segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Em Busca de Deus - Um Bom Amigo

(18) A REDESCOBERTA DO CRISTIANISMO (Jan 2008)


Com atenção a textos do livro “Cristianismo Perdido”, de J. Needleman, professor de Religiões em Universidades dos EUA e pesquisador das origens do cristianismo.

O cristianismo dos primeiros séculos mostra que aquilo que as doutrinas cristãs pregam, hoje, quase nada tem a ver com o que Jesus pregou; que o que Jesus ensinou é o mesmo que, há séculos ou milênios, o misticismo oriental ensina, como se pode verificar por este e outros textos. Jesus ensinou o modo de se chegar a Deus, sem necessidade de qualquer intercessor ou intermediário, e numa total união com a divindade absoluta. Por isso disse: “Eu e o Pai somos um”. A interpretação feita pela doutrina cristã é, no dizer de sérios pesquisadores e mesmo sacerdotes, uma verdadeira “tragédia para a civilização ocidental”.

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Extratos:

...Inquirido sobre a existência de algum lugar onde os líderes da Igreja fossem revigorar a fé, sob a orientação de um guia espiritual experiente, a reação do bispo foi surpreendente: “Onde? Onde?...”

...É extremamente necessária, para o cristianismo, uma troca de experiências com o Zen Budismo e o Hinduísmo, reunindo, num Único Caminho, todos os caminhos para Deus, destruindo os preconceitos, verdadeiros muros artificiais entre as culturas, raças, religiões e nacionalidades. E trazer de volta a tendência, que as doutrinas perderam, para a oração “contemplativa” (a oração/meditação que busca “unir”, literalmente, o homem a Deus, pregada pela igreja dos primeiros séculos e, mais tarde, por Tereza de Ávila às noviças).

Cada vez se torna mais evidente que, se o cristianismo recuperar sua primitiva tradição, será importante progresso para todos os cristãos. Com “primitiva”, refiro-me ao cristianismo perdido, que produzia no homem uma verdadeira transformação, um “cristianismo totalmente diferente que quase nada tem a ver com aquilo que as doutrinas cristãs ensinam, hoje”.

...Convenci-me de ter em minhas mãos documentos que poderiam revolucionar o entendimento atual da religião cristã. Neles deve estar a chave do cristianismo ‘prático’, em contraposição às doutrinas, só teóricas, e aos rituais de hoje, que apenas ‘tentam’ fazer com que os fiéis continuem acreditando em ‘teorias’ que não podem ser provadas ou “experimentadas diretamente”.

...Com Constantino, o cristianismo tomou a forma de religião secular (mundana, temporal) e se afastou totalmente daquilo que se poderia chamar ‘um caminho interior’, ‘um caminho para Deus’. As pesquisas indicam que, no passado, existiram, na religião cristã, certas práticas, hoje esquecidas, “iguais” às práticas das tradições místicas orientais, meditativas.

...Falei ao Metropolita (chefe da Igreja ortodoxa) que, quando assisti ao culto religioso que ele dirigira, me impressionou a falta de emoção na sua voz e que, hoje, o coro me impressionou do mesmo modo, com a quase total ausência de emoção na voz dos cantores. Respondeu-me: “Você percebeu isso?! É absolutamente verdadeiro. Foram necessários cinco anos de lutas para conseguir isso, mas eles, finalmente, estão começando a compreender...” Eu sabia o que ele queria dizer: esse aspecto mais inesperado do cristianismo que, talvez, em nossos dias, pouquíssima gente conhece: “destruir a emoção para chegar ao sentimento”. “No estado de oração (sem emoção e imaginação) somos vulneráveis (à experiência mística)” (é o que ensinam os místicos).

...Muito antes de Sócrates e Platão falarem de uma “inteligência universal” que só desperta no homem quando suas emoções cessam, Heráclito dizia: “As almas impassíveis (indiferentes, não-emocionais) são as melhores” (estão mais próximas da percepção de Deus).

...Na capela, com os monges, o ritual continua: “Kyrie eleison, Kyrie eleison, Senhor, tende piedade de nós...”, repetidas vezes, interminavelmente... As dores voltam redobradas, os joelhos na pedra dura, as costas doem a cada prostração, braços estendidos e a testa tocando o chão de pedra... Com frio, faminto, suado, cansado, subo e desço, mecanicamente, trinta, cinqüenta vezes. Tento encontrar um pensamento em que me concentre para não me perder no desconforto físico, e então..., percebo que “não” há mais pensamentos em minha mente... não há associações... nada..., somente um “vazio”... (semelhante à meditação dinâmica do Osho; na meditação das tradições místicas orientais, busca-se o Vazio que, se obtido, pode levar o indivíduo a ser preenchido pela divindade).

...Qual é a resposta correta ao amor e à vontade de Deus? “Aceitá-los. Não há nada a fazer”. (Não faça nada; tudo já está feito e a escolha não é nossa).

...Eu sabia terem existido, no cristianismo primitivo, exercícios e métodos para atingir a “experiência” religiosa (mística), hoje totalmente esquecidos. “Se você permanecer no serviço religioso com as mãos caídas ao lado do corpo, a cabeça ligeiramente inclinada, não muito, o peso do corpo tranqüilamente equilibrado... começará a perceber que ocorrerão algumas modificações em você. A respiração muda, certos músculos relaxam, outros se tornam firmes sem tensão... Os exercícios, sobre os quais você indaga, originaram-se desse modo, da observação que os Padres fizeram do que acontecia quando se encontravam em estado de oração (meditação)”.

... “Atenção” sobre si mesmo (Gurdjef, Krishnamurti, Benoit) é o que importa; é isso que traz o “conhecimento real” e, em conseqüência, a fé real (convencimento). Este é o verdadeiro ensinamento da tradição cristã, o conhecimento que salva (a verdade que liberta), que transforma a vida do homem (resultando no “novo homem”). E isso nada tem a ver com crer ou acreditar, pois está comprovado pela experiência pessoal de muitos.

...O cristianismo, como as tradições orientais, reconhece que o pensamento (raciocínio ou desejo) por si só não pode mudar a natureza humana; que sua doutrina não pode ser apenas, como tem sido, uma teoria com explicações das coisas, uma explanação sobre, particularmente, a vida de Jesus; mas que deve ser um meio de transformar totalmente o homem. Podemos ter pensamentos elevados, caráter íntegro e, apesar disso, não seremos capazes de viver de acordo com o que sabemos ser verdadeiro e correto, e não mudaremos para melhor. Isso é fato evidente na experiência de cada um. Enquanto nossa vida “emociona”’ continuar sendo o que é, nem todo o pensar correto do mundo, nem todas as orações, conseguirão mudar uma vírgula de nossa natureza essencial, de nossa personalidade (isto é, não daremos um passo em direção a Deus).

Quando temos compreensão intelectual de uma grande idéia, vem-nos a convicção de que viveremos de acordo com essa idéia, que nossa vida mudará. Parece que não percebemos o grande número de vezes que a vida mostra como erramos ao pensar assim, pois continuamos a cair e a cair. Em especial, os pensamentos ligados às mais importantes verdades têm o poder de envolver toda nossa consciência, que ficamos cegos ao fato de que são os impulsos emocionais e físicos (do ego) que dirigem totalmente nossa vida do dia-a-dia e nos fazem errar continuamente.

...As tradições, ao afirmarem que Deus está além da compreensão do homem, não estão dizendo que é impossível captar a natureza de Deus. A inteligência tenta compreender Deus; mas serão apenas idéias, e idéias não podem nos transformar. Algo mais difícil e indefinível é necessário. O homem não pode depositar esperanças no seu intelecto porque nem mesmo o máximo aperfeiçoamento de sua mente pode levá-lo a uma relação com Deus, embora religiões e religiosos assim pensem e afirmem (não é a “evolução da alma” que salva; é a destruição do ego).

...A emoção (e a imaginação, segundo o Zen) é um dos principais fatores que mantêm o ser humano no estado de “psicose espiritual”, fato que o afasta de Deus.

...O intelecto e a razão sempre exigiram a necessidade de entender as experiências que outros deixaram. Na Idade Média, essa exigência deu demasiada ênfase à autoridade das Escrituras e dos dogmas, “deixando em segundo plano a experiência interior, pessoa”’. Após o Renascimento e a revolução científica, a prova experimental e a demonstração lógica ganharam importância. Esse debate entre revelação e fé continua até hoje, sem que ambos os lados suspeitem que a “verdadeira questão” é a ativação, no “íntimo” do homem, de algo muito mais importante: uma qualidade inteiramente nova de “atenção”.

...A percepção e o auto-conhecimento só são possíveis num certo estado interior, que não seja distorcido pelas emoções e pensamentos. O que liberta o homem é esse “estado de atenção”, que afasta o ego e purifica a mente. O conhecimento que liberta só pode ser adquirido nesse estado específico de consciência (quando o ego se afasta).

...Se a Igreja conhece a verdade, porque a necessidade do dogma, um elemento imposto e opressivo para todos? Porque um ensino destinado a orientar nossa relação com Deus se transformou numa imposição de afirmações que provocam reações de descrença na doutrina da Igreja? Isso é porque, na impossibilidade de comunicar a experiência inefável de alguns, através do dogma a Igreja tenta fazer que, dessa experiência, os fiéis tenham, pelo menos, um vislumbre.

