado Mandukya-karika, defende que não há dualidade; a mente, acordada ou sonhando, move-se através de Maya (ilusão ou transitoriedade); apenas a não-dualidade é a verdade final. Esta verdade é obscurecida pela ignorância da ilusão. Não há o tornar-se, seja de uma coisa por si mesma, ou de uma coisa vinda de outra coisa. Na verdade não há Self individual ou alma, apenas o Atman (Consciência Universal).

O filósofo indiano medieval, Shankara (700? – 750?) desenvolveu ainda mais os fundamentos de Gaudapa, principalmente nos seus comentários aos sutras do Vedanta, os Sari-raka-mimamsa-bhasya (Comentários sobre os Estudos do Self). Shankara, em sua filosofia, não parte do mundo empírico e o submete a uma análise lógica, mas, ao invés disso, parte diretamente do Absoluto (Brahman). Se interpretado corretamente, ele questiona, os Upanishads ensinam a natureza de Brahman. Ao construir seu argumento, ele desenvolve uma epistemologia completa para contabilizar o equívoco humano de tomar o mundo fenomênico como sendo real.

O fundamental para Shankara, é o postulado de que Brahman é Real e o mundo é irreal. Qualquer mudança, dualidade ou pluralidade é uma ilusão (no sentido de que é ilusório, é momentâneo, transitório, não-permanente. Já o que é Real, não muda, é permanente e constante). O Self não é outra coisa senão Brahman. O insight dessa identidade resulta na libertação espiritual. Brahman está fora do tempo, do espaço e da causalidade, as quais são simplesmente formas de experiência empírica. Não é possível nenhuma distinção em ou de Brahman.

Origens do Advaita (não-dualidade) nos textos Védicos :

O Self que é livre do pecado, livre da velhice, da morte e do pesar, da fome e da sede, que não deseja nada além do que deseja, e que não imagina nada, além do que imagina, isso é o que devemos procurar, isso é o que devemos tentar compreender. Aquele que descobriu esse Self e o compreende, obtém todos os mundos e todos os desejos. (Chandogya Upanishad 8.7.1)

Tudo isso é Brahman. Deixe um homem meditar nisso (no mundo visível) como começando, terminando e respirando nele (Brahman)... ( Chandogya Upanishad 3.14 1, 3)

O Self separado dissolve-se no mar da pura consciência, infinita e imortal. A separatividade provém do identificar o Self com o corpo o qual é feito de elementos; quando a identificação física se dissolve, não pode haver mais um Self separado. É isso que eu quero dizer a vocês. (Brihadaranyaka Upanishad. Chapter 2, 4:12)

Assim como os rios que fluem para o leste e para o oeste se fundem no oceano e se tornam um com ele, esquecendo que eles eram rios separados, assim também todas as criaturas perdem sua separatividade quando se fundem finalmente no puro Ser. (Chandogya Upanishad. 10:1-2)

O que os sábios procuravam eles finalmente encontraram. Nenhuma pergunta a mais eles têm a fazer para a vida. Com a vontade própria extinta eles estão em paz. Vendo o Senhor do Amor em tudo a sua volta, servindo ao Senhor do Amor em tudo a sua volta eles estão unidos com ele para sempre. (Mundaka Upanishad. 3:2:5)

…Mas aqueles que me adoram com Amor vivem em mim, e eu passo a viver neles. Aquele que me conhece como seu próprio Self divino se desvencilha da crença de que ele é o [seu] corpo e não renasce como uma criatura separada. Este está unido comigo. Libertos do apego egoísta, medo e raiva, preenchidos de mim, rendidos a mim, purificados no fogo do meu ser, muitos alcançaram o estado de unidade comigo. (Bhagavad Gita 4:9-10)

E este Self, que é pura consciência, é Brahman. Ele é Deus, todos os deuses: os cinco elementos – terra, ar, água, fogo, éter; todos os seres, grandes ou pequenos, nascidos de ovos, nascidos de úteros , nascidos do calor, nascidos do solo, cavalos, gado, homens, elefantes, pássaros; tudo que respira, os seres que andam e que não andam . A realidade por detrás de tudo isso é Brahman que é pura consciência. Todos estes enquanto estão vivos e depois que deixaram de viver, existem nele. (Aitareya Upanishad)

Quando identificado com o ego, o Self parece outra coisa diferente do que ele é. Pode parecer mais fino que um fio de cabelo. Mas saiba que o Self é infinito. (Shvetashvatara Upanishad. 5:8-9)

O Self supremo nem nasce nem morre. Não pode ser queimado, movido, perfurado, cortado ou seco. Além de todos os atributos, o Self supremo é a eterna testemunha, sempre puro, indivisível, único (não-composto), muito além dos sentidos e do ego... Ele é omnipresente, além de todos os pensamentos, sem ação no mundo externo, sem ação no mundo interno. Separado do externo e do interno, esse Self supremo purifica o impuro. (Atma Upanishad. 3)

