domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sankara - a iluminação

“Na verdade”, dizem as escrituras, “O Atman é imortal”, mostrando assim que ele permanece indestrutível entre as coisas que mudam e perecem.

Pedras, árvores, relva, grãos, palha, roupa e todas as outras substâncias, quando queimadas, são reduzidas a cinza. O corpo, os sentidos, as forças vitais, a mente e todas as outras manifestações físicas, quando consumidas pelo fogo do conhecimento, tornam-se Brahman.

A escuridão se funde na luz do sol, o seu oposto. Do mesmo modo, este mundo aparente se funde em Brahman.

Quando se quebra o jarro, o éter que está dentro dele torna-se uno com o éter circundante. Quando os invólucros são destruídos, o conhecedor de Brahman toma-se Brahman.

Quando se despeja leite no leite, óleo no óleo, água na água, eles se misturam em absoluta unidade. Do mesmo modo, o vidente iluminado, o conhecedor do Atman, toma-se uno com o Atman.

Aquele que se libertou nesta vida alcança a libertação na morte e une-se eternamente com Brahman, a Realidade Absoluta. Esse vidente jamais renascerá.

Ele sabe que é uno com Brahman e consumiu os invólucros da ignorância no fogo desse conhecimento. Assim, ele se tomou Brahman. Como pode Brahman estar sujeito ao nascimento?

Analogamente, tanto a servidão como a libertação são invenções da nossa ignorância. Elas não existem realmente no Atman, tal como um pedaço de corda continua sendo corda, quer o confundamos ou não com uma cobra. A suposta cobra não existe realmente na corda.

As pessoas falam de servidão e libertação - referindo-se à presença ou à ausência do véu da ignorância. Mas, na realidade, Brahman não tem invólucro. Porque não existe outro senão Brahman - o primeiro sem um segundo. Se houvesse um invólucro, Brahman não seria único. As escrituras não admitem dualidade.

Servidão e libertação existem apenas na mente, mas o ignorante as atribui falsamente ao próprio Atman - da mesma forma que afirmam estar o sol escurecido quando ele está apenas coberto por uma nuvem. Mas Brahman, o primeiro sem um segundo, a realidade imutável, permanece independente. Ele é pura consciência.

Imaginar que o Atman pode ser escravizado ou libertado é falso. Tanto a servidão como a libertação são estados mentais. Nenhum deles pode ser atribuído a Brahman, a realidade eterna.

Por conseguinte, tanto a servidão como a libertação são ficções da ignorância. Elas não estão no Atman. O Atman é infinito, sem partes, está além da ação. É sereno, imaculado, puro. Como imaginar a dualidade em Brahman, que é inteiro como o éter, sem um segundo a realidade suprema?

Não existe nem nascimento nem morte, nem alma limitada ou excelsa, nem alma libertada ou em busca da libertação - esta é a verdade final e absoluta.

Revelei-te hoje o supremo mistério. Esta é a mais recôndita essência de todo o Vedanta, a jóia suprema de todas as escrituras. Considero-te o meu próprio filho - um verdadeiro aspirante à libertação. Estás purificado de todas as máculas desta época de trevas e tua mente está livre do desejo.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Um santo sufi - Martin Lings

Al-' Alawî: Um santo sufi do século XX

O Infinito ou o Mundo do Absoluto que concebemos como estando fora de nós é, ao contrário, universal e existe tanto dentro de nós como fora. Existe apenas Um Mundo, e este é Isto. Aquilo que concebemos como o mundo sensível, o mundo finito do tempo e do espaço, não é senão uma conglomeração de véus que escondem o Mundo Real. Estes véus são os nossos sentidos: os nossos olhos são os véus sobre a Verdadeira Vista, os nossos ouvidos são os véus sobre a Verdadeira Audição, e é assim também com os outros sentidos. Para nos tornarmos cientes da existência do Mundo Real, os véus dos sentidos devem ser removidos… e o que subsiste então do homem? Subsiste um ténue cintilar que lhe surge como a lucidez da sua consciência… Existe uma continuidade perfeita entre este cintilar e a Grande Luz do Mundo Infinito e, assim que esta continuidade for apreendida, a nossa consciência pode emanar e estender-se como que até ao Infinito e tornar-se Una com Ele, de modo que o homem passa a compreender que o Infinito Apenas é, e que ele, o humanamente consciente, existe apenas como um véu. Compreendido este estado, todas as Luzes da Vida Infinita podem penetrar a alma do sufi, e podem fazê-lo participar na Vida Divina, de forma que ele tem direito de exclamar: “Eu sou Alá”. A invocação do nome Allâh é como que um intermediário que avança e recua entre o cintilar da consciência e os esplendores ofuscantes do Infinito, afirmando a continuidade entre eles e tecendo-os cada vez mais próximos, em comunicação, até que são “unidos em identidade”.