...As tradições místicas enfatizam a “ilusão” dos bens terrenos e a “soberana realidade do mundo atemporal”, e afirmam que “todos” nós temos capacidade de chegar a Deus por “nossas próprias forças”. O cristianismo, ao contrário, nega isso categoricamente, em razão do pecado original que implica uma separação entre o homem e Deus, que o homem, sozinho, não consegue eliminar; afirma que Deus é absolutamente inacessível, e que só Ele pode fazer o homem participar de sua natureza divina. Contudo, nas tradições místicas, a “alma” é, por natureza, divina, e só necessita “eliminar as ilusões” que a afastam dessa compreensão para encontrar Deus, encontrando-“se” (pela meditação).

Para o cristianismo, só se salvam os que crêem, não importando seu grau de vida interior; assim, uma criança e um medíocre, se crêem, estão mais próximos da salvação que os maiores ascetas. Para ele, há pessoas muitíssimo religiosas, mas isso de nada lhes vale se não são cristãs; o que salva é crer e aceitar Jesus como salvador. Assim, comparadas ao cristianismo, as religiões “pagãs” parecem obsoletas e deturpadas, pois afirmam que já estamos todos salvos (como Paulo afirmou).

Os sábios afirmam que “seria uma perda irreparável se as outras tradições desaparecessem da Terra”. Mas, lamentavelmente, muitas já desapareceram devido à ação de missionários cristãos!... Contrariando esta acusação, uma encíclica de Pio XII diz: “A Igreja jamais tratou as doutrinas “pagãs” com desrespeito ou desdém; ao contrário, purificou-as de todo erro, complementando-as em seguida, e rematando-as com a sabedoria cristã, destruindo a corrupção e, em especial, a idolatria...” (!!!) (vê-se, aqui, com que desrespeito a Igreja as tratou, pois julgou-as impuras, incompletas, erradas, corruptas e idólatras).

...”Reações emocionais, apego e desejo”, são inimigos da verdade e levam o pensamento e o raciocínio ao engano. O objetivo da psicologia da religião deve ser fazer que percebamos (pelo auto-conhecimento) nossa condição real, quando livre de reações egoístas. Contudo, a linguagem do cristianismo se envolveu com as reações das emoções, em vez de se voltar para o sentimento, que é o caminho correto.

Pelas doutrinas cristãs, o abismo entre o homem e Deus é tão vasto e profundo que todo o esforço para vencê-lo é inútil. Diferentemente, as tradições não-cristãs (e até Paulo) afirmam que “já” estamos salvos, que não há nada a fazer quanto a isso, afirmações que alguns dizem ser perigosa, pois leva o homem à passividade e, daí, ao “pecado” da preguiça e do orgulho. (Krishnamurti e o Zen afirmam que desde sempre estamos salvos; falta-nos apenas a percepção desse fato, difícil devido às ilusões vindas da percepção do mundo ao nosso redor). Contudo, na própria doutrina cristã, nos Evangelhos e outras partes da Bíblia, assegura-se que a escolha não e nossa, que não decidimos. Basta analisar, cuidadosamente, essas passagens (que, provavelmente, o papado se esqueceu de modificar), e veremos que isso é um fato. Se é fato, como poderemos “escolher” nos salvar? (Jesus mesmo disse a Pilatos: “Nenhum poder teríeis se do alto não vos fosse dado!” e, : “‘Ninguém vem a mim se o Pai que me enviou não o mandar a mim”). A ciência mais avançada afirma a mesma coisa: que o ser humano (com certeza todos os demais seres cerebrados), nada escolhe. O universo é, todo ele, interdependente, interconexo, inter-relacionado tão completamente que cada fenômeno, cada ação, cada evento, cada pensamento, depende de todos os demais fenômenos ou eventos e não da vontade de seres individuais. (Krishnamurti enfatiza: “Aquele que escolhe é imaturo”, não significando que nossa escolha pode ser frustrada, mas que aquele que “pensa” que escolhe não despertou ainda. Dessa presunção vêm todos os conflitos e sofrimentos do homem, desde a frustração pelo fato de não se realizar o escolhido, até as maiores guerras e violências).

...A busca, no verdadeiro sentido, é uma característica da mente humana, fato que a psicologia ocidental e as religiões populares ainda não reconhecem. (A ciência está chegando à idêntica conclusão, como indicam pesquisas recentes). Isso mostra que “todos” necessitamos da Verdade; não sabemos como nem onde encontrá-la, mas existe em nós uma esperança que tem raízes num profundo sentimento de urgência em nossa mente.

...Os iluminados condenam as religiões organizadas, populares; apontam-nas como responsáveis pelo condicionamento da inteligência, imposto por dogmas, mistérios da fé, designios insondáveis e pseudo-verdades; afirmam que a causa principal da aflição humana é a tendência que o homem tem de impor, à totalidade de sua vida, idéias mecânicas, condicionadas, o que acarreta toda sorte de violência, conflito e injustiça da historia da humanidade, e que a religião organizada é até mais culpada que as ideologias políticas, pois disfarça aquilo que impõe aos fiéis, com idéias “sagradas”, como Deus, salvação, espiritualidade, paraíso, pecado, ressurreição, reencarnação, castigos e prêmios. O chamado “amor cristão” é apenas o “receio” do castigo que faz o homem “esforçar-se” para ser bom, levado por impulsos de medo e ambição. O amor verdadeiro, segundo o Zen, é impossível sem que cesse a dissipação da energia psíquica acarretada pela imaginação e emoção, através da atenção em si mesmo em todas as situações.

É preciso estarmos sempre atentos às reações internas (emoções) produzidas pelos acontecimentos externos, que geram sentimentos negativos de desagrado, violência, aborrecimento, ressentimento, ciúme, injustiça, etc., ou mesmo positivos, como de euforia, alegria, prazer, reações que, praticamente, “dominam” nossa vida interior, com reflexos em nossa conduta exterior. Não devemos esquecer que é visão comum a todas as tradições, inclusive ao cristianismo primitivo, que as “emoções”, positivas ou negativas, são obstáculo à percepção de que já estamos salvos.

...Freud trouxe enorme depreciação da possibilidade humana. O sofrimento neurótico do homem resulta, segundo as tradições, da falta de conhecimento de si mesmo, não da repressão à sexualidade, como supunha Freud. No íntimo do homem existe a necessidade de conhecer a verdade, fato que distingue o homem dos demais animais. A falta de auto-conhecimento, produz efeitos fisiológicos, psicológicos e sociais sempre danosos. Toda corrupção da religião e, em conseqüência, da civilização, tem início quando o esforço para o auto-conhecimento se torna menos atrativo do que a satisfação dos interesses pessoais.

Mas, existiria no homem uma atração natural pela verdade mais forte do que a natural atração pelo prazer? Parece que as religiões, no Ocidente, acreditam que não, tanto que, por isso, incutem, na mente dos homens, idéias como inferno, pecados mortais, penas eternas ou não, satanás, reencarnações dolorosas, carma, mundos expiatórios etc., cujo objetivo é, pelo medo egoísta, manter os homens na fé, presos a crenças, isto é, levá-os à prática das virtudes, as quais, conforme ensinam as doutrinas, asseguram uma antevisão do céu, prêmio pelo “esforço” consumido para “parecer virtuoso”. Contudo, no cristianismo primitivo (não nas Escrituras, que devem ter sido modificadas, convenientemente, pelos grandes da Igreja, para a manutenção do poder temporal, em todos esses séculos), as “virtudes”, não sendo espontâneas, mas praticadas em “obediência a mandamentos”, eram consideradas “obstáculo” para a salvação, devido ao desperdício de energias exigidas para sua prática (é o que, também, assegura o Zen budismo).

...A idéia de santidade, no Ocidente, contribuiu para desestimular o homem. O santo é apresentado como um ser dotado de inclinação ‘não natural’ para a verdade. Suas vidas de sacrifícios e devoção são descritas de tal modo que fazem acreditar ser impossível para nós, cheios de defeitos, seguirmos seus exemplos. E a crença os apresenta dotados do poder “milagroso” de ajudar quem lhes dirige orações, fato que estimula nos homens a passividade e a credulidade, e a “busca pela religião como única maneira de se salvar”.

Contudo, os iluminados sempre afirmaram, como Jesus o fez, que é possível ao homem comum fazer o que eles fizeram, “e coisas maiores ainda”, que somos da natureza de Buda, que desde sempre estamos salvos (hoje, a própria ciência mais avançada confirma).

...Julgar alguém como encarnação de Buda, isto é, tão diferente dos demais que ele pôde chegar “lá” e nós não, é sinal de descrença na justiça divina. No entanto, é o que faz crer a doutrina cristã: que somos inferiores, pecadores, corruptos e indignos (tanto que nascemos no pecado original; a igreja, talvez para mostrar como somos indignos, lembra, com freqüência, a frase ‘inter faeces et urinam nasciturum’, isto é, entre fezes e urina todos nascemos) e que o Pai teve de mandar seu filho para morrer na cruz para nos salvar (Contudo, quem foi salvo pela morte de Jesus? As igrejas continuam, ainda, repletas de fiéis orando e pedindo, sempre, pela salvação!).