Apesar de todas as galaxies emergirem dEle, Ele não tem forma e é incondicionado. (Tejabindu Upanishad. 6)

Medite e compreenda que esse mundo é preenchido com a presença de Deus. (Shvetashvatara Upanishad. 1:12)

Você é o Brahman supremo, infinito, e mesmo assim escondido no coração de todas as criaturas. Você permeia tudo. (Shvetashvatara Upanishad. 3:7)

“Aquilo em quem residem todos os seres e que reside em todos os seres, aquele que é o doador das graças para todos, a Alma Suprema do universo, o ser ilimitado – eu sou Aquilo." Amritbindu Upanishad

“Aquilo que permeia tudo, que nada transcende, e o qual, como o espaço universal à nossa volta, preenche completamente tudo, por dentro e por fora, esse Brahman Supremo não-dual – isso és Tu.” Shankara
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Swami Paramananda - O Domínio do Ser

A sede pela felicidade é um instinto comum em toda a humanidade; mas nem todos possuem o segredo de adquiri-la, nem o poder de retê-la quando ela surge. Isto requer sabedoria e paciência. Talvez por esta razão os grandes homens de todos os países e épocas enfatizaram tremendamente a vida de autodisciplina e autocontrole. A autodisciplina nos capacita a organizar e unir todas as nossas forças fragmentadas. Isto necessariamente aumenta nosso poder para o pensamento e para a ação. Não é verdade, apesar de parecer ser, que nós temos muitos fatores isolados em nossa vida. A mesma energia que pulsa através de nosso coração e cérebro também opera nossas mãos e pés; por isso aprender a acumular e controlar esta energia inerente, que agora desperdiçamos pela falta de coordenação e cooperação, significaria o bem mais desejável em nossa vida.

O autodomínio é um bem muito maior que qualquer bem deste mundo. Se nós não possuirmos a nós mesmos podemos possuir todas as belas coisas da vida e seremos incapazes de usá-las para qualquer vantagem. Mais do que isso, nós podemos inconscientemente derrubar a própria raiz de nossa vida. Sob a influência da raiva ou de qualquer emoção violenta e descontrolada, uma pessoa pode fazer algo de que sempre se arrependerá, aquilo que ele sabe que é destrutivo. Se você perguntar a ele por que fez isso, ele dirá que não pode evitar fazê-lo, foi feito antes que soubesse disso, por um impulso. Mas por que tal impulso surgiu afinal? Ele surgiu porque nós construímos o alicerce para ele. Não é por acaso que caímos sob a influência destes males. Somos nós que tornamos possível que tais influências prejudiciais surjam; e também está em nosso alcance torná-las impossíveis.

Se refletirmos e penetrarmos nas profundezas de nosso ser, jamais deixaremos de encontrar que cada evento em nossa vida está baseado em uma causa justa. Se um homem faz algo destrutivo para si mesmo ou para outro, é porque permitiu que o pensamento destrutivo o dominasse; ele já não é mais ele próprio. Ele pode estar ao alcance do sucesso, mas se ele perder o domínio de si mesmo, em um momento poderá fazer algo que significará desfazer tudo o que fez anteriormente.

Há uma parábola que um dos grandes místicos da Índia costumava ensinar que ilustra isto. Um homem estava trabalhando em seu pomar em um dia quente e seco do verão. Ele estava trazendo água de seu poço e trabalhou duramente por um longo tempo, mas quando ele foi examinar as árvores ele descobriu que toda a água tinha desaparecido levada pelos grandes buracos de ratos nos canais de água. O mesmo acontece conosco. Nós rezamos, meditamos, estudamos, fazemos todas as práticas que julgamos que nos darão um ímpeto espiritual e ainda assim ficamos estacionados ou até voltamos para trás. Por que acontece isto? Porque não nos fortificamos. Um homem pode usar palavras muito elevadas que expressam idéias morais, mas se a ele faltar o princípio fundamental da vida, se a ele faltar paciência, autocontrole, capacidade de perdoar, ele explodirá de raiva algum dia e então todos os seus dogmas e teorias não servirão para nada.

Sem equilíbrio não podemos esperar ter felicidade. Felicidade é uma qualidade da mente. É algo que possuímos internamente. Se nós não temos a felicidade internamente, nada externo poderá dá-la para nós. Se nós a temos internamente, não importa quais obstáculos são colocados diante de nós, nós os ultrapassaremos. O filosofo romano Marcus Aurelius coloca isto de forma bastante firme, “Seja alegre e não busque ajuda externa nem a tranqüilidade que os outros dão. Um homem deve ficar de pé e não ser mantido de pé por outros.” Aquele que possui a si mesmo totalmente pode ser confinado em uma prisão ou pode ser colocado com multidões de pessoas sem o seu temperamento, ainda assim se manterá equilibrado. Isto é o que todos nós precisamos aprender a fazer.