Martin Lings 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A Visão Dzogchen

A essência mais profunda

A VISÃO

Tradicionalmente, o treinamento prático do Caminho Dozogchen é descrito com muita simplicidade em termos de Visão, Meditação e Ação. Ver diretamente o estado absoluto, a Base do nosso ser, é a Visão; o modo de estabilizar essa Visão e fazer dela uma experiência contínua é Meditação; integrar a Visão à nossa realidade total e à nossa vida é o que chamamos Ação.

O que é então a Visão? É nada menos que ver o estado real das coisas como elas são; saber que a verdadeira natureza da mente é a verdadeira natureza de tudo; e atingir a realização de que a verdadeira natureza da nossa mente é a verdade absoluta.

Dudjom Rinpoche diz:

A visão é a compreensão da consciência intrínseca desnuda, dentro da qual tudo está contido: a percepção sensorial e a existência fenomênica, o samsara e o nirvana. Essa consciência intrínseca e imediata tem dois aspectos: "vacuidade" como o absoluto, e "aparência" ou percepção como relativo.

O que isso significa é que todo o conjunto das possibilidades das aparências e todos os possíveis fenômenos em todas as diferentes realidades - todos eles, sem exceção, seja no samsara ou no nirvana - sempre foram e sempre serão perfeitos e completos, dentro da vasta e ilimitada extensão da natureza da mente. Mais ainda, que a essência de tudo seja vazia e "pura desde o início", sua natureza é rica em nobres qualidades, prenhe de todas as possibilidades, um campo ilimitado, incessante e dinamicamente criativo que é sempre perfeito e espontâneo.

Como a mente de sabedoria dos budas pode ser introduzida? Imagine a natureza da mente como seu próprio rosto; está sempre com você, mas não pode vê-lo sem ajuda. Agora imagine que nunca viu um espelho antes. A introdução feita pelo mestre é colocar subitamente um espelho diante de você, no qual pela primeira vez vai ver seu próprio rosto refletido. Tal como seu rosto, a pura percepção de Rigpa [a base do nosso ser] não é algo "novo"que o mestre lhe está dando, ou algo que nunca tenha tido antes, e nem algo que teria a possibilidade de achar fora de si mesmo. Sempre foi seu e sempre esteve com você, mas até aquele momento, surpreendente, você nunca o tinha visto de maneira direta.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Contemplação Dzogchen

Introdução à Meditação

Encontrar-se no estado de contemplação significa estar completamente relaxado, assim se a pessoa se torna apegada a experiências de prazer, ou condicionada por uma visão ou um estado sem pensamentos, isto terá um efeito oposto ao desejado. A fim de relaxar, o indivíduo não deve estar "bloqueado" por uma experiência, tomando-a erroneamente pelo estado de contemplação. Este pode ser um grande obstáculo à realização. Se um praticante permanece absorvido por dias e dias num estado de prazer, ou de vacuidade, sem manter a presença da contemplação, isto é como cair adormecido em uma experiência. Isto acontece quando as experiências são erroneamente assumidas no lugar do verdadeiro objetivo da pessoa.

A prática do Dzogchen pode começar pela fixação em um objeto, a fim de acalmar os pensamentos da pessoa. Então ela relaxa a fixação, dissolvendo a dependência do objeto, e fixa o olhar no espaço aberto. Então, quando ela consegue tornar o estado calmo estável, é importante trabalhar com o movimento dos seus pensamentos e energia da pessoa, integrando este movimento com a presença da contemplação. Neste ponto a pessoa está pronta para aplicar a contemplação ao seu cotidiano.