Por outro lado, ao contrário do que foi dito acima, a Bíblia Cristã afirma que “somos o templo do Altíssimo”, que “o Pai em nós habita”, que “o Reino de Deus já está dentro de nós”. Como conciliar essas contradições? Se o próprio Deus reside em nós, porque temos de exercitar o auto-domínio, o controle de nossos atos, orar a Deus para não cairmos em tentação, orar pela graça, pela salvação?

...A Igreja, no passado, compreendeu e ensinou que deve haver um permanente misticismo, uma prática constante cujo objetivo é fazer com que percebamos a verdade da presença de Deus em nós. (Jesus afirmou: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”; não disse “se” conhecermos a verdade, mas que a conheceremos e, assim, seremos libertados. De que? Respondem os místicos que é a libertação da “ilusão” que o ego nos traz; que então perceberemos a verdade de que temos, todos nós, desde já, a natureza divina.

Estamos, assim, mergulhados na ilusão e para sairmos dela, como as tradições místicas afirmam, e o primitivo cristianismo ensinava, devemos estar sempre “conscientes”, isto é, “atentos”. Esse ensinamento foi perdido, na doutrina cristã, e o estar consciente, a atenção, é a coisa mais esquecida de todas. Estar consciente, atento, é estar “presente”; atenção significa presença em todos os momentos da vida do dia-a-dia; não devaneando, imaginando, lembrando, mas atento a tudo.

Quando os olhos, a audição, os sentidos enfim, e os pensamentos vagueiam exteriormente, a mente se torna dispersa em meios às coisas do mundo; mas, se os sentidos se voltam atentos para o coração (para dentro), a mente torna-se fixa, “sem” pensamentos, e esse é o primeiro passo para nos abrirmos à percepção do divino em nós. Reza o Deuteronômio, 15:9: “Guarda-te; não te deixes surpreender pelo pensamento ímpio no teu coração”. Isto é, presta atenção a ti mesmo, à tua totalidade (psíquico e físico); não atentes para uma coisa e não para outra (atenção sem escolha). E como faremos isso? Direcionando, pela vontade, a atenção para nosso interior (“O “eu” é o caminho, a verdade e a vida”; ‘ninguém vai ao Pai senão por mim’’(pelo eu)).

Devemos buscar, dentro de nós, o Sagrado. O “ego” impede a atenção ao interior porque ele é dispersivo, desatento; esse é seu mal, e essa desatenção deve ser destruída. Para isso, auto-conhecimento. Não se exige que sempre estejamos exercendo o auto-domínio, mas que percebamos em que condições morais e físicas (psicológicas e fisiológicas), nos achamos a “cada instante”; que percebamos o nosso estado de ilusão e o condicionamento que desse estado se origina.

...A idéia de Deus atuando no mundo, pelo Espírito Santo, uma suposição do pensamento religioso ocidental, era, primitivamente, um símbolo do jogo das duas forças divinas fundamentais atuando por toda parte e em tudo (yin e yang, como ensina o Taoísmo).

...Símbolo religioso é um sinal, representação, deixada por alguém, que teve maior compreensão, para comunicar sua experiência, em geral não traduzível em palavras, devido à sua compaixão pelos que não a experimentaram. O símbolo objetiva despertar em nós ecos daquela experiência e nos estimular à busca da verdade. Mas, erradamente, nos atrevemos a pensar que compreendemos a verdade do símbolo e criamos assim os males do dogma. As idéias, rituais, símbolos surgem a partir de uma grande experiência e são deixados como diretrizes para nossa orientação e para a “destruição do ego”, bem como forças para despertar nosso sentimento (e não emoções).

...Para impedir a degradação da energia dentro de nós, energia que possibilitará a experiência religiosa, exige-se crescente aumento da atenção, que é o que forma a alma em suas infinitas gradações, dentro de nós, como afirmava o cristianismo primitivo. “Por trás do que o mundo denomina “virtude” está o secreto desperdício das energias sagradas do homem; essa verdade jamais deve ser popular e aqueles que sabem devem ser cautelosos ao falar disso, para o bem de todos. Essa afirmação pode parecer, ao homem comum, destituída de moral; mas ela é a “única” base da verdadeira moral. O “maior inimigo” da experiência religiosa (da percepção de Deus) é o que o mundo ocidental chama “virtude” (pois que, não sendo espontânea, seu exercício resulta em perda da pura energia psíquica que, se acumulada, pode levar ao satori, à percepção de que estamos salvos desde sempre).

...Cada um deve ter capacidade de investigar por si mesmo, para não ser enganado pela história, pelos fatos, pelos outros (“não ponhas outra cabeça acima da tua”), isto é, cada um deve procurar sua própria experiência e não se satisfazer com a experiência alheia (esta, mesmo que seja experiência genuína, com o tempo, é popularizada e passa a ser interpretada e modificada para ficar compreensível ao homem comum).

...Eu acredito por causa das forças (divinas), e não acredito por causa das forças (divinas). Sou moral ou criminoso, bom ou mau, por causa das forças. Essa é a “lei”, a causa real daquilo que eu sou a cada instante, daquilo que me dirige (conforme escreveu São Paulo, nada escolhemos, “é o Senhor que opera em nós o pensar, o querer e o fazer”).

...Na doutrina cristã primitiva, tão importante era o valor da atenção que se afirmava que “nem mesmo Deus pode ajudar aquele que não tem nenhuma atenção”.

...O cristianismo, no correr dos tempos, foi tão desvirtuado pela Igreja que os pesquisadores fazem distinção entre cristandade e cristianismo (veja na obra “O Papa e o Concílio”, na introdução de Rui Barbosa). Cristandade é o mesmo cristianismo original, mas esfacelado pela ação da Igreja. O Ocidente só conhece o cristianismo esfacelado. O primitivo cristianismo buscava a Verdade como o misticismo a busca. Ensinava que os “momentos de presença”, isto é, de atenção, é que são importantes, e mostrava o abismo existente entre as idéias e conceitos (teoria) e a realidade, coisas que não são mais ensinadas porque se esqueceu a prática da contemplação. Hoje, o cristianismo ensina apenas “teorias”; estão esquecidas as “práticas” primitivas, que podem nos levar à “percepção de Deus”’.

...O cristianismo primitivo buscava o “esvaziamento” da mente do homem, que então seria preenchido como um ser feito à semelhança de Deus (o Zen, numa palavra: “esvazia-te”). O homem pode vir a saber que ele é nada menos que Deus, mas sem esse preenchimento não sentirá o tremendo impacto dessa verdade. Só o percebimento da verdade pode gerar compaixão pelo próximo e o real auto-conhecimento. Mesmo os que amam a justiça, mas não têm experiência das forças divinas que atuam em nós, jamais produzirão algo a não ser mais violência e ódio.

...O homem, que não teve experiência da verdade, é escravo da emoção e da imaginação (ilusões), influências que dominam sua vida e que, no primitivo cristianismo, eram denominadas “demônios”; essas influências é que são os verdadeiros demônios, pois que impedem a percepção da divindade (como ensina o Zen, é o “filme emotivo-imaginativo” que nos tira toda atenção, e assim acaba com toda energia que poderia trazer o despontar do satori, ou iluminação).

...Despertar a “emoção espiritual” (sentimento) deve ser o trabalho da religião, o que se realiza pela renúncia do apego aos resultados do espírito (desapego aos frutos da ação; indiferença, como diz K.; e o Zen: se a “coisa” vem, tudo bem; se não vem, tudo bem, também).

...A oração do cristão de hoje não tem qualquer efeito; não chega a Deus. Nela não há qualquer ressonância ou poder. Mas, isso pode ser modificado. Podemos aprender com o budismo que ensina que primeiro temos de buscar nossa libertação (Jesus: “Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus que o demais vos virá por acréscimo” e “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará”) e, só depois, trabalhar para a libertação dos demais. Se não agirmos assim, não teremos a experiência necessária da verdade e poderemos estar cometendo erros e injustiças. Todos os que pregam o amor ao próximo, sem que tenham recebido esse amor pela experiência, lembrem-se de Isaias que disse: “Aquieta-te e sabe: eu sou Deus”, e Sócrates e Platão que ensinaram ser necessário estar “interiormente tranqüilo” para que possa surgir aquela força transformadora que em nós desperta inteligência, amor e compaixão. Ensinavam que se deve fazer cessar a “sensação do eu” (interferência do ego), todos os pensamentos e raciocínios a fim de atingir um “vazio” a partir do qual a “certeza que não tem nome” pode se revelar.

...Buscar a libertação é buscar contato com Deus, “em nós mesmos”. O homem deve buscar a sua libertação e, depois de liberto, saberá o que fazer e só fará o que for correto.

...As doutrinas cristãs necessitam de que as tradições orientais lhes tragam, cada vez mais, suas doutrinas, para que possamos ter elementos para a busca interior. Só após percebermos Deus em nós, estaremos habilitados a amar o próximo. Precisamos armazenar energia psíquica para deixarmos de ser dependentes de nossas emoções. Essa energia não pode surgir sem um esforço, consigo mesmo, de uma natureza especial (a auto-observação, de Gurdjeff, do Zen e de Osho, a observação sem escolha, de K.). Externamente, devemos agir como pessoas virtuosas; internamente, devemos estar sempre atentos e observar as minúcias de nossa tendência ao “pecado”, de nossa impossibilidade de corresponder a esses papéis exteriores (o “conhece-te a ti mesmo”).