A disciplina da vida é algo maravilhoso. O domínio não é para aqueles que estão sempre tentando fugir e evitar tudo que é desagradável. Se continuarmos evitando o que é difícil jamais daremos um passo para frente. É isto que desperta nossas faculdades internas.

Existem dois caminhos para lidar com a auto-conquista: podemos nos aproximar dela com o espírito do auto-esforço ou com o espírito da auto-entrega. Estas parecem ser duas idéias contrárias; ainda assim encontramos homens santos em completa posse de si mesmos, com perfeito domínio sobre seus apetites e paixões, que são inteiramente livres de todo sentido de agressão ou auto-esforço. Eles entregaram-se tão totalmente ao Supremo que não há mais lugar em seus corações para qualquer escuridão, nenhuma possibilidade do aparecimento da raiva ou da maldade. Quando tivermos nos transformado de forma completa, não seremos mais pessoas calculistas: “Ficarei com raiva ou não? Falarei duro com ele ou irei me conter?” Estes pensamentos não surgirão porque nossa mente não terá mais nenhum lugar para eles.

Aquele que deseja cumprir bem seu papel, que deseja que sua ação seja frutífera, estudará sua natureza mais profunda. Ele descobrirá ser mais sábio fazer uma pausa de alguns momentos antes de agir, do que passar seu tempo futuro lutando para desfazer o que fez em um momento de precipitação ou loucura. Autocontrole ou autodomínio não é meramente um tema de estudo interessante para estudantes de religião ou filosofia. É uma necessidade vital em nossas vidas se desejarmos manter a ordem social ou a harmonia e vida familiar saudável. Nossos amigos podem lutar para criar condições pacíficas para nós, mas se nossa mente não estiver em paz, teremos apenas uma satisfação momentânea. Existem aqueles que jamais estão satisfeitos; eles sempre querem algo diferente. Não é gratificando nossos desejos que nós atingiremos alguma calma, e sim os unindo e fazendo-os harmoniosos com nosso propósito mais elevado. Isto não implica que devemos destruir qualquer desejo que surgir em nossa mente. Seria como cobrir o fogo com cinzas, - o fogo ainda estaria intacto. Nós não nos libertaremos de nossas baixas tendências por este método, e sim adquirindo maior conhecimento, conseguindo maior unidade dentro de nós mesmos.

Quando nosso pensamento, mente e coração, - quando todo o nosso ser estiver focado em absoluta união, então descobriremos os ideais elevados surgindo dentro de nós espontaneamente; então as coisas que pertencem aos níveis inferiores não mais nos tocarão. Será deste modo que venceremos e não de forma calculista. Espiritualidade não é uma questão de cálculo nem é uma questão de doutrinas, palavras ou teorias. É algo que desenvolvemos dentro de nós e após este desenvolvimento outros se beneficiam dele. É claro que somos os primeiros a nos beneficiar, pois nossa vida se transforma. Nós somos os mesmos e ao mesmo tempo nós não somos os mesmos. Temos as mesmas mãos e pés, mas eles estão disponíveis para um melhor uso; temos as mesmas mentes e corações, mas eles estão cheios de idéias e ideais mais elevados.

O único modo de levantarmos, o único modo que podemos elevar outros seres humanos é atingir um nível de consciência mais elevado. Se temos um padrão mais nobre de vida, se possuímos autocontrole, se somos mestres de nós mesmos, não precisamos mostrar isto em palavras. Tudo que está vivo ao redor de nós – filhos, irmãos, irmãs, amigos, - se beneficiarão pelo que somos. Eles podem ficar impacientes conosco, intolerantes por sermos diferentes deles, mas se nos seguramos firmes em nossos ideais eles virão a nós nos momentos de necessidade. Em tempo de calamidade, raiva, impaciência, ou grande sofrimento, aquele que não é molestado por estas coisas, torna-se como uma rocha; os outros se ligarão a ele e terão seu conforto.

Isto significa que para ganhar autodomínio temos que ser insensíveis como um bloco de madeira ou uma pedra? Não devemos confundir estas idéias. Pessoas insensíveis são geralmente egoístas. O autodomínio não é para elas, ou para a pessoa que é dura e rude, e sim para ele cuja consciência se expandiu, que ao invés de se envolver completamente com os pequenos sentimentos egoístas, subitamente chega a possuir outra parte de sua vida. Ele é infundido com divino poder e naturalmente não é mais capaz de fazer qualquer coisa que é baixa ou ignóbil. Estas grandes características não chegam por acidente; elas são o resultado do nosso pensar e viver.