Se alguma coisa maravilhosa aparece diante de nós, mas nós não entramos em julgamento em relação a ela, ela permanece parte de nossa claridade. O mesmo é verdadeiro se alguma coisa horrível nos aparece. Assim por que nós desenvolvemos desejo por uma e aversão pela outra? Claridade não pertence à nossa mente racional, mas à essência pura do estado primordial, que está além tanto do bom como do mau.

É importante manter a presença na contemplação, sem corrigir o corpo, a voz, ou a mente. O indivíduo precisa encontrar-se numa condição relaxada, mas os sentidos precisam estar presentes e alertas, porque eles são as portas para a claridade. A pessoa relaxa sem esforço nenhum, abandonando toda tensão com respeito à posição do corpo, respiração, e pensamentos, apenas mantendo uma presença vívida.

Quando alguém começa a praticar, pode parecer que a confusão de seus pensamentos está aumentando, mas isto é na verdade devido ao relaxamento da mente. De fato, este movimento de pensamentos sempre existiu; é que apenas agora a pessoa está consciente deles, porque a mente ficou mais clara, da mesma maneira que, enquanto o mar estiver agitado, não se pode ver seu fundo, mas quando ele se acalma pode-se ver o que está lá embaixo.

Quando nos tornamos conscientes do movimento de nossos pensamentos, precisamos aprender a integrá-los com presença, sem segui-los ou deixar-nos distrair por eles. O que queremos dizer com "deixar-nos distrair"? Se eu vejo uma pessoa e tomo uma antipatia imediata por ela, isto significa que eu permiti a eu mesmo ser pego num julgamento mental; isto é, eu me distrai. Se eu mantiver a presença, por outro lado, por que eu deveria tomar antipatia por alguém que eu vejo? Aquela pessoa também é realmente parte de minha própria claridade. Se eu realmente entender isto, todas as minhas tensões e conflitos se dissolverão, e tudo se estabilizará num estado de completo relaxamento.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

No Susto... Está Deus - Ken Wilber (2)

O despertar...                                                                                                

Mumon:  Para compreender essa coisa maravilhosa chamada iluminação você precisa olhar para a fonte dos seus pensamentos, aniquilando-os por essa maneira.

A segunda maior forma de meditação Zen que hoje se pratica é a da “iluminação silenciosa (mo chão)”, conhecida no Japão como shikan-taza, sentado em meditação “só para sentar”. O famoso Mestre do Ch”an, Hung Chih, descreve-a desta feição:

Silenciosa e serenamente esquecemos todas as palavras;
Clara e vividamente Aquilo aparece...
Quando o compreendemos, é vasto e sem limites;
Em sua Essência é percepção pura. 
Refletindo-se singularmente nessa brilhante percepção,
Cheio de assombro neste reflexo puro...
Um assombro infinito impregna esta serenidade, 
Nesta Iluminação todos os esforços intencionais se esvaem.
Silêncio é a palavra final.
O reflexo é a resposta a toda (manifestação). 
Despojada de qualquer esforço,
Essa resposta é natural e espontânea... 
A Verdade da iluminação silenciosa 
É perfeita e completa.


A iluminação silenciosa, despojada de todo esforço ou conceituação, é facilmente reconhecida como a percepção passiva. Mas, então, somos impelidos a perguntar: como a gente chega a essa fase? Não surpreendentemente, a resposta é a que começa o shikan-taza trazendo a mente a um estado de cristal, de alerta vigilante, de atenção intensa mas relaxada. Yasutani Roshi explica: 

Ora, no shikan-taza a mente precisa estar desapressada mas, ao mesmo tempo, firmemente plantada ou maciçamente composta, como, digamos, o Monte Fuji. Mas também precisa estar alerta, estendida, como a corda esticada de um arco. Dessa maneira, o shikan-taza é um estado intensificado de percepção concentrada em que não estamos nem tensos nem apressados e, por certo, nunca nos mostramos frouxos. É a mente de alguém diante da morte. Imaginemos que você esteja empenhado num duelo de esgrima, do tipo que costumava realizar-se no antigo Japão. Enquanto enfrenta o oponente, está incessantemente alerta, resoluto, preparado. Se relaxasse a vigilância, nem que fosse por um momento, teria sido atingido incontinenti. Junta-se uma multidão para assistir à luta. Como você não é cego, vê a multidão com o canto dos olhos e, como não é surdo, ouve o que ela diz. Mas nem por um instante sua mente se deixa capturar por essas impressões dos sentidos.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