...Devemos nos dedicar às leis da “ressonância”, o que só pode ser feito nos estados mentais mais tranqüilos, e essa é, precisamente, a “função da meditação”. Sentado, corpo tranqüilo e natural, relaxado e alerta, olhos fechados, o “mais presente possível”, seremos ajudados a construir uma ponte pela qual o Deus “artificial” (porque criado pela mente do homem) possa ser, pouco a pouco, substituído pelo Deus “Real”. A meditação nos ensina como sermos tranqüilos no meio de todos os movimentos e ruídos de nossa natureza interior. São palavras, hoje esquecidas, dos padres da primitiva Igreja cristã: “Meditação é a coisa mais importante que a humanidade tem a fazer”.

Ao fazer sua prática, “não” lute contra pensamentos intrusos ou ruídos. Feche os olhos e tente trazer a atenção para seu interior. Não se irrite e nem lute contra esses obstáculos. Aceite todos eles; “nem mesmo permaneça com o desejo de que eles cessem”. Isso é o melhor a fazer para ter sucesso.

”A Nuvem da Ignorância”, traduzida por Fr. William Johnston, afirma que a virtude da humildade só é perfeita quando tem origem na experiência de Deus; é imperfeita, falsa ou imitação, quando provém de outra fonte (como dos mandamentos e ética das diferentes igrejas etc.). Ser virtuoso e humilde, amar o próximo, porque a doutrina “manda”, é absurdo. Mas, aquele que percebeu e sentiu o que realmente é, não tem nenhuma dificuldade para ser humilde, porque duas coisas se lhe tornam claras: primeiro: a degradação, fragilidade e miséria da condição humana (resultantes da ignorância; ou do pecado original, como diz a Igreja); devido a esse pecado, o homem nunca será totalmente livre na vida, não importa o quão santo se torne; segundo: reconheceria o “amor além de todo amor” que Deus tem para com os homens pois, às vezes, os mais adiantados na oração contemplativa (meditação) receberão uma graça tão grande, que se sentirão “arrebatados” de si mesmos (fora de si mesmos; como Paulo, Teresa e iluminados) e nem cuidarão (não lhes importará, então) se são santos ou pecadores.

Mesmo que todos os anjos e santos do céu, e todos os religiosos do mundo, orem para o crescimento da humildade de alguém, isso de nada adiantará, pois é inteiramente impossível chegar à perfeita humildade (ou a “qualquer” outra virtude) sem ter a experiência de Deus. Portanto, nunca fuja do trabalho que a aquisição do verdadeiro autoconhecimento exige, pois, quando o tiver adquirido, terá conhecimento do amor de Deus baseado em experiência real, certeza que nada poderá afastar de sua mente (Jung e iluminados, afirmaram o mesmo).

...Em todas as situações e momentos, procure experimentar em você mesmo, não só a Eterna Presença, mas seu ego condicionado, repleto de interpretações equivocadas do mundo (pela falta de auto-conhecimento). É um trabalho difícil porque, quase sempre, o experimentador está “ausente”, imaginando, devaneando, sonhando, pensando, lembrando. É necessária uma “atenção total”; só essa atenção traz a “presença total” do experimentador ao que faz no aqui-agora.

...Os estudiosos do cristianismo percebem hoje, e com razão, que o cristianismo católico recebeu dose excessiva de influência da forma de pensar grega e que, por isso, a teologia inclinou-se a classificar, conceituar, racionalizar, dividir, departamentalizar tudo, com efeitos nocivos à doutrina e perda de sua essência original. A própria teologia cristã se envolveu nisso, deixando para segundo plano a oração contemplativa (meditação). Outro fator dessa decadência foi o apego, sem limites, da igreja romana ao poder temporal.

...O cristianismo foi sempre incapaz de abrir-se a outras culturas. Grandes missionários, como RN, na Índia e MR, na China, onde estiveram para promover diálogo sério com as tradições orientais, foram, lamentavelmente, condenados ao silêncio pela Igreja. A incapacidade do cristianismo de reconhecer e receber a sabedoria dos chineses e dos hinduístas constitui um episódio de conseqüências trágicas na sua história. As doutrinas cristãs devem buscar o conhecimento das culturas orientais, fato que lhes será muito importante e enriquecedor (muitos monges, padres e fiéis já estudam o zen e o hinduísmo e praticam suas técnicas de meditação).

Grandes missionários (Thomas Merton, William Johnston e outros) afirmaram que o primitivo cristianismo ensinava as mesmas verdades das tradições orientais. Johnston, em “O Zen Cristão”, afirma a necessidade que existe, entre nós, cristãos, de métodos de oração que envolvam postura física, respiração, atenção e cessação das associações automáticas (condicionadas) do pensamento. (Isso nada mais é que meditação). No Japão, afirma ele, número crescente de cristãos está descobrindo o Zen e reaprendendo a orar pois, o fato lamentável é que muitos monges e freiras católicos estão, todos os dias, ensinando todo tipo de coisas, de literatura a matemática, mas não sabem ensinar a “orar”. A civilização ocidental tornou-se desequilibrada a tal ponto que os homens sérios não percebem a diferença entre um homem e um computador (como disse o sábio persa: a cultura ocidental é prostituta). Quando isso acontece, a possibilidade contemplativa existente em cada homem definha, e eles fazem coisas loucas. Isso está ocorrendo, até mesmo, entre monges e freiras. São pessoas cuja vida devia prepará-las para a “iluminação”. No entanto, elas sentem que nada tem sentido, a menos que estejam se movimentando, o tempo todo, de um lado para outro, fazendo toda sorte de coisas como se as fizessem em nome da caridade pregada pela fé cristã.

Em “Catolicismo Zen”, D. Graham, prior de mosteiro beneditino na Inglaterra, aponta os aspectos mais importantes da prática e da doutrina do Zen que o cristianismo ocidental precisa, desesperadamente, incorporar a fim de redescobrir aquilo de essencial que foi perdido. Em especial, ressalta a importância da “atenção”, isto é, o ato de “levar a mente a estar em relação com tudo com que se depara”. Diz: “Não se exige uma concentração intensa, de testa franzida, mas, ao contrário, um despertar da mente sem fixá-la “em nada”, “a quietude da pura atenção” (Krishnamurti e as tradições orientais: a observação atenta e sem escolha). “É preciso aprender que, simplesmente olhar as coisas como elas são, com mera atenção, pode ser um ato religioso. Assim, estaremos habilitados a perceber a criação de Deus tal qual é, com nossas mentes livres das emoções egoísticas e, logo, mais conscientes do próprio Deus”. Segundo ele, o futuro do cristianismo pode depender da revisão de suas doutrinas básicas à luz das percepções místicas do Oriente. Afirma que o grande erro cometido pelo cristianismo do séc. I, talvez a “maior tragédia de sua história”, pelas graves conseqüências, foi um conservadorismo excessivamente preocupado e incapaz de assimilar doutrinas “estranhas”. “Talvez devêssemos questionar se a Igreja, em todos estes séculos, não esteve demasiadamente preocupada com a religião “em torno” de Jesus e muito pouco com a religião “de” Jesus. ’ (a Igreja quase que só ensina sobre a vida de Jesus e não sobre aquilo que Jesus ensinou).

...No budismo mahayana, ensina-se que o estado iluminado de Buda, o grau supremo de sabedoria e compaixão, é acessível a todos; todos somos desde sempre Budas. Nas doutrinas cristãs, contudo, desde o nascimento podemos ser pecadores e só seremos salvos pela graça divina e se formos virtuosos. Essa diferença é que, hoje, está levando muitos ocidentais para as práticas místicas orientais, atração que é reforçada pela sua coerência com as descobertas da física moderna (quântica) e com a nova psicologia transpessoal.

...Hoje, por toda a América, vemos cristãos de muitas seitas introduzindo em suas práticas espirituais a meditação Zen. Buscadores sérios, monges e padres, estão praticando a disciplina da ‘atenção’ dos ensinamentos budistas. Um deles, H.Cox, diz: “Pela minha experiência pessoal com a meditação Zen aprendi que, ao contrário de me tornar alienado da participação ativa no mundo, como muitos pensam e afirmam, ela me permite pensar e agir de modo mais decisivo, mais participativo, ver pessoas e eventos de modo mais nítido, sofrer menos frustrações. Convenci-me de que a meditação Zen é perfeitamente “compatível com a fé cristã” e que será sempre uma parte de minhas práticas. Ela deve ser o equivalente moderno de algo que perdemos da tradição cristã, a idéia de um sabat ou tempo prescrito para parar, não fazer nada, permitir seja o que for...” (não fazer nada, deixar que venha o que vier, a escolha não é nossa, fechar os olhos e parar de pensar).