Não existe carência de altos ideais. Mesmo do ponto de vista da auto-preservação, da felicidade pessoal, devemos cultivar o domínio do ser, pois nele está o segredo de toda força e realização. Os mesmos esforços que estamos fazendo agora nos trarão o mais elevado. Tudo que é necessário é direção e esforço correto. Isto é o que autodomínio significa. O domínio do ser nos dá tal sabedoria que podemos sempre em todas as circunstâncias depender de nossa própria força interna.
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Ramana Maharshi

Não há mistério maior que este: que sendo a Realidade nós buscamos alcançar a Realidade. Nós pensamos que existe algo ocultando a Verdade e que isso deve ser destruído a fim de que possamos atingir a Verdade. É ridículo. Chegará o dia em que você vai rir de todos os seus esforços pretéritos. Aquilo que será no dia em que você rir também é aqui e agora. A liberação, que é bem-aventurança, é natural a todos. A ignorância é uma ilusão da mente, uma falsa sensação. Apenas o ego é prisão, e a sua própria natureza, livre do contágio do ego, é liberação. Não há engano maior do que acreditar que a liberação, que está sempre presente como a sua verdadeira natureza, será alcançada em um tempo futuro. Até mesmo o desejo pela liberação é fruto da ilusão. Portanto, permaneça em silêncio. Se você permanecer como mera consciência, “eu sou”, a ignorância não existirá. Portanto, a ignorância é falsa; apenas a Consciência é real. O pensamento-“eu” é como um fantasma que, apesar de ser impalpável, surge simultaneamente com o corpo, vive e desaparece junto com ele. A consciência “eu sou o corpo/este é meu corpo” é o falso eu. Abandone-a. Você pode fazer isso buscando a fonte do sentimento “eu”. O corpo não diz “eu sou”. É você que diz “eu sou o corpo”. Descubra o que é este “eu”; busque sua fonte e ele desaparecerá.

Nisargadatta Maharaj

A mente pura vê as coisas como elas são – bolhas na consciência. Essas bolhas estão aparecendo, desaparecendo, e reaparecendo – sem ter uma existência real. Nenhuma causa em particular lhes pode ser apontada, já que cada uma é causada por todas e afeta a todas. O que foi alcançado poderá ser perdido novamente. Apenas quando você realizar a verdadeira paz, a paz que nunca perdeu, esta paz permanecerá com você, já que ela nunca esteve longe. Ao invés de buscar algo que você não tem, descubra aquilo que você nunca perdeu. A felicidade de ser completamente livre é indescritível. Esses são todos sinais de um crescimento inevitável. Não tenha medo, não resista, não atrase. Seja o que você é. Não há nada a temer. Confie e tente. Experimente honestamente. Dê uma chance ao seu verdadeiro Ser para que ele molde a sua vida. Você não se arrependerá. O que são o nascimento e a morte senão o início e o fim de uma sequência de eventos na consciência? (…) Tenha o seu ser fora deste corpo de vida e morte e todos os seus problemas cessarão. Eles existem porque você acredita que nasceu para morrer. Desiluda-se e liberte-se. Você não é uma pessoa.
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MEDITAÇÃO E CONTROLE MENTAL.S.Ramana. Maharshi

“A meditação (dhyana) é uma batalha, pois constitui o esforço de manter-se em um pensamento, excluindo todos os demais. Outros pensamentos surgem e tentam afundar aquele pensamento objeto da meditação; quando este ganha força os outros desaparecem. O controle da respiração (pranayama) é para aquele que não consegue controlar diretamente seus pensamentos; tem a mesma utilidade que um freio tem para um carro. Contudo, não devemos parar com o controle da respiração. Após atingir o objetivo – acalmar a mente inquieta – devemos empreender a prática da concentração. Com o tempo, será possível deixar de lado o controle da respiração; a mente então se aquietará tão logo se tente a meditação. Quando a meditação está bem sedimentada, não mais podemos desistir dela. Continuará automaticamente durante o trabalho, lazer e outras atividades. Continuará até mesmo durante o sono. O meio de se estabelecer na meditação é a própria meditação. Nem o japa (repetição mental de palavras ou frases) nem um voto de silêncio se fazem necessários. Se a pessoa se envolve em atividades mundanas de cunho egoísta, de nada adianta um voto de silêncio. A meditação extingue todos os pensamentos e então só resta a Verdade.”

Noutra oportunidade, o Sábio disse: “Quando a cânfora queima, não resta nenhum resíduo. A mente deve ser como a cânfora: deve derreter-se e ser totalmente consumida pela decisão determinada de encontrar e ser o Eu Real. Mediante tal determinação, a Busca ‘Quem Sou Eu?’ se torna eficaz. Quando a mente for assim consumida – quando não restar nenhum vestígio da mente –ter-se-á dissolvido no Ser.”

Sendo-lhe perguntado como pode alguém encontrar seu Guru, o Sábio respondeu: “Através de intensa meditação.”