No Susto... Está Deus - Ken Wilber

Satori, iluminação, perfeição, despersonalização, desmaterialização - atenção total, perceção não-dual, liberdade... "Eu e o Pai somos Um"

Ken-Wilber - O Espectro da Consciência

Alan Watts:“Tudo o que precisa ser experimentado para a consciência cósmica já está presente, e tudo o que passar disso é obstrutivo e redundante.”Se conduzir a algum lugar, qualquer “como”, qualquer “maneira”, qualquer “caminho” conduz para longe do Agora. Isso reflete o fato de que, na frase de Nagarjuna:“Não há diferença alguma entre nirvana e samsara; não há diferença alguma entre samsara e nirvana”, e na afirmação de Dogen: “a meta e o caminho são um só”, e asseverações semelhantes dos Mestres de cada tradição, de que a iluminação e a ignorância, a realidade e a ilusão, o céu e o inferno, a liberação e a servidão - são todos não-duais e não devem ser separados. Dessa forma, “já estamos aonde todo e qualquer caminho pode levar-nos”.

Quase todos nós, entretanto, nos achamos na posição do homem que acredita que a terra é chata e só compreende o seu engano depois de dar uma volta completa ao mundo e acabar exatamente no ponto em que começou! Estamos convencidos de que carecemos de Mente e, assim, somos induzidos a fazer“exercícios espirituais” de uma forma ou de outra, até chegarmos, afinal, ao lugar exato de onde partimos. Aqui mesmo, agora mesmo. No dizer de Huang Pó:

Ainda que passes por todas as fases da jornada do Bodhisattva rumo ao estado de Buddha, uma por uma; quando, enfim, num único lampejo, atingires a plena compreensão, estarás apenas compreendendo a Natureza de Buddha que esteve contigo durante o tempo todo; e em todas as fases precedentes não lhe terás acrescentado absolutamente nada. Acabarás olhando para essas quantidades de trabalho e consecução como para ações irreais praticadas num sonho.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

"asilo do repouso"- Hubert Benoit

Da humildade

Desejamos concluir este livro enfatizando um aspecto capital dessa compreensão teórica e prática, a única capaz de nos livrar da angústia. Trata-se de compreender a natureza exata da humildade e de perceber que nela está a chave da nossa liberdade e da nossa grandeza.

Estamos vivendo desde já em estado de satori; ficamos entretanto impossibilitados de usufruí-lo devido ao trabalho incessante de nossos automatismos psicológicos que aferrolham dentro de nós um circulo vicioso; nossa agitação imaginativo-emotiva nos impede de ver a nossa "natureza de Buda" e, julgando estar assim privados da nossa realidade essencial, somos forçados a imaginar para compensar essa carência ilusória.

Acredito estar separado de meu "ser" e o procuro para juntar-me a ele. Conhecendo-me apenas como indivíduo separado, procuro o Absoluto num molde individual; desejo me afïrmar absolutamente como ser-separado. Esse esforço cria e alimenta a minha "ficção divina", a minha pretensão fundamental a ser todo-poderoso como indivíduo no plano dos fenômenos.

Esse trabalho compensatório de meus automatismos psicológicos consiste, na minha representação imaginativa das coisas, em negar a minha atenção às constatações da minha impotência, e em retirar a minha pretensão nos casos em que a visão dessa minha impotência não pode ser evitada. Eu me arranjo de modo a jamais reconhecer a igualdade entre mim mesmo e o mundo exterior; declaro-me diferente do mundo exterior, desnivelado em relação a ele, acima dele quando posso, abaixo quando não posso. A ficção segundo a qual eu seria individualmente a Causa Primeira do Universo exige que só se cogite em condicionamento do mundo por mim: ou eu me vejo condicionando o mundo exterior, ou então me vejo incapaz de condicioná-lo, não podendo, porém, jamais reconhecer-me condicionado por ele num plano de igualdade. Daí a ilusão do "Não-Eu"; quando me vejo incapaz, trata-se do "Não-Eu"; eu não quero nunca reconhecê-lo como "Ele", por não ter consciência da hipóstase que nos une.