Insiste Dom Graham que o cristão precisa buscar alcançar uma qualidade de consciência transformada, “a consciência de Cristo”, como o budista busca alcançar a consciência de Buda. Diz que, nas epístolas de Paulo e no quarto Evangelho, está mais do que sugerido que é isso o que todo cristão deve fazer, mas isso foi esquecido pelas doutrinas cristãs.

...Será que aos cristãos é vedado receber outros ensinamentos senão os relacionados ao cristianismo “regional”? A realização em nós da “consciência de Cristo” pode muito bem exigir profundo questionamento dos ensinamentos do cristianismo de hoje. As orações, hoje, quase que somente se resumem em “pedir” a Deus o que queremos que ele faça para nós ou para outras pessoas, ou que ele faça com que outras pessoas procedam, ou que os acontecimentos ocorram, do modo como “nós queremos”. (As doutrinas se esqueceram que as orações nunca tiveram essa finalidade; que são tão somente meios de nos aproximarmos de Deus, e que, quanto mais próximos dele, mais distantes nós estamos daquelas necessidades e maior compreensão temos em relação aos acontecimentos da vida. Como no poema Zen: “Se você ainda não esteve lá, muitos pesares terá; mas, uma vez lá, como parecem sem importância todas as coisas” (“lá” significando Deus). (K: “Com o percebimento, vê-se que todas as coisas pelas quais os homens sofrem, lutam, matam e morrem, são fúteis e infantis”, e Jesus: “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus; o demais vos será dado por acréscimo”).

...Thomas Merton, monge trapista, dedicado à pesquisa e estudo do misticismo, afirmou claramente em seus escritos, que o Zen tem papel decisivo a desempenhar no Ocidente. Que a chamada renovação cristã mostra que os cristãos de hoje estão abertos às tradições asiáticas, prontos, nas palavras do Vaticano II, a “reconhecer, preservar e promover os bens espirituais e morais” encontrados nelas (parece que a meta principal, que é a união com Deus, continua ainda esquecida pela Igreja). Mas Merton acha que isso será muito difícil em face das poderosas tendências seculares e “anti-misticismo” que lutam ativamente contra a restauração do cristianismo primitivo nas doutrinas ocidentais (provavelmente, porque, não necessitando o cristianismo contemplativo de intermediários, os fiéis esvaziassem as igrejas?).

Para ele, o Zen é a “única saída” para o Ocidente, pois não exige qualquer disputa doutrinária e é, também, totalmente inclassificável em termos religiosos, morais ou filosóficos ocidentais. “O verdadeiro caminho do budismo é no sentido de uma iluminação que leva a uma visão além dos sistemas, estruturas culturais e sociais, além de todo ritual e crença religiosa. O Zen nos leva ao “puro ato de ver” (ver sem interferência do ego), a pura consciência. E é este o “verdadeiro objetivo” da meditação e da contemplação, que levam à salvação em Cristo. A meditação, acima de todas a do Zen, não procura explicar nada; apenas enfatiza o prestar “atenção”, o tornar-se “consciente”, o estar “atento”, isto é, desenvolver determinado tipo de consciência que está “acima e além da ilusão” das fórmulas verbais (da oração discursiva) ou da excitação emocional. Se nos abrirmos às tradições místicas do Oriente, teremos oportunidade extraordinária de aprender mais sobre o potencial de nossa própria tradição, porque as tradições asiáticas se aprofundaram muito mais do que nós em suas práticas”.

...O que falta, hoje, nas doutrinas cristãs, é a experiência mística, a experiência “direta” de Deus; falta o conhecimento de que se pode passar, da teoria e doutrina, para a percepção “direta” daquilo que a doutrina fala. (Benoit: “Devemos deixar de falar e ler a respeito da experiência mística e passar às tentativas de experimentá-la”). O misticismo (e a meditação) resulta da investigação interior, do auto-conhecimento e das tentativas (perseverança). O amor pelo próximo, as virtudes, a fé verdadeira (convicção), a sabedoria e a compaixão, são “resultados” da meditação, sem a qual essas qualidades não existem (serão forçadas).

...O sentimento geral, talvez inconsciente, de milhões de pessoas, é que o cristianismo, simplesmente não tem poder para realizar qualquer mudança nos indivíduos. Ele, como é hoje, não produz qualquer resultado, quer no indivíduo, quer no mundo. A associação equivocada da Igreja de hoje com correntes políticas, econômicas e sociais, disfarça essa terrível lacuna (vazio) das práticas religiosas cristãs.

...Questão relevante é a necessidade de ‘acumulação interior de energia que resulta da atenção’, energia que pode levar ao “satori”, à iluminação, verdades que as doutrinas de hoje não mais ensinam, talvez porque tenham se esquecido.

...Merton e Suzuki equiparam a expressão “pureza de coração” (mente ou coração sem mácula, descontaminado, limpo), dos Padres primitivos, ao “vazio” (no qual não há impurezas) do Zen. “Ambos referem um certo estado de consciência no qual o homem está livre (cessam) de pensamentos e desejos, de todas as imagens e associações que perturbam e ocupam a mente, trazendo uma condição favorável à mais elevada experiência, que rejeita até as idéias mais ‘puras e espirituais’ e não admite nenhum conceito” (é a meditação). A “pureza de coração” põe o homem num estado de unidade e vazio, o qual Deus pode vir a preencher.

...Gurdjieff (como muitos sacerdotes cristãos) afirma que é extremamente difícil encontrar, no mundo, um verdadeiro cristão. E pergunta: “Pode alguém amar seu próximo por mandamento? Isso é impossível, mas é o que manda o cristianismo. É necessário amar, mas primeiro devemos ser capazes, capacidade que nos é dada pelas práticas da religião. Infelizmente, com o tempo, a Igreja adotou o amar sem a capacidade de fazê-lo porque foram esquecidas as “práticas” que devem preceder o amar. Assim, é ingênuo, desonesto e insensato usar o nome de cristão”. A capacidade de amar é resultado da percepção de Deus. O que, hoje, denominamos amor não passa de “apego”, qualidade egoísta.

...A característica fundamental do cristianismo, que foi esquecida, é esse movimento interior que torna possível o contato do homem com Deus. Para Merton e importantes pesquisadores, a conseqüência dessa busca do que se perdeu pode vir a determinar o futuro da tradição cristã, hoje enfraquecida em todos os lugares; e mais ainda: desse resultado pode depender a própria vida do homem no planeta. Não se busca uma nova teologia, ou o retorno aos rituais, nem a ampliação da doutrina, ou sua adaptação aos problemas da vida moderna, mas algo mais essencial e importante do que tudo isso. Aos pesquisadores ficou claro que, no correr dos tempos, o que se perdeu foi o ensinamento sobre os “elevados estados de consciência” (alcançados pela meditação). No cristianismo de hoje, não é mais possível conhecer a doutrina que ensina o processo do despertar, nem conhecer os resultados desse despertar; é ainda menos possível ver a distância que separa o estado de consciência, do homem comum, dos elevados estados de “presença”, os quais as tradições orientais admitem ser características naturais de todo ser humano, enquanto a crença generalizada entre nós, ocidentais, é a de que tais condições somente ocorreram no passado e apenas a poucos escolhidos (os “santos”).

Assim, antes de falarmos desses extraordinários poderes e dons, termos cristãos tradicionais, ligados à espiritualidade superiormente desenvolvida nos “aperfeiçoados”, temos de falar de liberdade de escolha, compaixão e inteligência radical, não como características inatas do ser humano, mas como “resultados do despertar”. Somos homens “sub-naturais” (Maharesh: sub-humanos), mesmo que “feitos à imagem de Deus”. Mas, não esqueçamos que “antes da Queda, Adão tinha a capacidade de não pecar” (significa isso que foi a Queda, geradora do dualismo “eu/não-eu”, “bem/mal” (comeram da árvore da vida, adquiriram vida, conhecimento do bem e do mal) que introduziu o ser humano na “ilusão” do pecado. Antes disso, estava o homem, unido a Deus (somos todos Um). Isto é, tudo era Um só. Segundo o misticismo e a moderna física, é esse o significado da alegoria).

...Thomas Keating, abade do mosteiro de São José, Massachusetts, EU, em conferência aos monges, fez uma análise histórica de como o cristianismo ocidental perdeu o método e o significado da oração contemplativa e de que, por isso, sua “verdade não pode mais penetrar, hoje, na vida dos homens”. Afirmou que a Bíblia, no texto grego, usa o termo “gnosis”, “uma espécie de conhecimento extremamente íntimo, que abrange não apenas o intelecto, mas o homem total” (é essa a afirmação dos iluminados). “Gnosis”, em hebraico, significa onisciência divina, uma sabedoria que envolve, vive e opera em todas as esferas do universo. No homem, imagem de Deus, esse saber é uma qualidade que inunda e harmoniza totalmente a natureza humana, baseada numa compreensão do ser humano como uma mente multifacetada (de muitas faces) da qual, a mente individual ordinária que conhecemos, é apenas um diminuto aspecto (assim, a mente que temos tem múltiplos aspectos inexplorados, afirmação idêntica à dos grandes psicólogos e cientistas modernos e dos iluminados).