As pessoas que procuram resultados específicos da meditação não os conseguem, desencorajam-se, e concluem que a meditação não lhes trouxe proveito. A essas pessoas o Sábio diz: “Não importa nada se esses resultados foram obtidos ou não. A obtenção da constância é o principal. É o grande proveito. De qualquer modo, devem confiar em Deus e esperar sem impaciência por sua Graça. A mesma regra se aplica ao japa também; japa feito mesmo uma vez traz proveito, quer a pessoa esteja consciente disso quer não.”

Alguns pensam que se deve continuar praticando a meditação, mesmo após a Iluminação. Essa questão é esclarecida da seguinte maneira: “Quando a mente se extingue no Estado sem ego, então nem há concentração nem não-concentração”. Referindo-se à mesma questão, o Sábio disse em outra ocasião: “Quando o Ser é realizado, não é possível nem tentar o samadhi nem abandoná-lo”.

O êxito na meditação vem rapidamente a poucos, e depois de longa prática para os outros. Sobre tal questão o Sábio diz: “As vasanas (propensões ou tendências mentais) impedem a meditação, portanto esta só se torna eficaz através do enfraquecimento progressivo das vasanas. Certas mentes são como a pólvora que pega fogo e se consome imediatamente: outras se assemelham ao carvão, e outras ainda são iguais ao combustível molhado.”

O segredo do controle mental é esclarecido na seguinte resposta: “A mente não pode ser controlada por alguém que julga que ela seja algo que realmente existe; nesse caso, a mente se comporta como um ladrão que finge ser um policial perseguindo o ladrão. Esforços feitos dessa maneira servem apenas para dar um novo alento de vida ao ego e à mente”. O método adequado é investigar a verdade da mente e do ego, o que leva à Busca.

Em outra ocasião, o Sábio disse: “Pessoas me perguntam como controlar a mente. Eu respondo: ‘Mostre-me a mente’. A mente nada mais é do que uma série de pensamentos. Como pode a mente ser controlada por um daqueles pensamentos, isto é, pelo desejo de controlar a mente? É tolice tentar acabar com a mente através da própria mente; a única maneira é encontrar a Fonte da mente e segurá-La. Então a mente desaparecerá por si só. O Yoga prescreve o chitta-vritti-nirodha (supressão dos pensamentos); eu recomendo Atmanveshana (Busca do Eu), a qual é praticável. A mente é contida [em algumas ocasiões], como no desmaio, ou como resultado do jejum. Mas logo que a causa é removida, a mente revive, isto é, os pensamentos começam a fluir como antes. Há apenas dois modos de controlar a mente: ou buscar a sua Fonte, ou renunciar a mente, deixando que o Poder Supremo a destrua. A entrega é o reconhecimento da existência de um Poder Supremo. Se a mente se recusa a auxiliar na busca da Fonte, deixe-a ir e espere que retorne: então a dirija para o íntimo. Ninguém obtém êxito sem paciente perseverança.”

A meditação com os olhos fixos no espaço entre as sobrancelhas, o Sábio nos adverte, pode resultar em medo. A maneira certa é fixar a mente somente no Ser. Não conduz ao medo.

Outra coisa que aprendemos é que não pode haver meditação – no sentido usual do termo – no Ser. Meditação é normalmente concebida como pensar em um objeto; isso implica em distinção entre sujeito e objeto e, portanto, não é possível meditação sobre o Ser. O que é chamado meditação nada mais é do que afastar os pensamentos, pelos quais o Ser fica oculto. Quando todos os pensamentos são dissipados, o Ser brilha em Sua Natureza real: permanecer nesse estado é a única meditação do Ser que pode haver. O Sábio, pois, está sempre em meditação, embora possa parecer estar frequentemente envolvido com outras atividades.

COMO LIDAR COM O SOFRIMENTO.

“Voltando a mente para dentro, vencer a pior das mágoas. O sofrimento só é possível quando consideramos que somos o corpo. Se a forma é transcendida, saberemos que o Ser é eterno – que para ele não existe nem nascimento nem morte. É apenas o corpo que nasce e morre, não o Ser. O corpo é uma criação do ego, que, contudo, nunca é percebido independente do corpo – na verdade, o ego é inseparável do corpo. Devemos considerar que no sono não temos consciência da existência de um corpo; assim, percebemos que o corpo não é real. Ao despertarmos do sono, surge o ego e, depois, os pensamentos. Descubra a quem os pensamentos pertencem. Pergunte de onde se originam. Devem surgir do Ser, que é a Consciência. Compreender essa Verdade, mesmo vagamente, ajuda na extinção do ego; com ela, a Existência infinita é alcançada. Nesse Estado não há indivíduos – apenas o Ser único. Portanto, não há espaço nem mesmo para o pensamento da morte.

“Se alguém julga que nasceu, não pode deixar de pensar na morte. Portanto, que ele se questione se realmente nasceu. Então, descobrirá que o Eu Real tem existência eterna, e que o corpo é apenas um pensamento – o primeiro de todos os pensamentos, a raiz de todas as perturbações.”