A impossibilidade em que hoje me encontro de usufruir da minha natureza mesma, da minha natureza-de-Buda, como homem universal e não como indivíduo separado, essa impossibilidade me obriga a fabricar continuamente uma representação radicalmente enganosa da minha situação no universo. Em lugar de me ver em igualdade com o mundo exterior, eu me vejo ora acima dele, ora abaixo, ora "no alto", ora "embaixo". Nessa ótica, na qual o "no alto" é Ser e o "embaixo" é Nada, sou obrigado a sempre fazer esforços em direção ao Ser. Todos os meus esforços tendem necessariamente, de modo direto ou indireto, a me elevar, seja grosseiramente, seja sutilmente ou, como se diz, "espiritualmente".

Antes do satori, todos os meus automatismos psicológicos naturais têm como base o amor-próprio, a pretensão pessoal, a reivindicação de "subir" de uma maneira qualquer; e é essa reivindicação de me elevar individualmente que me esconde minha dignidade universal infinita.

sábado, 30 de abril de 2011

Quem Sou Eu?

O pensamento-eu é a fonte de todos os pensamentos.

A mente só vai se dissolver através da autoinvestigação "Quem sou eu?". O pensamento "Quem sou eu?" destruirá todos os outros pensamentos e depois destruirá a si mesmo também. Se outros pensamentos surgirem, devemos perguntar a quem esses pensamentos ocorrem, sem tentar completá-los. Que importa quantos pensamentos surgem? Na medida em que cada pensamento surgir, devemos estar vigilantes e perguntar para quem ele ocorre. A resposta será "para mim".

Se você perguntar "quem sou eu?", a mente então voltará à sua Fonte. O pensamento que surgiu também desaparecerá. À medida que você praticar dessa forma mais e mais, o poder da mente de permanecer em sua Fonte aumentará.

O Atiyoga do Dzogchen

Com o Atiyoga alcançamos a culminância dos caminhos da realização: o Dzogchen - “a Perfeição Total” - cujo caminho característico, baseado no conhecimento da auto-liberação, não demanda qualquer outra transformação. De facto, quando entendemos o princípio da auto-liberação, reconhecemos que nem mesmo o método transformador do tantra é o caminho final. O ponto fundamental da prática do Dzogchen, chamado de tregchöd, o “relaxamento das tensões”, é repousar no estado da contemplação, enquanto que o caminho de permanecer neste estado é chamado chogshag, “deixando como está”.

A meta do Dzogchen é o redespertar do indivíduo para o estado primordial de iluminação que é encontrado naturalmente em todos os seres.

(A Natureza da Mente)
Namasté

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A Percepção da Beleza

Meditação é a atenção em que existe um estado de consciência, sem escolha, do movimento de todas as coisas – o grasnido dos corvos, o serrote elétrico, cortando a madeira, a agitação das folhas, o riacho barulhento, o menino gritando, os sentimentos, os motivos, os contraditórios pensamentos, e, indo mais para o fundo, a percepção da consciência total. Nesta atenção deixa de existir o tempo, como o dia de ontem, que tem continuidade no dia de amanhã, as distorções e movimentos da consciência aquietam-se e silenciam. Neste silêncio, há um imenso e incomparável movimento; movimento imperceptível, que constitui a essência do sagrado, da morte e da vida. Impossível é segui-lo, pois não deixa vestígio algum e é estático e silencioso, ele é a essência de todo movimento.

O fluxo exterior e interior da existência forma um único movimento. Com a compreensão do mundo exterior inicia-se o movimento interior, mas não em oposição ou em contradição entre si. Cessando o conflito, o cérebro, ainda que altamente sensível e alerta, aquieta-se. Somente então torna-se válido o movimento interior.

Deste movimento surge uma generosidade e uma compaixão que não resultam da razão ou do auto-sacrifício intencional.

A força e a beleza da flor estão em sua total vulnerabilidade. Os ambiciosos desconhecem o belo. A beleza está na percepção da essência de todas as coisas.