Isso diz respeito diretamente às tradições orientais, ainda mal compreendidas por nós, ocidentais. Assim como gnosis tem sido erradamente identificada com objetos incomuns dos processos mentais ordinários (comuns), em vez de com uma qualidade “nova e superior” de auto-conhecimento, do mesmo modo, na tradição metafísica ocidental, as realidades superiores têm sido erradamente identificadas como coisas inexistentes ou “extraordinárias”, crendices e, por vezes, produto de patologia. A gnosis representa, no homem, o conhecimento que harmoniza a consciência, e resultante do desenvolvimento de uma nova atenção (que pode produzir elevados estados de consciência).

...O conhecimento superior só surge através do amor que Deus dirige aos homens. O desenvolvimento superior possível ao homem, como o da capacidade de perceber o Sagrado, está subordinado ao bem supremo, isto é, à união do homem com Deus (Meister Eckart). Para isso, é necessária a redescoberta, não da emoção, que é considerada obstáculo para essa redescoberta, mas da técnica que “amplia” a consciência (meditação). Porém, no correr da história, a Igreja cristã colocou mais ênfase na salvação humana, esquecendo de ensinar os meios pelos quais essa meta pode ser alcançada. Por quase dois mil anos, a Igreja foi, para nós ocidentais, um centro de esperança, mas, ao mesmo tempo, “criou imensa confusão psicológica” ao exigir, dos homens, pureza de intenção, isto é, que se amassem uns aos outros, sem o indispensável conhecimento daquilo que permitiria tal pureza. Essa pureza não poderia ser exigida, já que não existia método para o desenvolvimento interior, perdido no tempo. E é impossível saber quanto da hipocrisia religiosa e do sofrimento desnecessário dos cristãos e povos de outras culturas deste nosso mundo, se deve a essa tremenda falha das doutrinas cristãs.

...A própria palavra contemplação significava, primitivamente, um “conhecimento (ou percepção) de Deus impregnado de amor”, sentido que permaneceu até fins da Idade Média. A prática cristã para o trabalho interior, que poderia resultar na experiência de Deus, era “um exercício de ouvir”. A oração consistia na “leitura divina”, um exercício de atenção de ouvir não só com o ouvido físico, mas com o coração, com todo o ser, numa tentativa de ouvir em níveis cada vez mais profundos. Após a Idade Média, com a fundação das grandes escolas de teologia, deu-se muita ênfase à faculdade de analisar, organizar e classificar, tendência que se aplicou também à vida espiritual e à oração. Aquela leitura divina desvirtuou-se e perdeu importância.

No séc. XVI, acontecimentos históricos e culturais motivaram uma decadência geral nos costumes e na espiritualidade. Em vista disso, a oração começou a ser utilizada como “meio de formação moral” e não mais como, originalmente, “meio de busca de Deus”. Cada método tinha seus fins próprios e diferentes. O conhecimento contemplativo de Deus não se ajustava à divisão aprovada e foi deslocado para segundo plano, o que constituiu “verdadeiro desastre para a doutrina cristã tradicional”. A mensagem de Keating era que a perda do significado e da prática da oração contemplativa impedia que os cristãos tivessem a experiência “direta” de Deus. A experiência mística e o misticismo tornaram-se profanos e suspeitos aos olhos da igreja cristã.

Na Renascença, com os pagãos “tomando conta da cristandade”, pareceu necessário “reconquistar os homens para Cristo”, resultando disso que a ação “exterior”, em vez de a experiência “interior”, se tornasse o fator dominante da vida religiosa do Ocidente. A religião cristã passou a ser empregada quase exclusivamente a serviço da “ação cristã”: o objetivo passou a ser “servir a Deus” em vez de ser “sentir o gosto de Deus”. Todas as formas de misticismo foram levadas a grande descrédito e “marginalizadas”. E mais: desde a Reforma Protestante, a Igreja Católica se colocou claramente “contra a experiência espiritual individual” (porque, a experiência individual concorrera para o surgimento do cisma). A oração contemplativa foi, assim, completamente esquecida (fato que perdura até hoje), daí resultando “trágicas” conseqüências para o mundo ocidental, o nosso mundo cristão.

...A influência na fé católica do bispo francês, Jansênio, nos últimos três séculos, foi enorme. Ele afirmava ser total a corrupção e impotência do homem pós-adâmico: incapaz de amar a Deus, estava de tal modo sob o domínio do pecado que nada, em sua vida interior ou exterior, era bom, e que somente a graça divina, que “não era assegurada a todos”, poderia salvá-lo. Essa visão pessimista foi levada pelos emigrantes franceses, durante a Revolução Francesa, aos países de língua inglesa, inclusive Irlanda e Estados Unidos, com a vinda de muitos religiosos e padres franceses e irlandeses para esses países. Depois, ao resto do mundo ocidental. A visão era totalmente contrária à do Zen (e de Paulo), que afirma que não há do que nos salvarmos, que todos somos já da natureza de Buda. O cristianismo esqueceu-se de que, conforme afirma a Sagrada Escritura, o homem é “feito à imagem e semelhança de Deus” e que “o Altíssimo habita em nós”.

...O poder secular (mundano) do cristianismo (católico) crescera muito desde que se transformou na “religião do Estado”. Durante quase dois mil anos, envolveu-se com todos os eventos sociais, políticos, econômicos e culturais, de quase todo o mundo, de tal modo que, hoje, quando se fala “cristianismo”, imaginamos que a essência de sua doutrina ainda está viva e intacta, que é a mesma que sempre foi, desde os tempos dos primitivos cristãos (isto é, que não sofreu modificações para se acomodar à conveniência de muitos, dos tempos, dos interesses da Igreja etc., em todos esses séculos de nascimento e morte de tantas nações, tantas guerras, violência, exploração da vida humana, mudanças culturais, ideológicas e filosóficas, movimentos de povos e raças pela superfície do globo). Conhecer, por pouco que seja, a história “insana” da raça humana e as tortuosidades e complicações da psique do homem, bem como aquilo em que se transformou a doutrina cristã, implica numa “total descrença na possibilidade de que possa existir, hoje, alguém que consiga encontrar Deus pelo caminho do cristianismo”.

...O Mosteiro de São José ensina a “oração centralizadora”, comparável ao método descrito em “A Nuvem do Desconhecimento”. Conforme o abade, é uma oração “não conceptual” (sem palavras, sem conceitos), equiparada à oração primitiva dos grandes mestres da tradição cristã, e que sacerdotes e religiosos mais velhos têm enorme dificuldade em assimilar por estarem muito condicionados ao tipo de oração discursiva de hoje. Mas, não tão condicionados, os jovens podem apreender e praticar. O abade fez referência à Meditação Transcendental, de Maharish Mahresh Yogi, que serviu de estímulo para a oração centralizadora, e ao fato comprovado de como essa técnica, muito rapidamente, dá às pessoas uma experiência profunda.

...Evagrius Ponticus, mestre espiritual, séc. IV, condenado pela Igreja como herético, enfatizava a enorme diferença entre emoção e sentimento, esclarecendo acerca do erro da Igreja cristã a respeito da emoção. Nessa diferença, a palavra chave é “apatheia”, traduzida pelo termo “apatia”, mas cujo significado está tão distante do desta palavra quanto diamantes de vidros partidos. Apatheia significa, literalmente, “livre de emoções”, e é, está sendo reconhecido, hoje, “ponto decisivo” no caminho espiritual cristão (noutras tradições, “indiferença”). A atual avidez de “experiências” esconde, talvez inconscientemente, uma busca de emoções comuns (adrenalina), busca tão incentivada, hoje, pelos meios de comunicação em geral e condicionadora do comportamento dos homens. A apatheia é a entrada para a contemplação, a entrada para a “suprema beatitude”. Será possível que, para “não lançar pérolas aos porcos”, as mais importantes lições do cristianismo primitivo foram tão bem “ocultadas” que se perderam, para nós?

Os escritos de Evagrius são considerados caminhos para a luta interior cujo objetivo é libertar o homem dos “sofrimentos e ilusões que as emoções causam” (Buda: a iluminação é o fim de todos os sofrimentos). As emoções e pensamentos, que dão origem a esses sofrimentos, receberam muitas vezes o nome de “demônios”, ou “pecados”, termos que sugerem que o homem, sem uma ajuda “transcendental”l, não pode dominar o fluir das emoções em seu próprio interior, do mesmo modo que não pode controlar o movimento da Terra e os eventos naturais, todos causados pelas duas forças divinas (yin/ yang) que “condicionam todos” os acontecimentos. Evagrius lista os tipos de pensamentos (demônios) ‘malignos’ (hoje chamados pela Igreja de ‘pecados’): gula, luxúria, ira, avareza, preguiça, vanglória e orgulho. Chamando-os “pensamentos”, ele se referia a elemento extremamente importante da doutrina cristã primitiva relativo às emoções, hoje completamente esquecido, elemento que revela por que as emoções têm sobre nós tanto poder negativo. Em resumo, seus escritos mostram que só quando lhes damos energia psíquica definida, pensando e imaginando sobre esses pensamentos, associações e impulsos, que de início não são ainda emoções, é que eles adquirem a natureza da emoção, a paixão, e assumem o poder “incontrolável” que têm em nossa vida interior e exterior (e trazem dissipação de energia psíquica, como ensina o Zen). Depois que um pensamento se transformou numa emoção, é impossível destruí-lo; pode-se até mascará-lo com outro sentimento, dar-lhe hipocritamente outro nome ou tentar deixar de tomar conhecimento dele e de seus efeitos. São alternativas inúteis que todos conhecemos em nossa relação cultural com as emoções, inclusive a identificação de certas emoções com o “inconsciente’, segundo a moderna psicologia. “Devido a esse esquecimento (da prática da oração de contemplação e da indiferença que o homem deve ter em face dos eventos da vida), toda a civilização ocidental está, verdadeira e inexoravelmente, se chocando contra um muro sem conseguir dar um passo na direção de Deus”. Isto é, não consegue dar um passo à frente na sua luta pela salvação (por isso, indiferença, e nunca emoção; as coisas sempre acontecem como têm de acontecer; não adiante reclamar ou pedir).