OS TRÊS ESTADOS DA MENTE.

A mente é alternadamente sujeita a três estados: o estado de sonolência ou inércia, chamado tamas, é o mais baixo; o seguinte, mais elevado, é o de atividade inquieta, chamado rajas; o superior é o de clareza e paz, chamado sattva. O Sábio nos diz que o discípulo não deve lamentar ou lastimar o predomínio dos dois primeiros, mas esperar até que surja o estado de clareza e, então, tirar o maior proveito dele.

A MORTE.

“Na verdade os mortos são felizes, tendo se livrado do pesadelo que é o corpo. Os mortos não sofrem. Os homens temem o sono? Não, procuram-no e preparam-se para ele. O sono é a morte temporária, e a morte nada mais é do que um sono prolongado. Se o homem, enquanto vivo, morrer a morte que não é morte, através da extinção do ego, ele não mais sofrerá pela morte de ninguém. Uma vez que sabemos que existimos continuamente através de todos os três estados – com o corpo e sem o corpo – por que deveríamos desejar a continuação dos grilhões físicos para nós mesmos ou para os outros?”

“Quando alguém está nos começando a morrer, a respiração se torna difícil. Isso significa que a pessoa se tornou inconsciente do corpo moribundo; a mente logo toma posse de outro corpo e oscila entre os dois, até que o apego se transfira totalmente para o novo corpo. Nesse ínterim, há violentas respirações ocasionais, indicando que a mente hesitantemente retornou ao corpo moribundo. Esse estado de transição da mente é semelhante a um sonho.”

OS ANIMAIS POSSUEM ALMA?

O Sábio trata os animais da mesma forma com que trata os seres humanos. Ao falar de um animal usa sempre os termos que usaria para referir-se a um ser humano, “ele” e “ela”. Uma vez perguntaram-lhe se os animais não eram inferiores aos homens, e ele respondeu: “Os Upanishads dizem que os homens, enquanto ficarem sujeitos ao ego – ou seja, até se conscientizarem do puro Ser –, não passam de animais. Pode até ser que os homens sejam piores do que os animais.”

Bhagavan também disse que almas muito avançadas podem ter ocupado corpos de animais a fim de viver no ambiente de seu eremitério. Havia, certa vez, quatro cães que viviam lá, e demonstravam muitos sinais de devoção. Por exemplo, quando se lhes oferecia alimento, eles não o tocavam até que o próprio Sábio tivesse sido servido e iniciasse sua refeição. Logo que o Sábio começava a comer, eles também o faziam, mostrando a sua peculiaridade quanto a esse aspecto.

PRÁTICAS DEVOCIONAIS.

“Práticas como o japa e outras semelhantes são preferidas por muitos, por serem mais concretas. Mas o que é mais concreto do que o Ser? Ele está dentro da experiência direta de cada um e de todos, e é experienciado em cada momento. Portanto, o Ser é a única coisa que é incontestavelmente conhecida. Assim sendo, devemos procurá-Lo e achá-Lo, em vez de buscar algo desconhecido – Deus ou o mundo.”

SAMADHI E SUA INTERPRETAÇÃO.

“A experiência que São Paulo obteve e que o converteu à fé em Cristo foi realmente uma experiência transcendente ao mundo das formas. Mas, posteriormente, ele a identificou como a visão do Cristo.” Respondendo à objeção de que Paulo tinha sido anteriormente um perseguidor de Cristo, o Sábio disse: “É irrelevante se o predominante tenha sido amor ou ódio; o que importa é que o pensamento de Cristo estava lá. O caso foi semelhante ao de Ravana e outros demônios.”

COMO DEVEMOS AGIR NO MUNDO?

“Devemos agir no mundo como um ator no palco. Em todas as ações há no fundo o Eu Real como princípio sustentador. Lembre-se disso e aja.” (K. Lakshmana Sarma)
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S. Nisagardatta. Maharaj - Ignorância/Desatenção
A Atenção como fuga às ilusões...

Não existe isso de ignorância, apenas desatenção. Além do mais, a preocupação é um estado de dor mental, e a dor é, invariavelmente, um chamado por atenção. No momento em que você dá atenção, o chamado por isso cessa e a questão da ignorância se dissolve. A atenção o traz de volta para o presente, o agora, e a presença no agora é um estado sempre à mão, mas raramente percebido.

Aprender as palavras não é o suficiente. Você pode conhecer a teoria mas, sem a experiência atual de si mesmo como o centro impessoal e sem atributos da existência, amor e bem-aventurança, o mero conhecimento verbal é estéril.