O pensamento é matéria e pode ser transformado em qualquer coisa, bela ou feia.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Amor Beleza e Morte

Krishnamurti

Será que podemos investigar, a fundo e com seriedade, se é possível ficar com o problema sem fugir dele? Suponhamos que perca meu filho e, sofrendo com isso um grande choque, experimentando uma dor imensa, descubra que sou um ser humano extremamente solitário. Não consigo encarar nem suportar a situação e, por isso, fujo dela. Há inúmeras formas de fuga - religiosas, mundanas ou filosóficas. Mas será que posso permanecer com o que aconteceu, com essa coisa chamada sofrimento, sem procurar, de modo algum, fugir da dor, da angústia, da solidão, da aflição, do abalo? Será que podemos observar um problema, observá-lo apenas, sem procurar resolvê-lo, olhar para ele como se fosse uma jóia preciosa, de fino acabamento? Para uma coisa bonita olhamos sem parar, sem qualquer desejo de fugir dela; sua beleza nos atrai tanto e tanto prazer nos proporciona que ficamos olhando para ela o tempo todo. Se, da mesma forma, pudermos observar nosso sofrimento, sem um movimento sequer de julgamento ou fuga, ficar com a tristeza... nesse caso, a própria ação de ficar com o fato nos liberta completamente daquilo que produziu a dor. Voltaremos a isso depois.

Desejamos também considerar o que é a beleza - não a beleza de uma pessoa nem de quadros e estátuas de museus, nem os mais remotos esforços do homem para transmitir seus sentimentos através da pedra, da pintura ou de um poema, mas indagar a nós mesmos o que é a beleza. Talvez a beleza seja a verdade. Talvez seja o amor. Sem compreendermos a natureza e a profundidade dessa coisa extraordinária que é a beleza, jamais chegaremos ao que é sagrado. Examinemos, portanto, a questão da beleza.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Aprender a Morrer

Pergunta: Quando considero minha verdadeira natureza, fico no "EU SOU", invade-me um sentimento de amor sem causa. Esse sentimento é correto ou ainda é uma ilusão?

S. Ranjit: É o êxtase do Ser. Você sente a presença do "EU SOU". Você se esquece de tudo, dos conceitos e da ilusão. É um estado não-condicional. Essa felicidade aparece quando você se esquece do objeto, mas na felicidade ainda há um pequeno toque do eu. Afinal, é ainda um conceito. Quando você se cansa do mundo externo, você quer ficar só, para estar consigo mesmo. É a vivência de um estado mais elevado, mas ainda faz parte da mente. O Ser não sente prazer nem desprazer. O completo esquecimento da ilusão significa que nada é, nada existe. Ela ainda está aí, mas para você ela não tem realidade. É a isso que se chama de Constatação, ou Auto-Conhecimento. É a constatação do Ser sem o eu.

Se alguém o chama, você diz "Estou aqui", mas antes de dizer "Estou aqui", você estava. A ilusão não pode colar mais alguma coisa na Realidade. Não pode colar algo extraordinário na Realidade, porque a Realidade está na própria base de tudo que existe. Tudo que existe, tudo que você vê, os objetos da sua percepção, tudo se deve à Realidade. A ignorância e o conhecimento não existem. Então, como é que você poderá expressá-los?

terça-feira, 26 de abril de 2011

Naturalidade - Vacuidade

"Momento após momento, cada um emerge do nada. Esta é a verdadeira alegria da vida."

Há um grande mal-entendido sobre o que seja naturalidade. A maioria das pessoas que vem a nós, acredita em certa liberdade ou naturalidade, mas a concepção que elas têm nós denominamos de jinem ken gedo ou "naturalidade herética". Jinem ken gedo significa que não há necessidade de ser formal - uma espécie de "deixar o policiamento de lado" ou "ficar à vontade". Naturalidade é isso para a maior parte das pessoas. Mas essa não é a naturalidade à qual nos referimos. É um pouco difícil de explicar, mas penso que naturalidade é um certo sentimento de ser independente de tudo, ou alguma atividade que não se baseia em coisa alguma. Naturalidade é algo que emerge do nada, como uma semente ou planta brotando do solo. A semente não tem a menor idéia de ser uma determinada planta, mas tem forma própria e está em perfeita harmonia com o solo, com o ambiente. Com o decorrer do tempo, à medida que cresce, expressa sua natureza. Nada existe sem forma e cor; tudo tem alguma forma e cor. E ambas estão em perfeita harmonia com os outros seres, sem problema. Eis o que queremos dizer por naturalidade.