...Esquecidas as práticas primitivas, os fiéis estão sendo levados a crer que a experiência “direta” de Deus é acontecimento raro, reservado a poucos privilegiados (os escolhidos). É como se o cristão, faminto, economizasse com extremo cuidado um pedaço de pão, sem saber que, na sala ao lado, o espera um banquete com todas as melhores iguarias. É só abrir a porta... “Lamentável”, diz Pe. M., “é que, assim, muitos cristãos não sabem que a doutrina cristã pode proporcionar uma experiência de Deus igual à do misticismo oriental. Nesse sentido, a doutrina cristã, e os cristãos têm sido enorme fracasso. O objetivo, hoje, é corrigir essa falha por meio de uma técnica simples que qualquer pessoa pode utilizar e que pode provocar uma experiência, um primeiro prato do suntuoso banquete oferecido por Deus’.

A experiência de Deus é para “todos” e não só para os “santos”, e a oração centralizadora (Teresa de Ávila: oração de recolhimento e de quietude) é “um modo de se predispor para a oração contemplativa” (para a percepção). João da Cruz e Tereza de Ávila e, antes deles, “A Nuvem do Desconhecimento”, ensinaram a tradição a que muitos estão, agora, recorrendo. E a Igreja cristã poderia receber auxílio das tradições orientais. A oração centralizadora é prática semelhante à da Meditação Transcendental e seu objetivo é alcançar aquilo que está “além do ego”, além do que entendemos por ética (afirma o Zen que, antes da experiência com Deus, toda ética é forçada e prematura).

...O autor diz que o cristianismo, em suas buscas atuais, está procurando algo “para ele mais importante” que a experiência de Deus: a experiência de um “aperfeiçoamento individual”; mais facilmente distorcido que o conhecimento de Deus: o conhecimento do esforço de cada um se aperfeiçoar; mais necessário do que o poder de ouvir Deus: o poder de ouvir a ‘mim mesmo’, pela intuição ou inspiração. E, com isso, a experiência de Deus é esquecida.

...A respeito do intercâmbio com as tradições orientais, diz o Pe. O’Hanlon: “Não seria surpresa se o resultado desse diálogo, que se inicia com seriedade nunca vista antes, se torne no desenvolvimento religioso mais importante dos séculos futuros”. (nada disso está acontecendo).

...Inácio de Loiola, fundador da Ordem dos Jesuítas diz: “Não está em nosso poder adquirir e alcançar uma grande devoção, um amor intenso, lágrimas, ou qualquer outro consolo espiritual, pois tudo isso é dom e graça de Deus” (isto é, nada escolhemos; tudo vem de Deus, e a meditação é a porta para a percepção disso).

Então, o que deve fazer o homem para se libertar? O Zen, da escola Soto, diz: “Não faça nada; apenas sente-se e livre-se da ação da mente!”; o Zen, da escola Rinzai, diz: “Busque a iluminação!” Ambos estão certos; quando não fazemos nada (nem mesmo pensamos), estamos fazendo que a mente se esvazie e que, assim, possa “surgir” a meditação, o satori, a iluminação. Para esvaziar a mente precisamos aprender a estar “atentos e relaxados” ao mesmo tempo, e acabamos percebendo que estar atento e relaxar são a mesma coisa (Mahresh).

...O auto-conhecimento coloca-nos frente a frente com nossas fraquezas, apegos, ilusões e interpretações erradas. A indiferença implica em não-apego, em não ser mais dominado pelos desejos. Algo tem de ser despertado no homem, algo totalmente ‘além’ do ego. Aquilo que está entre o homem e Deus, o “intermediário” (a própria mente), deve estar livre das experiências e associações comuns da memória, do pensamento, imaginação e emoção. Esse algo não é a inteligência, nem a razão, mas, sem esse algo (a destruição do ego), a moral, a ética, o amor, a convicção (não a crença), simplesmente não podem existir no homem.

Nesse “intermediário” estão consciência, abertura, sentimento e, acima de tudo, presença ou atenção. Abrir-se é pureza de intenção, é entregar-se. Como disse São Simeão, o teólogo: “Aquele que não tem atenção em si mesmo não pode ver Deus. Ele não pode ser pobre de espírito, nem contrito ou misericordioso, nem dócil e manso, nem trazer paz, ou padecer perseguição pela justiça” (palavras do Sermão da Montanha). (Gurdjeff e Krishnamurti ensinaram a observação de si, o auto-conhecimento; Sócrates: “Conhece-te a ti mesmo e serás Deus”).

...As virtudes cristãs familiares, que metade do mundo procura viver, ‘exigem’ o desenvolvimento de uma qualidade de consciência muito difícil de adquirir: “atenção”. As virtudes são impossíveis sem atenção. (Tereza de Ávila: “atenção, atenção, atenção!”). Sem atenção não há nem mesmo “pecado mortal”, que só se aplica ao indivíduo relativamente desenvolvido, consciente do que faz. O mundo da atenção é o mundo da alma humana.

...São Simeão fala sobre os três modos de oração:

O primeiro: “Um homem está orando e, elevando as mãos, os olhos e o coração para Deus, “mantém” na mente “pensamentos” divinos; “imagina” bem-aventuranças celestiais, hierarquias de anjos e moradas de santos; reúne na “memória tudo que aprendeu nas Escrituras e “reflete” em tudo isso enquanto ora, contemplando o céu e “incitando” a alma a desejar e a amar a Deus, às vezes até derramando lágrimas e se lastimando...”

Com esse modo ele pode vir a perder a razão ou cometer suicídio, mas nada lhe resultará dessa oração; permanecerá a vida toda sem dar um passo em direção a Deus. Esse método só leva à divagação ou “extravio (seu erro: usa o ego, pensa, imagina, usa memória, reflete,... obstáculos à percepção do sagrado; “se o ego é, Deus não é!”).

O segundo: “Um homem “afasta” sua consciência de todos os objetos exteriores e “volta-a” para dentro de si mesmo, “controlando” os sentidos, os pensamentos e a imaginação para que não vagueiem por entre as vaidades do mundo; ora, “analisa” os pensamentos elevados; ora, “reflete” nas orações que “mentalmente” pronuncia; ora, afasta-se dos pensamentos se, influenciados pelo demônio (pelas paixões), eles se voltam na direção de algo vão e mau; ora, com grande “esforço”, tenta retornar a si mesmo, depois de ter sido apanhado e vencido por alguma paixão.

Este método também é inútil, porque ele se dá na mente (e a mente é o ego), pensamento lutando contra pensamento; nessa luta consigo mesmo, o homem não pode estar em paz consigo mesmo; é como alguém lutando, no escuro, contra inimigos; ouve suas vozes, sente seus golpes, mas não vê claramente quem são eles, nem porque o atacam. O método não leva um passo à frente (ainda os mesmos erros; o ego está ainda totalmente presente).

O terceiro não é a contemplação do céu, nem elevação das mãos a Deus, nem a colocação da mente nas coisas celestiais etc. É manter “abertura” (entregar-se) a Deus, consciência pura no relacionamento com os demais e com as coisas da vida (indiferença). Este método consiste em pôr toda atenção no coração e a perseverar, “sem palavras nem conceitos”. É a primitiva “oração de recolhimento” (dos sentidos, da memória, da imaginação) que resulta, se bem feita, na “oração de quietude”, que traz silêncio para a mente. (são orações ensinadas por Teresa de Ávila; meditação). “Sem elas os cristãos nunca passarão das “alucinações da cristandade” para a percepção das coisas divinas”. Nesse método não há controle, nem esforço, lembrança ou imaginação, emoção ou pensamento.

...Mas, qual é o modo de atenção que pode ligar meu nível atual de consciência ao nível descrito na literatura mística de todas as tradições? É a “atenção sobre mim mesmo”, atenção para cada gesto e para cada reação, cada pensamento e cada observação (a observação de si, de Gurdjeff; o auto-conhecimento, de Krishnamurti e dos filósofos).

...A alma, “princípio intermediário” existente na natureza humana, está entre o homem e Deus. O que lhe traz poder é a atenção; o desenvolvimento da atenção é o próprio desenvolvimento da alma. A atenção surge espontaneamente pelo profundo “auto-questionamento”, mas desaparece com a tristeza, medo, tédio, supersatisfação, desilusões (talvez, por isso, Krishnamurti tenha recomendado indiferença e bom humor em qualquer situação).