Como você sabe que não conhece o seu Self? Sua visão interior lhe diz que você conhece primeiro a você mesmo, porque nada existe sem você estar ali para testemunhar sua existência. Você imagina que não conhece a si mesmo, porque você não consegue descrever a si mesmo. Você pode apenas dizer: 'Eu sei que Eu Sou' e você recusará como não verdadeiro o argumento 'Eu não sou'. Mas o que quer que possa ser descrito não pode ser você mesmo, e o que você é não pode ser descrito. Você só pode conhecer o seu Ser sendo você mesmo, sem nenhuma tentativa de auto-descrição ou auto-definição. Uma vez que você tenha compreendido que você não é nada perceptível ou concebível, que o que quer que apareça no campo da consciência não pode ser você mesmo, você se aplicará na erradicação de toda auto-identificação, como o único caminho que pode levá-lo à profunda realização de si mesmo.

Atualmente, seu Ser está misturado com o experimentar. Tudo o que você precisa é separar o Ser da mistura das experiências. Uma vez que você tenha conhecido o puro Ser, sem ser isto ou aquilo, você vai discerni-lo entre as experiências; e não será mais enganado por nomes e formas. Auto-limitação é a própria essência da personalidade.

Abra mão de todas as perguntas, exceto uma: 'Quem sou eu?' Além do mais, o único fato do qual você está certo é de que você é. O 'Eu Sou' é certo. O 'Eu Sou isto' não é. Lute para decobrir o que você é na realidade.

Enquanto você se identificar* com eles, a mente e o corpo, você está condenado a sofrer; compreenda a sua independência, e você ficará feliz. Eu lhe digo: esse é o segredo da felicidade. A crença de que você depende de coisas e pessoas para ser feliz é devido à sua ignorância de sua verdadeira natureza; saber que você não precisa de nada para ser feliz, exceto seu auto-conhecimento, é sabedoria. N.T.: (*)'Identificar' no presente contexto significa acreditar (dar crédito à idéia ou conceito de) que somos a mente e o corpo.

Na realização aquilo que não pode mudar, permanece. A grande paz, o silêncio profundo, a beleza oculta da realidade permanecem. Ainda que não tenha como ser explicado em palavras, está esperando que você a experimente por si mesmo.

Na verdade, as coisas são feitas para você, e não por você. O seu desejo simplesmente acontece junto com a realização ou não do desejo. Você não pode mudar nenhum deles. Você pode acreditar que você se esforça, tenta e luta. Novamente, tudo isso simplesmente acontece, incluindo os frutos do trabalho. Nenhum deles é por você. Tudo está na imagem que aparece na tela de cinema, não na luz; inclusive a pessoa que você pensa ser. Você é somente a luz.

É sempre o falso que lhe faz sofrer, os falsos desejos, valores e idéias. Os relacionamentos falsos entre as pessoas. Abandone o falso e você estará livre da dor; a verdade te faz feliz, a verdade liberta.

A pessoa, o 'Eu Sou este corpo, esta mente, esta cadeia de memórias, este amontoado de desejos e medos' desaparece, mas algo, que você pode chamar de identidade, permanece. Isso me permite me tornar uma pessoa quando necessário.
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(S. Nisargadatta Maharaj) . Desejos e Medos

Não há sentido em lutar contra desejos e medos, os quais podem ser perfeitamente naturais e justificados; é a pessoa que é envolvida por eles que é a causa dos erros, passados e futuros. Esta pessoa deveria ser cuidadosamente examinada e sua falsidade vista; então o seu poder sobre você terminará. Além do mais, ela desaparece cada vez que você vai dormir.

Onde estão os muitos pontos da consciência? Na sua mente. Você insiste que o mundo é independente da sua mente. Como pode ser? Seu desejo de conhecer a mente das outras pessoas é devido ao seu desconhecimento de sua própria mente. Primeiro conheça sua própria mente, e você verá que a questão das outras mentes não se apresenta, porque não há outras pessoas. Você é o fator comum, o único elo entre as mentes. Ser é consciência.'Eu Sou' se aplica a todos.

O que evita a percepção da própria verdadeira natureza de cada um, é a fraqueza e a estupidez da mente, e sua tendência de evitar o sutil e focar apenas o grosseiro. Quando você segue a minha sugestão e tenta manter a mente apenas na noção de 'Eu Sou', você se torna plenamente consciente da sua mente e de seus devaneios. A consciência, sendo harmonia lúcida em ação, dissolve a estupidez, aquieta a agitação incessante da mente e, gentil mas firmemente muda sua própria substância. Essa mudança não precisa ser espetacular; pode ser dificil de perceber. Mesmo assim é uma mudança profunda e fundamental da escuridão para a luz, da inadvertência para a consciência. Por esse motivo, mantenha firmemente no foco da consciência a única pista que você tem; a certeza de Ser. Esteja com ela, brinque com ela, pondere sobre ela, mergulhe profundamente nela, até que a concha da ignorância se quebre e você emerja no reino da realidade.
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Desejos e medos 2

O que muda não é real, o que é real não muda. Agora, o que existe em você que não muda? Enquanto houver alimento, haverá corpo e mente. Quando o alimento cessa, o corpo morre e a mente se dissolve. Mas e o observador, perece? É uma questão de experiência atual que o Self tem sua existência independente da mente e do corpo. É existência-consciência-bem-aventurança. Consciência de ser é bem-aventurança.