Para uma planta ou uma pedra, ser natural não é problema. Mas, para nós, há algum problema; de fato, um grande problema. Ser natural é algo pelo qual temos que trabalhar. Quando o que você faz emerge do nada, você experimenta um sentimento inteiramente novo. Por exemplo: naturalidade é comer quando se está com fome. Você se sente natural ao fazê-lo. Mas, quando se tem expectativas demais, comer algo não é natural. Você não tem um sentimento novo. Você não o aprecia.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O que é o Zen?

Zazen - Meditação

O Zen não é decididamente um sistema fundado na lógica e na análise. É algo antípoda da lógica e do modo dualístico de pensar. Pode haver um elemento intelectual no Zen, pois ele é a mente total onde encontramos muitas grandes coisas. Mas a mente não é um composto, que deva ser dividido em tantas faculdades, nada deixando após a dissecação. O Zen nada tem a ensinar, no que diz respeito à análise intelectual, nem impõe qualquer conjunto de doutrinas aos seus seguidores. A esse respeito, o Zen é caótico, se assim o quiserem chamar. Seus adeptos podem formular conjuntos de doutrinas, formulando-os porém por sua conta e para benefício próprio, e não do Zen. Portanto, não há, no Zen, livros sagrados ou assertivas dogmáticas, nem qualquer fórmula simbólica através da qual se obtenha um acesso à sua significação. Se me perguntassem o que ensina o Zen, responderia que ele nada ensina. Qualquer ensinamento que exista no Zen vem mediante nossa própria mente. Ensinamo-nos a nós mesmos. O Zen meramente aponta o caminho. A menos que consideremos este apontar como um ensinamento, nada há no Zen propositadamente estabelecido como doutrinas cardeais ou filosofia fundamental.

domingo, 24 de abril de 2011

"Bhagavad-gita Como Ele É"

S. Maharaj Prabhupada

Mas o que é o Bhagavad-gita especificamente? O propósito do Bhagavad-gita é liberar a humanidade da ignorância da existência material. Entre tantos seres humanos que sofrem, há poucos que realmente inquirem sobre sua posição, sobre o que são, por que foram colocados nesta situação complicada e assim por diante. A menos que a pessoa desperte para essa posição de questionar seu sofrimento, a menos que realize que não quer sofrer e em vez disso realizar uma solução para todos seus sofrimentos, não pode ser considerada um ser humano perfeito. Humanidade começa quando esse tipo de questionamento desperta dentro da mente.

A consciência suprema é similar ao ser vivo da seguinte maneira: ambas consciências do Senhor e dos seres vivos são transcendentais. Não é que a consciência é gerada pela associação com a matéria. Essa é uma idéia errada. A teoria de que a consciência se desenvolve sob certas circunstâncias da combinação material não é aceita pelo Bhagavad-gita.

Quando estamos contaminados pela matéria, somos considerados condicionados. A consciência falsa se exibe com a falsa impressão de que sou um produto da natureza material. Isso se chama ego falso. A pessoa que está absorta no pensamento das concepções corpóreas não pode entender essa situação. O Bhagavad-gita foi falado para liberar a pessoa do conceito corpóreo de vida, e Arjuna se pôs nessa posição a fim de receber esta informação do Senhor. A pessoa tem que se livrar do conceito corpóreo de vida; essa é a atividade preliminar do transcendentalista. A pessoa que deseja ser livre, que quer ser liberada, deve primeiro aprender que não é este corpo material.

Ashtavakra Gita - desapego

Ashtavakra:

Enquanto um homem de inteligência pura pode alcançar a meta por mais casual instrução, outro pode buscar o conhecimento por toda sua vida e ainda permanece confuso.

Libertação é desgosto para os objetos dos sentidos. Escravidão é o amor dos sentidos. Este é o conhecimento. Agora, faça como quiser.