...Os Padres do velho cristianismo praticavam a “auto-observação” e o “auto-questionamento”. “Questione sempre!” Pela auto-investigação total as forças do “bem e do mal” podem se encontrar e se “reconciliar” em nós (os opostos se equilibram se colocados lado a lado). Desejos, culpas, vergonha, fantasias, remorsos etc. são da mesma natureza e nascem no mesmo lugar onde nascem os pensamentos. Todos são igualmente pensamentos e são todos “falta de atenção”, “distrações” e, em conseqüência, desperdiçam a energia do Todo que flui continuamente em nós, e cujo acúmulo pode levar à iluminação.

...Na realidade, não precisamos “forçar” a destruição de nossos defeitos, nossas qualidades negativas, como as doutrinas cristãs recomendam, pois, asseguram os sábios iluminados e a moderna psicologia, os defeitos se equilibrarão com seus opostos, as virtudes, numa matemática que somente eles compreendem (Sagrada Doutrina, de Benoit; Espectro da Consciência, de Ken Wilber; Universo Autoconsciente, de Amit Goswami).

...A alma não é uma entidade fixa. É uma energia que nasce no ser humano toda vez que há desconforto ou contradição e o conseqüente auto-questionamento. Quanto mais energia na “alma”, mais energia estará acumulada para o surgir do satori, como diz o Zen. A maioria de nossas reações emocionais, agradáveis ou desagradáveis, só servem para disfarçar nossas experiências de contradição ou frustração e, por isso, dissipam a energia, e não chegamos a nada. Para impedir essa dissolução, o Zen ensina a “atenção a si mesmo”, em todos os instantes, até mesmo em meio às atividades “comuns” do dia-a-dia.

Foi um desastre para o cristianismo o momento em que ele adotou a noção equivocada de que a alma já existe dentro de cada um, desde o nascimento. Isso nos levou a acreditar que os pensamentos, emoções etc. são manifestações da alma e, em conseqüência, ao “esforço equivocado” de tentar “aperfeiçoar” nossa alma pelo aperfeiçoamento dos pensamentos e emoções (pela prática das virtudes impostas pelas religiões), isto é, ao “esforço inutil” de procurar melhorar os pensamentos e as reações. O cristianismo primitivo, ao contrário, diz que somos incapazes de modificar essas funções psicológicas pelo esforço. É o que, também, ensinam as tradições orientais. A mudança só pode vir de uma força superior, “além” do poder do ego. Então, a busca da felicidade que, numa forma ou noutra é, em última análise, o impulso principal que move toda a humanidade é, desse ponto de vista, particularmente para os cristãos, pouco mais do que o esforço inútil da mente para alterar suas emoções. Contudo, só a atenção (sem escolha; a meditação), tem a capacidade de alterar emoções e pensamentos.

...Do ponto de vista do cristianismo primitivo, o que se exige do homem é que amolde sua conduta exterior às normas já determinadas para ele (nós nada escolhemos); que não renuncie aos sonhos, mas que “não se esforce para ser virtuoso”, pois esse não é mais do que um objetivo “secundário, limitado e interesseiro”. O importante é que saibamos que as “grandes forças”, que mantêm a integridade do cosmos, produzem sempre resultados éticos, mesmo que, muitas vezes, nos pareçam antiéticos.

...Embora no budismo e hinduismo se afirme que o “ego é ilusório” e que o “homem é Deus”, ensina-se a necessidade de um “esforço interior” para se perceber essas verdades. Esse esforço é a “atenção” que pode resultar em meditação, ou seja, na experiência mística.

Mas, se já somos Deus, para que esse esforço? Pelo fato de que não temos ainda esse percebimento, e obtê-lo é o objetivo desse esforço.

...Enfim, no cristianismo primitivo, a “maior virtude” é a lembrança de si (atenção), e o “maior pecado” é o esquecimento de si (a distração).

...Os anjos, que a Igreja tanto retrata, são somente símbolos das experiências superiores, místicas, e do jubiloso prazer resultante delas, e não seres celestiais, guardiões dos homens, como a Igreja fez pensar.

...Meditação é aquilo que pode levar você ao nirvana (paraíso); nirvana, por sua vez, é a compreensão do sansara (‘ilusões’ da vida). A transformação do homem é fruto dessa compreensão, sempre vinda através da “perseverança na meditação”.

...A dispersão da energia da alma ocorre quando o homem não tem atenção em si mesmo. Logo, é evidente que a dispersão pode ser invertida se o homem dirigir para si mesmo a atenção que, sem necessidade e para prejuízo seu, dá aos pensamentos, emoções e sensações, o que resulta na deturpação de todo o organismo humano, a ponto de cair ao nível de um animal doente. Esse trabalho de inverter a dissolução da energia é a “base” de todo ascetismo religioso, e o ensinamento dessa verdade aos demais é a “autêntica moral religiosa” (o verdadeiro “amor ao próximo” que Jesus ensinou, sem que aí exista qualquer sinal de ajuda espiritual pelos benefícios desse amor). O ascetismo pode resultar no natural desenvolvimento da alma, que é o nascimento do “novo homem”. Mas o desenvolvimento da alma só se realiza quando o homem está vivenciando, ao mesmo tempo (como também afirma o Zen), todos os apetites, pensamentos e emoções do seu ego, de seu corpo psicossomático (por isso, nada de controle, nem domínio, nem virtude forçada).

...A idéia de dualismo impõe limites inaceitáveis ao poder de Deus. Se o Mal é real, implica a existência de algo que Deus não criou, caso em que Deus não é onipotente; ou, então, que Deus permite o Mal, caso em que não é misericordioso. Todo problema do bem e do mal, como tem sido visto através dos séculos, está contido nesse dilema. Além disso, o dualismo é, de modo evidente, contra a idéia da unidade da criação de Deus. Se Deus é o Todo, o Mal é parte de Deus, e é sua criação (como afirmam as tradições místicas e, hoje, a ciência mais avançada, o dualismo é “insustentável”. Isto é, não há duas coisas, como Deus e o universo; Deus e o mal; Deus e eu; tudo é Um).

...A fé cega (sem base) é perigosa. O intelecto, o raciocínio, não devem ser postos de lado (isto é, devemos questionar tudo aquilo que é apresentado como verdade), até que o ego compreenda e se interesse pela “própria destruição”, porque nem a emoção, nem a inteligência, nem o pensamento, nem a imaginação podem atingir o “desconhecido”, que está além do ego. Eles são distrações, obstáculos, e por isso devem ser destruídos. (Essa destruição nos abre a porta ao Sagrado, e só a meditação pode realizá-la).

...A única liberdade do homem (a escolha não é nossa) está em onde colocar sua atenção, quanto dela deve dedicar, no momento, ao mundo interior, e quanto, ao exterior. O exterior não é só o mundo dos objetos; é, também, nossos pensamentos, memórias, imaginações emoções, sensações ou reações de prazer ou desprazer, que canalizam nossas energias para fora, destruindo-as.

...O verdadeiro cristianismo está perdido. Onde ele se enquadra frente a guerras e ameaças de guerras, crises ecológicas, econômicas, políticas, injustiças, fome, doenças? Parece que até nos sentimos envergonhados de falar da busca e de religiões sérias enquanto ocorrem tantas crises, como se a busca de Deus fosse um comodismo, uma fuga aos problemas reais do mundo (a mesma coisa os psiquiatras e psicólogos ocidentais diziam das tradições asiáticas). E como a Igreja teve de enfrentar tais problemas em sua própria carne, pois se envolveu demais com os acontecimentos da vida profana, muitos cristãos vêem a idéia de crescimento interior com desdém e suspeita (porque a Igreja não a pregava e não a prega). Do mesmo modo que, ao homem, parece impossível resolver os problemas do mundo, parece impossível resolver o problema de si mesmo e das doutrinas, que se omitiram muito ao dar demasiada atenção à ação social e pouca atenção ao desenvolvimento da vida interior.

...De tudo que foi dito, fica evidente que o “objetivo maior” do cristianismo primitivo, objetivo que se perdeu com o esquecimento da oração de contemplação, era a “realização do reino de Deus no “interior” do homem”, por meio de práticas semelhantes àquelas do misticismo oriental, e que a “expressão máxima do amor cristão”, isto é, do amor ao próximo, era “transmitir o ensinamento” (colocar a luz sobre o velador), de modo a proporcionar o crescimento da alma nos demais seres humanos. Lembrem-se que Jesus aconselhou a “não colocar a “luz” sob o alqueire, mas sobre o velador, para que ilumine a todos”.

...Pensamentos e emoções, divagações e imagens mentais, só servem à degradação da energia psíquica. O elemento perdido em nossas vidas é essa força interior de atenção, que evita o surgimento de fatores degradantes, e que pode abrir-nos a porta para o descobrimento da verdade e, em seguida, levar-nos a orientar nossos semelhantes para que, também neles, possa agir essa força (Jesus: “Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará” e “... o mais vos será dado como acréscimo”).

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Obs.: Para conhecer mais sobre o que se perdeu do Cristianismo, leia “Os manuscritos do Mar Morto”, “Os manuscritos de Qunram”, “Os manuscritos de Jesus”.
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