Da maneira que você pensa a si mesmo, assim você pensa que o mundo é. Se você se imagina como separado do mundo, o mundo parecerá separado de você, e você experimentará desejo e medo. Eu não vejo o mundo como separado de mim, e assim não há nada para eu desejar ou temer.

Antes da mente, Eu sou. O 'Eu sou' não é um pensamento na mente; a mente aparece para mim, eu não apareço para a mente. E desde que o espaço e o tempo estejam na mente, eu estou/sou além do tempo e espaço, eterno e onipresente.

Sem a auto-realização você será consumido por desejos e medos, que se repetirão cegamente em um sofrimento sem fim. A maioria das pessoas não sabe que a dor pode ter um fim. Mas uma vez que elas tenham ouvido as boas notícias, obviamente ir além de toda essa azáfama e luta é a tarefa mais urgente que pode haver. Você sabe que você pode se libertar, agora é com você. Ou você permanece para sempre faminto e sedento, agarrando-se, retendo, sempre perdendo e sofrendo, ou você se empenha de todo o coração e cai fora em busca do estado de perfeição intemporal ao qual nada pode ser adicionado, do qual nada pode ser tirado. Nele todos os desejos e medos estão ausentes, não porque se desistiu deles, mas porque eles perderam seu significado.

Fique em silêncio e observe o que vem à superfície da mente. Rejeite o conhecido, dê boas vindas ao desconhecido e rejeite-o por sua vez. Dessa maneira, você chega a um estado no qual não há conhecimento, apenas Ser, no qual Ser em si mesmo é conhecimento. Saber por Ser é conhecimento direto. É baseado na identidade entre aquele-que-vê e o visto. O conhecimento indireto é baseado na sensação e memória, na proximidade entre o percebedor e o percebido, confinado ao contraste entre os dois.

No Hinduísmo, a própria idéia de livre arbítrio é não-existente, assim não há uma palavra para ela. Vontade, ou arbítrio, é compromisso, fixação, prisão.
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Ser

Tente ser, apenas ser. A palavra mais importante é: 'tente'. Permita-se tempo suficiente, todos os dias, para sentar-se em silêncio e tentar, apenas tentar, ir além da personalidade com seus vícios e obsessões. Não pergunte como, não pode ser explicado. Você apenas continua tentando, até conseguir. Se você perseverar, não há como falhar. O que mais importa é a sinceridade, a seriedade; você tem de realmente ter se saciado de ser a pessoa que você é; agora veja a urgência necessária para se livrar dessa auto-identificação desnecessária, com esse amontoado de memórias e hábitos. Essa resistência firme contra o desnecessário é o segredo do sucesso.

O que está acontecendo agora é uma projeção de sua mente. Uma mente fraca não pode controlar suas próprias projeções. Seja consciente, portanto, de sua mente e de suas projeções. Você não pode controlar o que você não conhece. Por outro lado, o conhecimento traz poder. Na prática é muito simples. Para controlar a si mesmo, conheça a si mesmo.

Enquanto você se identificar com eles, corpo e mente, você estará obrigado a sofrer; compreenda sua independência e permaneça feliz. Eu lhe digo, esse é o segredo da bem-aventurança. Acreditar que você depende das coisas e das pessoas para a bem-avbenturança é devido à ignorância da sua verdadeira natureza; saber que você não necessita de nada para ser feliz, exceto auto-conhecimento, é sabedoria.
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Na realidade, você nunca nasceu e nunca morrerá. Mas você imagina que você é, ou tem, um corpo e pergunta o que o trouxe a esse estado. Dentro dos limites da ilusão, a resposta é: o desejo, nascido da memória, o atrai a um corpo e o faz pensar ser alguém com ele. Mas isso é verdadeiro apenas do ponto de vista relativo. Na verdade, não existe corpo, nem um mundo que o contenha; há apenas uma condição mental, um estado similar ao sonho, fácil de dissipar questionando sua realidade.
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Saber que, o que quer que se conheça não pode ser eu mesmo, ou meu, é libertação. A liberdade da auto-identificação com um conjunto de memórias e hábitos, o estado de deslumbramaento ante o alcance infinito do Ser, sua criatividade inexaurível e transcendência total, o destemor absoluto nascido da compreensão da ilusoriedade e transitoriedade de cada modo de consciência - fluindo de uma fonte profunda e inexaurível. Conhecer a fonte como fonte e a aparência como aparência, e a si mesmo como a fonte é auto-realização.