Esta consciência da verdade faz um homem eloquente, inteligente, enérgico, burro, estúpido e preguiçoso, por isso é evitado por aqueles cujo objectivo é o prazer.

Você não é o corpo, nem o seu corpo é o executor das ações ou o ceifador das suas consequências. Está eternamente na pura consciência a testemunha, não precisa de nada - por isso viva feliz.

O desejo e a raiva são objetos da mente, mas a mente não é sua, nem nunca foi. Está sem escolha, a própria consciência é imutável - assim viva feliz.

Reconhecendo-se em todos os seres, e todos os seres em si mesmo, seja feliz, livre do sentido de responsabilidade e sem preocupação com o 'eu'.

sábado, 23 de abril de 2011

Ser livre...

Visitante: Se eu sou livre, porque estou em um corpo?

Maharaj: Voce não está no corpo, o corpo está em você! A mente está em você. Acontecem a você. Existem porque os acha interessantes. A sua própria natureza tem a capacidade infinita de desfrutar. Está cheia de animação e afeto. Ela derrama seu brilho em tudo o que entra no seu foco de consciência, e não exclui nada. Não conhece nem o mal nem a feiúra; ela espera, confia, ama. Você não sabe quanto perde por não conhecer seu próprio ser real. Você não é nem o corpo nem a mente, nem o combustível nem o fogo. Eles aparecem e desaparecem segundo suas próprias leis.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

A Presença Consciente

M = Maharaj   -   V = Visitante

M: Agora, diga-me, você está sentado diante de mim aqui e agora. O que exatamente pensa que ‘você’ é? 

V: Sou um ser humano do sexo masculino, quarenta e nove anos, com certas medidas físicas e certas esperanças e aspirações.

M: Qual sua imagem de si mesmo dez anos atrás? A mesma de agora? E quando você tinha dez anos de idade? E quando você era uma criança? E mesmo antes disto? Sua imagem de si mesmo não mudou o tempo todo?

V: Sim, o que considero como minha identidade mudou todo o tempo.

M: E, no entanto, não há alguma coisa, quando pensa sobre si mesmo – no fundo do coração –, que não mudou?

V: Sim, há, embora eu não possa especificar o que é exatamente.

M: Não seria o simples sentido de ser, o sentido de existir, o sentido de presença? Se você não estivesse consciente, seu corpo existiria para você? Haveria qualquer mundo para você? Teria, então, qualquer pergunta sobre Deus ou o Criador?

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O Presente da Águia

Cinco Proposições Explicativas

1 — O que percebemos como mundo são os comandos da Águia.

Dom Juan explicou que o mundo que percebemos não tem existência transcendental. Nossa familiaridade com ele nos leva a acreditar que o que percebemos é um mundo de objetos existentes como os percebemos, quando na verdade não há um mundo de objetos, mas sim um universo dos comandos da Águia.

Esses comandos representam a única realidade imutável. É uma realidade que engloba tudo o que existe, o perceptível e o não-perceptível, o conhecível e o não conhecível.

Os observadores que vêem as emanações da Águia chamam-nas de comandos por causa da sua força compulsória. Todas as criaturas vivas são compelidas a usar as emanações, e usam-nas sem nunca saberem o que elas significam. O homem padrão interpreta-as como realidade. E os observadores que vêem as emanações interpretam-nas como o regulamento.

Rumo À Meta Suprema

Até que o Amor e Devoção a Deus cresçam, não se pode ter consciência da natureza transitória e sem substância do mundo. O mundo é apenas um e não pode ser dividido em compartimentos, uma parte dada a Deus e outras partes cheias de desejos por fama, nome e objetos sensórios. Deus não pode ser realizado a menos que a mente inteira seja dada a Ele. A menos que se possa fazer isto, terá que se nascer repetidas vezes no mundo e sofrer misérias sem fim.

Para renunciar ao mundo não se necessitam tornar-se monge ou se retirar para a floresta. A verdadeira renúncia é da mente. Se você abandonar ao mundo mentalmente, será a mesma coisa permanecer no mundo ou ir à floresta. Se você for para a floresta, sem renunciar completamente ao seu apego mental pelos objetos mundanos, o mundo o seguirá até lá e o atormentará do mesmo modo; não há escapatória disto.